Chacina

'Eu preciso viver para ver o final disso', diz mãe de uma das vítimas da chacina

Sentada em frente ao Tribunal do Júri de Planaltina, Antônia Lopes de Oliveira, de 92 anos, acompanha o desfecho do julgamento da maior chacina do DF e relata como a fé a mantém de pé após perder o filho, netos e bisnetos

Sentada em frente ao Tribunal do Júri de Planaltina, com um andador metálico posicionado logo ao lado, Antônia Lopes de Oliveira, 92 anos, aguarda o veredicto da maior chacina do Centro-Oeste. Ela é mãe de Marco Antônio Lopes de Oliveira, avó de Gabriela, Thiago e Ana Beatriz e bisavó dos pequenos Gabriel, Rafael e Rafaela, todos vítimas do crime ocorrido em janeiro de 2023.

Moradora do Gama, ela fez questão de estar presente nas sessões ocorridas nesta última semana. "Eu vou suportar até o fim", afirma, com o olhar de quem já enterrou seis dos seus sete filhos ao longo da vida, mas nenhum de forma tão brutal quanto o caçula. "Meu filho não era filho de chocadeira. Eu vim aqui para mostrar que ele tinha mãe", desabafa, pontuando que sua presença ali é um ato de dignidade e busca pela verdade.

A lucidez de dona Antônia contrasta com o horror dos detalhes que ela ouviu no plenário. Ela relata a dor dilacerante de saber o que aconteceu com os netos e bisnetos. "Botaram fogo neles. Uma crueldade tamanha. Eu ajudei a criar aquelas coisinhas pequenas", conta, emocionada.

Ela revela que por pouco não foi a 11ª vítima. Na época do crime, ela estava em viagem a Pernambuco, cidade natal. "Eles me procuraram até pelo telefone, mas não me acharam porque Deus tem um plano para cada um de nós. Eu estou aí, pisando em cima da mentira".

Busca por justiça 

Para aquela que é vítima em vida da chacina, a morte não seria punição suficiente. "A morte não resolve nada. Eu quero que eles se arrependam, mas não é se arrepender somente em seus últimos dias. É se lembrando que matou crianças inocentes", diz.

Com a visão curta e tendo perdido 6 kg desde o início do julgamento, ela encontra forças na oração e no trabalho manual para administrar o sofrimento. "A minha visão tá curta, meu ouvido tá paralisado, sabor de comida eu não sinto, mas eu preciso viver para ver o final disso aí. Esse final vai ser na eternidade, porque aqui tudo passa. As nuvens passam, mas o céu fica. O céu somos nós".

Neste sábado (18/4), dona Antônia prepara-se para a leitura da sentença, prevista para esta noite. "O tempo de eu chorar é quando chego em casa à noite. Eu choro para lavar a alma mesmo. Mas aqui, eu defendo os meus", destaca, enquanto segura o terço em seu pescoço.


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