Quase 60 dos 70 anos de vida de João Evangelista de Sena Bonfim foram vividos no Distrito Federal. Tempo suficiente para atravessar gerações e ajudar a moldar uma identidade esportiva da capital. Piauiense de Teresina, chegou a Brasília em 2 de março de 1967, encontrou uma cidade em formação e fez das pistas o canteiro pessoal de obras. Professor, treinador e pioneiro do atletismo, criou, em 1990, o Centro de Atletismo de Sobradinho (Caso), projeto que não apenas revelou atletas, mas colocou a cidade no mapa da modalidade.
Integrante do primeiro Centro de Iniciação Desportiva (Cid) do DF, ajudou a lançar atletas como Carmem de Oliveira, uma das maiores corredoras de fundo do Brasil e primeira brasileira campeã da Corrida de São Silvestre, mas identificou cedo a falta de continuidade para quem chegava à fase adulta. Em resposta, fundou o Caso e, hoje, orgulha-se das mais de 700 medalhas nacionais e internacionais conquistadas pelo projeto.
Brasília não foi apenas cenário na trajetória de Sena: tornou-se propósito. Aqui, construiu a base pessoal e profissional, conciliando, por 35 anos, o trabalho no Banco Central e na Secretaria de Educação com a formação de atletas. "O meu projeto sempre foi servir bem. O Banco Central financiou a minha paixão pelo atletismo, e a Secretaria de Educação me deu a oportunidade de encontrar jovens talentosos", conta. Mais do que formar atletas, o objetivo sempre foi maior: dar oportunidade para os competidores se tornarem cidadãos e campeões.
A relação com a cidade também se consolidou fora das pistas. "As oportunidades de Brasília foram fundamentais. Até os adversários do atletismo são amigos. Brasília é um lugar de paz", descreve Sena.
Se ele ajudava a estruturar o caminho fora de casa, dentro dela, a marcha atlética também ganhava forma. Esposa de Sena, Gianetti Bonfim, pioneira da modalidade no país e octacampeã brasileira, conheceu a prova quase por acaso, em um cenário ainda sem estrutura ou visibilidade. "Quando comecei, não havia nada. Eu vinha da corrida e acabei na marcha porque era a prova que restava. Ninguém falava sobre isso", lembra ela, nascida em 1965 e orgulhosamente parte da primeira geração de brasilienses natos.
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Rotina
O que começou como improviso se transformou em base. Entre treinos, maternidade e rotina esportiva, a modalidade passou a fazer parte do cotidiano da família. "Nunca imaginamos que o Brasil se tornaria um polo. Fomos vivendo um dia de cada vez, construindo aos poucos."
Em três décadas e meia, Sena e Gianetti ajudaram a transformar a marcha atlética em uma das identidades esportivas do Distrito Federal, criando uma base que atravessa gerações e mantém a modalidade viva na cidade. Foi nesse ambiente que cresceu Caio Bonfim. Na infância, acompanhava o pai na rotina de treinos e vivia o atletismo antes mesmo de entender o que aquilo representava.
"Meu pai sempre foi apaixonado por atletismo. Eu cresci vendo-o encher o carro de meninos pra treinar", lembra. A convivência diária transformou a pista em extensão de casa, e o esporte, em linguagem comum entre pai e filho. "Brinco que a pista do Augustinho Lima é minha segunda casa. Para o meu pai, é a primeira. Foi ali, visitando-o, que eu me apaixonei pelo atletismo."
Com o tempo, a relação de Sena e Gianetti com Caio precisou ser testada no ambiente de alto rendimento. A proximidade entre pai e treinador, antes natural, passou a ser questionada. A sugestão veio de fora: separar as funções poderia ser o caminho mais seguro para a evolução do atleta. Caio decidiu seguir com quem sempre esteve ao lado.
A escolha de manter a estrutura familiar no ambiente profissional não foi apenas afetiva. Foi também a continuidade de um método construído ao longo de décadas. "O atletismo precisa de resultado. Eu faço trabalho social, mas exijo compromisso com o alto rendimento. "Aqui, tudo é eficiência, dedicação e disciplina", afirma Sena.
A confiança no processo trouxe as medalhas. "Quando começaram a sair os resultados, as pessoas passaram a acreditar mais. Foi ali que o trabalho ganhou força", destaca o treinador.
Do outro lado, a relação se consolidava não apenas na rotina de treinos, mas na forma como pais e filho atravessaram juntos cada etapa da carreira. "Choramos muito juntos nas derrotas e nos abraçamos muito nas vitórias", resume Caio.
Hoje, Sena e Gianetti se orgulham de terem participado da construção de uma trajetória vitoriosa e de ver o legado iniciado em 1990 seguir em movimento. Em 12 de abril, Caio Bonfim completou o álbum de medalhas com o bronze na meia-maratona do Mundial de Marcha Atlética por equipes. O marchador de Sobradinho, prata nos 20km nos Jogos Olímpicos de Paris-2024, soma, ainda, quatro pódios em Mundiais de Atletismo e títulos no circuito internacional.
Para Sena, a marcha atlética deixou de ser apenas a modalidade que revelou Caio Bonfim e passou a ocupar um espaço próprio na identidade esportiva da cidade. "Hoje, a marcha atlética deixou de ser apenas o esporte do Caio. Virou uma identidade de Brasília. Quando se fala em atletismo na cidade, fala-se em marcha. Somos conhecidos no Brasil como a capital da marcha."
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