
Sair da aldeia e chegar a Brasília é atravessar dois mundos. De um lado, a vida em meio à natureza, onde o tempo é marcado pelo ritmo da terra, pelo som dos rios e pelo coletivo que sustenta a comunidade. Do outro, a capital do país, com seus prédios imponentes, o concreto, o trânsito intenso e um modo de vida acelerado e distante dessa relação direta com o território. Para muitos povos indígenas, esse deslocamento não é apenas geográfico, mas também sensorial, cultural e emocional. O corpo e a alma sentem o impacto do clima seco, da poluição e da rotina urbana. Ainda assim, é nesse cenário que lideranças e jovens indígenas chegam para lutar por direitos, dar visibilidade às suas demandas e garantir a continuidade de seus povos. Entre o estranhamento e a resistência, Brasília se torna, ao mesmo tempo, um espaço de confronto e de voz.
Ana Carolina, 17 anos. Descendente do povo Kadiwéu; Aldeia Limão Verde, Mato Grosso do Sul (foto que abre esta matéria).
Chegar aqui despertou muitas sensações ao mesmo tempo. Um pouco de surpresa, um pouco de encantamento, um pouco de estranhamento também. Dá saudade de casa, porque é tudo muito diferente. Mas também é uma experiência importante, que faz a gente enxergar outros caminhos, outras realidades. No fim, é isso: um misto de sentimentos.
Cacique Tucano, Márcio Ramos da Silva, 37 anos. Etnia: Tupinambá; extremo sul da Bahia.
Sair do território e vir para uma cidade como essa é sempre impactante. Os prédios altos, o concreto, o movimento, tudo isso mostra o quanto os mundos são diferentes. A cidade impressiona, mas é na terra, na floresta, no território, que está o nosso verdadeiro lar. É de lá que vem a nossa força e é por ele que seguimos lutando.
Vice-cacique Tatuarã, Rubens Ramos da Silva, 41 anos. Etnia: Tupinambá; extremo sul da Bahia.
Às vezes, a gente estranha, se sente fora do lugar aqui. Mas também é uma experiência, porque, quando olhamos esses prédios altos, a gente também pensa: por que o nosso povo não pode se fortalecer, se expandir, ocupar espaços? E é isso que estamos fazendo. Hoje, além de resistir, também buscamos nossos parentes que estão na cidade, que foram afastados, excluídos.
Leonardo Alcântara Alves, 17 anos. Etnia: Terena; Mato Grosso do Sul.
Quando cheguei, senti um frio na barriga, um misto de surpresa e encantamento. Ao mesmo tempo que é bonito, também dá uma sensação de estar um pouco perdido. Mas aí eu encontrei os parentes. Vi tanta gente reunida, tantos povos, tantas histórias. E isso trouxe acolhimento. Fez aquele estranhamento virar pertencimento.
Caique Tupurumã, 32 anos. Etnia: Pataxó; Aldeia Barra Velha, sul da Bahia.
Vir a Brasília nunca é por acaso. Já são anos participando dessa caminhada, dessa luta que se repete, mas nunca perde o sentido. A gente sai da aldeia com um propósito maior: buscar o que é básico e, principalmente, lutar pela demarcação do nosso território. Porque sem terra demarcada, não há paz. Há ameaça, há invasão, há medo constante.
Tohõ Pataxó, 37 anos. Etnia: Pataxó; Aldeia Flecha Forte, extremo sul da Bahia.
Vir a Brasília nunca é apenas uma viagem. É um chamado. É quando nossas vozes se encontram e se fortalecem. A gente vem com um propósito: levar daqui caminhos para proteger o nosso território, denunciar o que vivemos e seguir lutando pelos nossos direitos. Mas a cidade é um contraste. O corpo sente. O calor é diferente, o ar é seco. Para quem vem da mata, onde o ar é vivo, isso impacta. Não é uma sensação fácil.
Tanara Pataxó, 25 anos. Etnia: Pataxó; Aldeia Velha, região de Porto Seguro, Bahia.
Os prédios, o avanço das construções, tudo isso revela uma distância da natureza que, para nós, é difícil de não sentir. Existe uma sensação de afastamento daquilo que é essencial. Ao mesmo tempo, também existe força, porque aqui também estão os povos indígenas. Estão as vozes que resistem, que informam, que lutam para manter viva a nossa cultura e para que ela seja respeitada.

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