Política

Empenho para socorrer o BRB além das diferenças ideológicas

"Todas as ações que vierem a fortalecer o Distrito Federal, nós faremos", disse Celina Leão sobre a possibilidade de conversar com o Palácio do Planalto. "Tenho que saber a minha responsabilidade", acrescentou

Na primeira agenda à frente do Governo do Distrito Federal, Celina Leão (PP) afirmou que não fará "guerra ideológica" à frente do Palácio do Buriti e que buscará apoio do governo federal, se necessário, para fortalecer o Banco de Brasília (BRB). "Todas as ações que vierem a fortalecer o Distrito Federal e, se a gente necessitar pedir alguma coisa à União, nós faremos", afirmou.

Celina ressaltou que, embora tenha posicionamento político definido, a gestão será guiada por pragmatismo. "Brasília inteira sabe que eu sou uma governadora de direita, mas tenho que saber a minha responsabilidade. Aquilo que eu precisar pedir em nome da população do DF ao presidente Lula ou a qualquer outro que seja de outro espectro político, eu farei", declarou.

Segundo ela, eventuais parcerias com o governo federal podem ser fundamentais para fortalecer o banco público. "A Caixa Econômica Federal pode nos ajudar, tem vontade de ajudar, com fundos fortes. Não tenho vaidade em relação a isso", destacou.

A governadora indicou que outras instituições também podem participar de uma eventual estratégia de recuperação do BRB, reforçando que o foco será técnico. "A régua pela qual quero ser julgada é a condição da nossa cidade e a recuperação do BRB, com transparência", disse.

Em discurso durante a sessão solene de posse na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), Celina Leão reforçou que nunca participou de decisões que não refletissem o interesse público. "O BRB é um patrimônio do povo do DF. Deixo claro que não participei de nenhuma decisão, sequer fui consultada sobre o assunto. No nosso governo não cabe omissão", afirmou.

Ela também ressaltou que as investigações seguem em andamento na Justiça, de forma independente e transparente. "Este governo não será obstáculo e será garantidor de todas as respostas para que elas venham à luz. E assim eu inicio esse novo governo. Momentos novos exigem uma postura muito clara. Transparência será prática. Responsabilidade será método", declarou.

Prazo

Acaba nesta terça-feira (31/3) o prazo para a entrega do balanço de 2025 do Banco de Brasília (BRB). Foi solicitada a extensão do prazo ao Banco Central, mas até o fechamento desta edição, o BRB não havia divulgado se o BC acatou o não essa ampliação. Ao Correio, o presidente do BRB, Nelson de Souza, esclareceu que o pedido está relacionado ao momento atípico enfrentado pela instituição. "Como somos um banco com ações em bolsa, a maioria divulga os balanços até 31 de março, mas, como estamos passando por esse momento, é algo totalmente aceitável que possamos passar desse prazo", afirmou. Hoje, Celina deve se encontrar com o presidente do BRB para tratar de ações de saneamento do banco. 

Enquanto isso, o GDF tenta viabilizar uma solução emergencial para reforçar o caixa do BRB. O Executivo local enviou ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) um pedido formal de empréstimo de R$ 4 bilhões, com o objetivo de auxiliar na capitalização da instituição financeira. O documento, assinado pelo então governador Ibaneis Rocha (MDB), foi encaminhado na terça-feira da semana passada e marca uma mudança na estratégia adotada até então, ao buscar apoio fora da estrutura direta do governo.

A solicitação foi estruturada dentro de uma modalidade de suporte financeiro de natureza estrutural, prevista pelo próprio FGC, voltada a instituições que enfrentam dificuldades patrimoniais. Pelos termos apresentados, a operação prevê um período de carência de um ano e meio, com pagamentos realizados de forma semestral. Como garantias, o GDF ofereceu participações acionárias em empresas públicas do Distrito Federal, como Caesb, BRB e CEB, além de imóveis incluídos na lei recentemente aprovada pela Câmara Legislativa, que autoriza o uso desses ativos em operações financeiras.

Para aumentar as chances de aprovação do pedido, o governo elabora um conjunto de documentos técnicos que serão submetidos ao FGC. Entre eles estão um plano de negócios detalhado, um plano de capitalização e um diagnóstico das principais necessidades do banco, incluindo fatores como captação de recursos, liquidez e redução de riscos. Além disso, a proposta contempla a estrutura de garantias, um mapeamento dos ativos disponíveis e seus respectivos ônus, além de um cronograma de implementação das medidas e de governança para monitoramento das ações. A expectativa é que esse material sirva como base para demonstrar a viabilidade da operação e a capacidade de recuperação do BRB no médio prazo.

O processo, no entanto, ainda está em fase inicial e depende da análise do FGC quanto à viabilidade da operação, ao nível de risco envolvido e à adequação às regras do fundo.

Assembleia 

Enquanto o tempo corre, os acionistas aguardam a nova data para a assembleia-geral extraordinária para aumentar o capital social da instituição. A assembleia, que estava agendada para o último dia 18, e foi adiada sem data definida, também será estratégica para a discussão da proposta de aumento do capital social da instituição financeira. O banco prevê a emissão de até 1,675 bilhão de novas ações ordinárias, ao preço de R$ 5,29 por ação. Caso o valor máximo seja alcançado, o capital social da instituição poderá passar dos atuais R$ 2,34 bilhões para a quantia de até R$ 11,2 bilhões.

 

Entre o diálogo com Lula e a aliança bolsonarista

Ana Maria Campos

A governadora Celina Leão (PP) tem pela frente um desafio para governar e fazer campanha à reeleição. À frente do Palácio do Buriti, em meio a uma crise no Banco de Brasília (BRB), ela tem que construir pontes com o presidente Lula, com quem precisará dialogar para buscar soluções para a liquidez da instituição financeira.

No figurino de candidata, Celina é bolsonarista. Vai buscar votos ao lado da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, defender o governo Jair Bolsonaro e garantir o palanque no Distrito Federal para o filho 01, Flávio Bolsonaro, candidato adversário de Lula.

Como Celina vai equilibrar essas duas agendas? A de governadora da capital do país e a de candidata bolsonarista ao Palácio do Buriti. Aliados acham que é possível, embora certamente os adversários no Distrito Federal vão trabalhar para dinamitar as pontes.

Celina terá entre os adversários de campanha dois candidatos da base do governo Lula: Leandro Grass (PT) e Ricardo Cappelli (PSB). Eles já têm tentado associar a governadora à crise envolvendo o Banco Master e o BRB.

Mas a governadora demonstrou habilidade política em situações críticas. No episódio do 8 de janeiro de 2023, a então vice-governadora assumiu o Palácio do Buriti com o afastamento de Ibaneis Rocha (MDB), em decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Principalmente nas primeiras semanas, o embate com o GDF era forte, porque o presidente Lula e o então ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino, chegaram a defender uma intervenção ainda maior do que a que se concretizou, na área de segurança pública.

Celina manteve o diálogo com o governo Lula, com o ministro da Defesa, José Múcio, e até com o agora adversário Ricardo Cappelli, nomeado por Lula como interventor. Na gestão do governo, o período transcorreu com tranquilidade.

Agora o GDF precisa de ajuda do governo federal, por meio de instituições como o Banco do Brasil ou a Caixa Econômica Federal, mas o presidente Lula, segundo interlocutores, já advertiu que não ajudaria o BRB.

Lula não esconde a antipatia com Ibaneis. O sentimento é recíproco. Com Celina, no entanto, não há barreiras, além das eleitorais, para a abertura de um diálogo. Ontem, depois de tomar posse, a nova governadora admitiu procurar o governo federal.

Outro desafio de Celina será compor a coligação que a levará à campanha à reeleição. A candidata precisa compatibilizar três pretensões ao Senado: a de Ibaneis, a de Michelle Bolsonaro (PL) e a de Bia Kicis (PL).

Interessa ao bolsonarismo eleger dois nomes ligados diretamente ao ex-presidente. Ibaneis é um concorrente de direita, mas com ligações importantes com o Judiciário. No Senado, dificilmente confrontaria o STF.

Celina, no entanto, precisa do apoio dos três políticos. Ela não pode abrir mão do apoio de Michelle, que quer ter Bia Kicis a seu lado. Mas também não pretende se distanciar de Ibaneis, com quem está diretamente ligada politicamente. Equilibrar esses interesses vai ser um exercício de construção política.

Outro desafio de Celina é mostrar que ela é quem manda agora e não deixar que aliados demonstrem que ela é refém. Nos bastidores, a governadora deverá atender pedidos de aliados, sempre que considerar razoáveis ou justos. Mas ela precisa deixar claro que assumiu o governo. O poder é dela.

Ontem mesmo, o presidente da Câmara Legislativa, Welington Luiz (MDB), subiu em carro de som para criticar o secretário de Economia, Daniel Izaias de Carvalho, por conta de uma demanda de policiais penais. Ele disse que será o primeiro a obstruir a pauta, caso o governo não encaminhe projeto que reestrutura a carreira. Wellington é aliado de primeira hora de Celina. Mas ela precisa deixar claro que há limites.

 

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