
O segundo dia do julgamento da maior chacina do Centro-Oeste foi atravessado por uma linha menos factual e mais subjetiva: a exposição dos perfis de personalidade dos acusados e da relação íntima que mantinham com as vítimas antes da execução em série.
Depoimentos colhidos ao longo do dia reconstruíram não apenas a dinâmica do crime, mas sobretudo, o ambiente de confiança que antecedeu a barbárie. São julgados Fabrício Silva, Horácio Carlos, Gideon Batista, Carlos Henrique e Carlomam dos Santos. Eles respondem pelos assassinatos de Marcos Antônio Lopes; da esposa de Marcos, Renata Juliene Belchior; da filha de Marcos e Renata, Gabriela Belchior de Oliveira; do filho deles, Thiago Gabriel Belchior de Oliveira; da esposa de Thiago, Elizamar da Silva; dos filhos de Thiago e Elizamar, Rafael, Rafaela e Gabriel; da ex-companheira de Marcos Cláudia da Rocha Marques; da a filha de Marcos e Cláudia, Ana Beatriz Marques de Oliveira.
Ao longo desta terça-feira (14/4), testemunhas descreveram um convívio estreito entre Gideon Batista e a família assassinada — almoços, encontros informais e circulação livre entre as casas —, cenário que, para a acusação, evidencia o grau de acesso que teria facilitado a ação criminosa.
Segundo o relato do namorado de Gabriela, Gideon frequentava a casa de Gabriela, Marcos Antônio e Renata Belchior com regularidade e participava de momentos cotidianos ao lado da família.
O depoente descreveu um ambiente de convivência íntima, no qual não havia, até então, sinais evidentes de conflito. “Eles almoçavam juntos, passavam tempo juntos, assistiam filmes”, indicou, ao detalhar a relação de proximidade entre o acusado e as vítimas.
A ruptura entre essa aparente normalidade e a violência do desfecho ganhou contornos mais nítidos com relatos que buscaram delinear traços de frieza e distanciamento emocional atribuídos aos réus. Um dos episódios mais emblemáticos citados em plenário por uma das irmãs de Renata envolve uma conversa ocorrida antes dos crimes entre Gideon e uma tia da testemunha. O diálogo teria ocorrido durante uma viagem à praia, na Bahia.
Segundo a familiar, Gideon, ao ser confrontado com um comentário sobre o cenário, respondeu que nada seria mais satisfatório do que observar o olhar de alguém implorando pela própria vida no momento da morte. “Depois ligamos os pontos”, afirmou a testemunha.
Nesta quarta-feira (15/4), o júri avança para interrogatório dos réus. Às 9h, jurados, advogados de defesa e acusação e promotores esperam ouvir o depoimento dos acusados.
Ao fim do dia, o plenário já não se limitava à reconstituição dos fatos: avançava sobre o território das motivações, das condutas e das personalidades — elementos que passam a compor o pano de fundo do julgamento que, agora, entra na fase de interrogatório dos réus.

Cidades DF
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