O terceiro dia do júri da maior chacina do Centro-Oeste avança para o interrogatório dos réus. Hoje, às 9h, jurados, advogados de defesa e acusação e promotores esperam ouvir o depoimento dos acusados de dizimar 10 pessoas da mesma família. Ontem, 11 testemunhas prestaram depoimento em plenário — três são sigilosas e falaram a portas fechadas —, encerrando a fase de oitivas.
São julgados Fabrício Silva, Horácio Carlos, Gideon Batista, Carlos Henrique e Carlomam dos Santos. Eles respondem a processos de homicídio qualificado, sequestro, fraude processual e sequestro.
Às 9h de ontem, os depoimentos em plenário iniciaram com uma testemunha sigilosa. Minutos depois, o delegado Ricardo Viana, que conduziu as investigações da época, iniciou o depoimento de pouco mais de seis horas. Em detalhes, Viana descreveu a dinâmica do crime, a ordem de execuções e a atribuição de cada um dos réus no plano sanguinário, que objetivava a apropriação da chácara de uma das vítimas, Marcos Antônio Lopes.
Entre as declarações prestadas pelo investigador, está a acusação de que um dos acusados, Carlomam dos Santos, participou diretamente nas execuções das vítimas. Carlomam foi o penúltimo suspeito a ser preso na época dos crimes, em 25 de janeiro de 2023. Antes dele, a polícia chegou ao encalço de Horácio Carlos, Gideon Batista, Fabrício Silva e Carlos Henrique.
Ricardo Viana afirmou que Carlomam se entregou na 30ª Delegacia de Polícia (São Sebastião) com um lenço branco em mãos, em alusão à “paz”. “Ele disse que queria se entregar para pagar pelo o que fez. Eu ainda falei que a pena desse mundo era pequena, e que ele pagaria por esse crime em outro juízo. Ele só respondeu que sabia”, detalhou o delegado sobre o dia da prisão.
Carlomam entrou no rol de suspeitos após a perícia papiloscópica feita no cativeiro onde as vítimas foram mantidas reféns, no Vale do Sol, em Planaltina. “O papiloscopista me ligou de madrugada e informou sobre a identificação e possível presença de outra pessoa no cativeiro. A partir daí, começamos a investigar”, frisou Viana.
Segundo o investigador, o depoimento confesso de Carlomam foi verossímil com os elementos já colhidos durante a investigação. “Constatamos que a ordem detalhada por ele conduzia com o que tínhamos de provas.”
Ao final do depoimento de Viana, pouco mais de 17h, as defesas de Carlomam e Carlos requereram um novo depoimento por identificar possíveis contradições. O Ministério Público se manifestou contrário. “Se há alguma divergência notada pela defesa, que seja resolvida e questionada agora”, afirmou o promotor Nathan da Silva. O juiz deferiu o pedido da defesa. Com a decisão, o delegado fica à disposição para prestar um novo depoimento até o fim do júri.
Relação de intimidade
O namorado de Gabriela Belchior, uma das vítimas, também prestou depoimento no Tribunal do Júri. Evidenciou a convivência próxima e aparentemente amistosa de Gideon com as vítimas antes dos crimes.
Segundo o relato, Gideon frequentava a casa de Gabriela, Marcos Antônio e Renata Belchior com regularidade. De acordo com a testemunha, ele participava de momentos cotidianos ao lado da família, como almoços de fim de semana, churrascos e até sessões de filmes.
O depoente descreveu um ambiente de convivência íntima, no qual não havia, até então, sinais evidentes de conflito. “Eles almoçavam juntos, passavam tempo juntos, assistiam filmes”, indicou, ao detalhar a relação de proximidade entre o acusado e as vítimas.
Ainda conforme o testemunho, Gideon também circulava com naturalidade entre a residência principal e a casa vizinha, o que reforça, segundo a acusação, o grau de acesso que ele tinha ao núcleo familiar.
O namorado de Gabriela relatou ainda que, antes do desaparecimento, houve tentativas de contato com integrantes da família, sem sucesso. Em 28 de dezembro de 2022, recebeu uma mensagem da jovem informando que iria viajar, mas o avisaria ao retornar. Dias depois, estranhando o sumiço, ele enviou mensagem para Thiago Belchior, irmão de Gabriela e uma das vítimas, questionando sobre o paradeiro da namorada.
“A Gabriela me mandou um áudio de voz dizendo que estava tudo bem. Ao fundo, a Renata também falou comigo. Eu acreditei”, afirmou. Dias depois, a informação sobre a tragédia chegou pela televisão.
Justiça
Os últimos depoimentos foram marcados pela comoção da família. Os dois filhos mais velhos de Elizamar da Silva e uma das irmãs de Renata Belchior choraram no plenário, pediram por Justiça e desabafou sobre a dor causada pela barbárie. “O crime é de uma grandiosidade tão absurda que, enquanto enterrávamos a Renata e Gabriela, minha tia infartou. Hoje, somos uma família doente. Depois da morte delas, enterramos mais familiares. Chegou em um ponto em que não tínhamos mais dinheiro para os custos do sepultamento”, contou uma das irmãs de Renata.
Ela diz confiar na Justiça e pediu pena máxima aos réus. “Todos foram responsáveis pelas mortes. Não tem essa de que só vigiou o cativeiro. Vigiou sabendo que todas seriam mortas”, desabafou.
A testemunha também descreveu as impressões sobre a personalidade de Gideon. “Depois de toda a tragédia, uma tia me contou que estava com Gideon na praia, na Bahia, e ela disse que estava perfeito o final da tarde e só faltava um cigarro para melhorar. Ele respondeu que não havia nada melhor do que o olhar de uma pessoa clamando pela vida na hora da morte. Depois ligamos os pontos”, disse.
