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Entre o grego e o concreto: a pioneira que decifrou a vida na capital

Moradora da 307 Sul desde 1968, a educadora e apaixonada por línguas clássicas Clea de Lourdes, de 93 anos, transformou a mudança para Brasília em uma história de conquistas pessoais e familiares

Cléa de Lourdes é movida pela paixão por música, dança, e outras culturas -  (crédito: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)
Cléa de Lourdes é movida pela paixão por música, dança, e outras culturas - (crédito: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)

Aos 93 anos, Clea de Lourdes carrega uma história de paixão pelo conhecimento. Pioneira, chegou à capital em 1968, depois de viver por 14 anos em Anápolis (GO), trazendo consigo o marido e seis filhos. Todos estavam com disposição de recomeçar.

A decisão de mudar não foi simples, mas foi movida por sonhos compartilhados. "Meu marido, dentista, ficou com muita vontade de vir para cá, e eu também. Viemos com a cara e a coragem", relembra. A aposta deu certo: todos os filhos — o sétimo, brasiliense — se formaram e construíram suas próprias trajetórias acadêmicas e profissionais. Atualmente, tem médica, dentista, artista, cientista social, advogado, educador físico e administrador na família. 

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Determinada a continuar estudando, Clea ingressou na área da educação. Passou em concurso para a Fundação Educacional, cursou pedagogia na Universidade de Brasília (UnB) e, posteriormente, concluiu um mestrado em literatura brasileira. Atuou como professora por anos, lecionando tanto na rede pública quanto no ensino superior. "Foi muito gratificante ter vindo para Brasília, porque eu pude aperfeiçoar meus estudos, e os meus filhos puderam fazer a faculdade. Trabalhei 12 anos na UDF", afirma.

Desde sua chegada, Clea nunca deixou o apartamento na 307 Sul. "Quando chegamos,  encontramos este apartamento e compramos. Juntamos o que tínhamos. Era bem localizado, perto de escola, mercado e igreja. Sempre foi meu sonho morar perto dessas coisas. Deus ouviu minhas preces", conta. Para ela, a cidade tinha vida, naquela época, distante das dificuldades enfrentadas pelos primeiros pioneiros.

Paixão pela Grécia

Apaixonada por literatura e linguagens, Clea estudou muitos idiomas antigos e que deixaram de existir. Seu interesse a levou ao latim, tupi antigo, grego antigo, além de línguas como inglês, espanhol e francês. "Tudo que eu via e estudava vinha dos gregos. Meu nome é grego. Sou apaixonada pela Grécia. Fui conhecer aqueles lugares que eu tinha estudado e foi maravilhoso. A melhor viagem que já fiz", diz a pioneira, que conheceu cerca de 30 países.

A educação também foi um valor transmitido dentro de casa. Clea incentivou as filhas a explorarem a arte e a cultura, realizando um sonho pessoal ao colocá-las no balé e em aulas de música. "Acho lindo, me realizei", relembra.

Clea também guarda memórias do encontro em uma missa com o ex-presidente Juscelino Kubitschek. "Foi um sonho para todo mundo a construção de Brasília. Um sonho que se realizou. Fui numa missa que o JK estava. Ele dançava muito bem, era um pé de valsa. Era muito carismático", recorda.

Hoje, após décadas vivendo na capital, Clea não esconde o sentimento de pertencimento. "Eu tive uma vida excelente aqui com os meus filhos. Só posso amar esse lugar que me levou para a frente. Meus filhos se criaram aqui, estudaram, se divertiram, têm muitos amigos. Como é que eu não vou gostar? Já me sinto uma completa estranha quando vou à minha terra. Sou praticamente brasiliense. Só o sotaque que ficou", conclui.

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postado em 20/04/2026 03:00
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