Chacina do DF

Júri da chacina entra no 5º dia com sustentação das defesas dos réus

"Você nunca mais vai sair da cadeia." A frase, dita pelo promotor Marcelo Leite a Gideon Batista, acusado de ser o mentor do assassinato de 10 pessoas de uma mesma família, marcou o quarto dia do julgamento dos cinco réus

O julgamento da chacina que matou 10 pessoas da mesma família entra na reta final e chega ao quinto dia com a sustentação oral das defesas. Após os interrogatórios dos cinco réus e o pronunciamento de promotores do Ministério Público do DF, quatro advogados e uma defensora pública terão três horas e meia para tentar convencer os jurados.

Ontem, a fase dos interrogatórios encerrou com as oitivas de Carlomam dos Santos e Carlos Henrique. Na quarta-feira, prestou depoimento Gideon Batista — ele atribuiu a uma das vítimas, Thiago Belchior, a autoria —, Horácio Carlos, que ficou em silêncio, e Fabrício Silva, que desmentiu Gideon e o apontou como o "cabeça".

Carlomam apresentou versão semelhante à delatada por Fabrício. Com a promessa de pagamento de R$ 500 mil, relatou que o plano, inicialmente, era a obtenção de dinheiro. Ele confessou ser o encarregado dos sequestros das vítimas Marcos Antônio, Renata Juliene Belchior e da filha do casal, Gabriela Belchior.

"O Gideon me deu a arma, e meu papel era somente sequestrar o Marcos, mas o matei ao atirar sem querer. O gatilho estava acionado", detalhou.

Com a morte de Marcos, segundo ele, o plano desandou. O corpo de Marcos foi levado da chácara ao cativeiro alugado por Gideon, no Vale do Sol, onde foi esquartejado e enterrado. "O Horácio e o Gideon cortaram os membros", disse. Posteriormente, Gideon ordenou o sequestro de Renata e Gabriela, ainda segundo ele. As duas permaneceram em cativeiro junto à ex-mulher de Marcos, Cláudia Rocha, da filha Ana Beatriz e de Thiago Belchior, filho de Marcos.

Crianças

Questionado sobre a morte de Elizamar da Silva e dos filhos, Rafael, Rafaela e Gabriel, Carlomam negou participação. Alegou que a mulher e as crianças foram atraídas à chácara após Elizamar receber uma mensagem enviada por Thiago. "Ela (Elizamar) pediu para o Horácio deixá-la ir embora, porque ela não tinha nada a ver com aquilo ali", afirmou.

Gideon e Horácio teriam sido os responsáveis pela morte da cabeleireira e das crianças. Elizamar foi asfixiada, e os menores queimados vivos. Carlomam sustentou em plenário que estava em outro carro e viu, pelo retrovisor, o carro sendo queimado.

Ainda de acordo com a narrativa, Cláudia e Ana foram assassinadas após Gideon descobrir que Cláudia registraria um boletim de ocorrência do desaparecimento de Marcos. "Elas foram abordadas na casa onde moravam, durante um processo de mudança." As duas foram degoladas e jogadas em uma cisterna, ação essa que teria sido cometida por Horácio, afirmou. "Joguei só o cal e fugi."

O último a falar foi Carlos Henrique. Ele negou envolvimento nos assassinatos e afirmou ter sido convidado por Carlomam para cometer um assalto contra Thiago Belchior, na chácara de Marcos Antônio. Para o serviço, receberia R$ 5 mil. "Falaram para eu pegar apenas o celular e o cartão do Thiago", afirmou. 

Acusação

No plenário, os promotores Nathan da Silva, Daniel Bernoulli e Marcelo Leite apresentaram as provas juntadas ao processo e pediram condenação máxima aos réus. Nathan classificou o crime como um "empreendimento das trevas" e afirmou que a barbárie foi resultado de uma ação "organizada durante meses, friamente calculada e desejada".

Segundo o representante do Ministério Público, a morte do patriarca Marcos Antônio marcou o ponto de não retorno da sequência criminosa. "A morte de Marcos já anunciava a morte das demais vítimas", afirmou.

"Você nunca mais vai sair da cadeia." A frase, dita diretamente a Gideon, marcou o momento mais contundente da acusação no julgamento. Ao se dirigir ao acusado, Marcelo Leite adotou um discurso direto. A fala veio acompanhada de uma crítica ao comportamento dos acusados em plenário. Leite classificou as versões apresentadas como marcadas por "cinismo" e tentativa de manipulação.

"Há perversidade, mentira e covardia. Não só no crime, mas também nos interrogatórios", afirmou. Segundo ele, houve esforço deliberado para inverter a lógica dos fatos, inclusive com tentativas de atribuir responsabilidade às próprias vítimas.

Na mesma linha, o promotor Daniel Bernoulli reforçou a tese de que o crime foi motivado por interesses financeiros. "Essa turma morreu por causa de terra, por causa de R$ 2 milhões", declarou. Ele também rechaçou a alegação de disparo acidental na morte inicial. "Não considero acidental. Houve ação consciente", disse.

Os promotores destacaram o conjunto probatório como um dos mais robustos já apresentados em Tribunal do Júri. "É DNA, digital, confissão. Em 26 anos de júri, nunca vi tanta prova", disse Leite.

 


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