BRASÍLIA 66 ANOS

Brasília acontece nas sombras das árvores, entre Blocos e Quadras

Enquanto na 308 Sul, o modelo do projeto urbanístico de Lúcio Costa une educação, lazer e convivência em um mesmo espaço, na 312 Norte, quem veio para a capital do país encontra a vida interiorana, com um cotidiano que resiste ao tempo

Brasília não nasceu com lembranças, elas foram sendo construídas, pouco a pouco, nos corredores dos blocos, nas sombras dos pilotis e na busca de uma cidade dos sonhos. No aniversário da capital, é nas superquadras que essa memória ganha forma mais nítida. E poucas contam essa história tão bem quanto a 308 Sul e 312 Norte, duas faces de uma mesma cidade: uma feita de ideias que resistem ao tempo, enquanto a outra de encontros.

A 308 Sul também está impressa no próprio desenho da quadra. Inaugurada oficialmente em 1962, a superquadra é considerada o exemplo mais fiel do projeto urbanístico de Lúcio Costa, uma espécie de resumo do que Brasília sonhou ser.

Conhecida como "quadra modelo", a 308 Sul integra o conceito de unidade de vizinhança, pensado para reunir moradia, educação, lazer e convivência em um mesmo espaço. Ao lado das quadras vizinhas, forma um conjunto onde tudo foi planejado para funcionar em escala humana.

Ali, os edifícios não são protagonistas, são pano de fundo. Entre eles, o verde se impõe, e os azulejos de Athos Bulcão dão identidade aos espaços.

 

Carlos Vieira/CB/D.A Press -
Paulo Gontijo / CB -
Paulo Gontijo / CB -
Paulo Gontijo / CB -
Marcelo Ferreira/CB/D.A Press -

Para o prefeito da quadra, Matheus Seco, arquiteto de formação, viver na 308 Sul é experimentar, na prática, um conceito que atravessou décadas. "A ideia do chão livre permite que as pessoas circulem sem barreiras. É um espaço fluido, pensado para ser público", explica.

Mais do que arquitetura, ele destaca a permanência de um modo de vida. "O espírito de vizinhança existe. As pessoas usam os espaços, as crianças vão para a escola a pé, o comércio está próximo. É uma vida que ainda funciona como foi imaginada", afirma.

A quadra também se destaca pelo nível de preservação. Grande parte do projeto original segue intacto, resultado de um esforço coletivo entre moradores e instituições. "Existe uma consciência de que isso aqui é patrimônio. Não só de quem mora, mas da cidade e até do país", diz.

Ao caminhar pela 308 Sul, não é raro encontrar visitantes, brasileiros e estrangeiros, interessados em ver de perto o que tornou Brasília um marco da arquitetura moderna. Mas, para quem vive ali, o valor vai além do reconhecimento. Está no cotidiano.

"Essa quadra foi pensada para as pessoas. E, de certa forma, ainda funciona assim", resume o prefeito.

A 312 Norte

A quadra 312 Norte, considerada a mais antiga da Asa, foi ocupada em 1966, quando Brasília ainda era uma promessa. Cercada por terra vermelha, começava a receber seus primeiros moradores em edifícios que, para a época, pareciam imensos. Blocos com até 96 apartamentos surgiam como ilhas de concreto em meio a um território em formação, desenhando o início de uma comunidade.

Com onze blocos residenciais e uma comercial que atravessa o cotidiano de quem mora, trabalha ou apenas passa por ali, a quadra cresceu junto com a cidade. E, ao longo dos anos, foi se transformando em algo que vai além de um endereço.

Para quem chega hoje, essa história ainda é perceptível, mesmo que de forma sutil. A pesquisadora Gabriela Madureira, de 34 anos, mudou-se em outubro de 2025 para a quadra e encontrou ali um ritmo que contrasta com a ideia comum de uma capital acelerada. "A gente veio de uma cidade do interior de Minas Gerais e achou que sentiria muito o impacto. Mas aqui não. É tranquilo, arborizado… tem esse clima de cidade pequena", conta.

A escolha pela região foi prática, mas o vínculo veio rápido. "A gente olhou vários lugares, mas aqui chamou atenção. É tudo muito organizado. No começo parece confuso, mas depois você percebe que tudo faz sentido", diz, referindo-se ao traçado planejado da cidade.

No dia a dia, a 312 oferece aquilo que muitas grandes cidades já perderam: tempo e espaço. "Eu consigo passear com meu cachorro, fazer minhas atividades sozinha. É um lugar que passa tranquilidade. E eu gosto de ver as crianças andando, brincando… isso diz muito sobre o lugar", afirma.

Essa sensação, que para Gabriela é descoberta, para outros é permanência. Morador desde 1979, o advogado Edilberto Mourão, de 69 anos, viu a quadra se transformar, sem deixar de ser, em essência, a mesma. "Aqui sempre teve uma convivência muito parecida com cidade do interior. Muita gente veio de fora, principalmente do Nordeste, e trouxe esse jeito mais próximo de viver. Isso ficou", relembra.

Ao longo das décadas, ele viu vizinhos chegarem, ficarem, formarem famílias e permanecerem. "Tem gente que casou aqui, teve filho aqui, criou os filhos aqui… e hoje os netos estão fazendo o mesmo caminho. É como se fosse uma grande família", diz.

A mudança mais visível, segundo ele, veio com o crescimento da cidade. "Naquela época quase não tinha carro. Hoje é difícil achar vaga na quadra. A segurança também mudou. Mas a convivência, de certa forma, ainda resiste", avalia.

Mais do que transformação urbana, o que a 312 guarda é um tipo de pertencimento difícil de explicar. "Minhas raízes estão aqui. Minha história está aqui", resume.

Um olhar especializado

A lógica por trás dessa experiência cotidiana ajuda a explicar por que as superquadras ainda despertam pertencimento. Para o urbanista Ricardo Meira, Brasília representa uma das expressões mais completas do urbanismo moderno. "A superquadra não foi uma invenção do zero. Ela parte da ideia de unidade de vizinhança, mas a reconfigura para conciliar a escala monumental da cidade com uma escala mais íntima, do cotidiano", explica.

Segundo ele, o grande diferencial está no desenho que induz a convivência. "Ao implantar os blocos em projeções e manter os pilotis livres, cada superquadra se transforma em um espaço público contínuo. Isso incentiva a interação social e cria uma experiência coletiva do morar", afirma.

É nas superquadras que Brasília revela sua dimensão mais humana. "É aqui que a cidade deixa de ser símbolo e se torna lugar. O pertencimento não é espontâneo, ele é construído pela repetição das experiências: o caminho a pé, a criança que cresce ali, o comércio do dia a dia. Isso cria memória e identidade", diz.

Entre a 312 Norte e a 308 Sul, Brasília se revela em duas dimensões que se completam. De um lado, a cidade vivida, feita de histórias, encontros e afetos. Do outro, a cidade pensada, desenhada com rigor, intenção e sonho.

No encontro entre essas duas quadras, nasce algo raro: uma capital que, apesar de planejada, é profundamente humana.

 

Mais Lidas