Por Jorge Henrique Cartaxo*
"Se algum dia a civilização ganhar essa paragem longínqua, talvez uma grande cidade se levante na campina extensa que te serve de soco, velho Buriti Perdido... Então, talvez, uma alma amante das lendas primevas, uma alma que tenhas movido ao amor e à poesia, não permitindo a tua destruição, fará com que figures em larga praça como monumento às gerações extintas, uma página sempre aberta de um poema que não foi escrito, mas que referve na mente de cada um dos filhos desta terra." — in Buriti Perdido. (Placa de tombamento do Buriti que contempla a Praça do Buriti — 30/5/1985)
A nação tapuia — o povo não tupi-guarani — que habitava os sertões, que viriam a ser depois o Brasil Central, recebeu de Tupã — o deus dos ventos, dos raios, do trovão e da temida força da natureza — a única semente da rainha das florestas: o buriti (uma palmeira). Com inveja e desprezo, Mauari, um espírito guarani — inimigo dos tapuias —, brandiu todo o seu ressentimento: quando a ganância e o ódio dominassem a Terra, a palmeira deixaria de produzir, e as águas secariam. Advertido, Tupã tranquilizou os tapuias. O buriti permaneceria abençoado, prosperaria por toda a região — valorizando os brejos e as nascentes — e estaria ao lado da esperança, da defesa da vida e das pessoas do bem. Seria a árvore da vida! Dele viriam alimentos, remédios, óleos, artesanato e a reunião de uma ampla diversidade da natureza (tucanos, araras, macacos...).
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Os Melo Franco chegaram ao vilarejo que viria a ser Paracatu, na primeira década do século 18, no início do ciclo do ouro. Afortunados com a descoberta de uma mina de diamantes, construíram uma dinastia de aristocratas intelectuais e homens públicos de grande influência na cultura e na política brasileira. Afonso Arinos de Melo Franco nasceu em Paracatu no dia primeiro de maio de 1868 e faleceu, prematuramente, aos 47 anos, em Barcelona, na Espanha, em 1916. Afonso, após concluir o curso de direito em São Paulo, foi morar em Ouro Preto, onde deu aula de história no Liceu Mineiro. Integrou também a equipe de fundadores da Faculdade de Direito de Minas, onde foi professor de direito criminal.
Na Revolta da Armada de 1893, houve uma diáspora política no Rio de Janeiro. Um grupo importante de intelectuais se "exilou" em Ouro Preto, como Olavo Bilac, Aurélio Pires, Sabino Barroso, Coelho Neto e Diogo de Vasconcelos. Arinos, então com apenas 25 anos, foi o grande anfitrião do seleto grupo carioca. Refinado, carismático, culto, observador atento do país e do mundo, o jovem advogado e professor fez de sua casa um centro de encontros e de grandes debates sobre a cultura e a política brasileiras. Suas histórias sobre os sertões do Brasil encantaram a todos e, com elas, foram abertas, para Arinos, as portas dos jornais e revistas do Rio de Janeiro.
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Em 1898, Melo Franco publicou seus dois clássicos mais conhecidos: Pelo Sertão e Os Jagunços. O primeiro, uma reunião de contos escritos entre 1888, 1889 e 1895 — quando o autor tinha entre 19 e 26 anos —, que abriga a sua prosa poética mais festejada: Buriti Perdido. Cenários e linguagens de um Brasil a se conhecer e a se revelar. O segundo, uma novela sertaneja escrita para o jornal O Comércio de São Paulo, em 1897, inspirada na Guerra de Canudos. Em 1915, agora no Teatro Municipal de São Paulo, Afonso Arinos fez um conjunto de inovadoras conferências sobre as lendas e as tradições brasileiras. E mais: levou ao palco do Municipal a peça Reisadas — de sua autoria — quando se apresentaram o compositor e cantor Catulo da Paixão Cearense e o bumba meu boi.
Nesses três momentos, não raro com vantagens antecipatórias da realidade brasileira, Afonso Arinos, em Pelo Sertão, dialoga com Guimarães Rosa, que publicaria Grande Sertão: Veredas, em 1956. No romance Os Jagunços, seu interlocutor involuntário é Euclides da Cunha, que publicou, em 1902, Os Sertões. Textos densos e profundos sobre o desamparo do homem das nossas matas, vales, rios e montanhas. Entrava em cena o sertanejo, sua bravura e abandono. Nas festejadas conferências no Teatro Municipal, quem o prestigiava era o jovem Mário de Andrade, expoente da Semana de Arte Moderna de 1922, que iria trazer para a estética da nova cultura brasileira, então em construção e descoberta, as nossas tradições populares. Em todos os momentos, estava o Brasil Central e a sua gente. Estava o nosso Planalto Central, onde hoje está a nossa cidade de Brasília.
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Em 1959, na antevéspera da inauguração de Brasília, Afonso Arinos de Melo Franco (o sobrinho), recém-eleito senador da República pelo Rio de Janeiro, sugeriu ao então presidente da Novacap e gestor da construção de Brasília, Israel Pinheiro, que fizesse do buriti, sob a inspiração do poema Buriti Perdido, o símbolo de Brasília. Definia-se também, naquele momento, o nome da praça que abrigaria o buriti que ali seria plantado e do palácio onde seria a sede do futuro governo da capital. A primeira muda não resistiu. No dia 26 de agosto de 1969, dia da inauguração do Palácio do Buriti pelo então prefeito de Brasília, Wadjô da Costa Gomide, um novo buriti foi plantado na mesma praça.
No dia 30 de maio de 1985, dezesseis anos depois, o então governador José Aparecido tombou a palmeira símbolo de Brasília, que embeleza a nossa memória e compromisso. "Estamos tombando um sonho. Por meio deste ato, pereniza-se, no projeto simples e claro de Lucio Costa, o sonho antecipado do primeiro Afonso Arinos, autor de Pelo Sertão. Em Buriti Perdido, texto de 1894 no qual se confundem as fronteiras da prosa e da poesia, Afonso Arinos vislumbrou a metrópole sertaneja espraiada em torno de um velho buriti", disse José Aparecida ao iniciar a solenidade do primeiro tombamento em Brasília, ao lado do senador Afonso Arinos de Melo Franco (sobrinho).
*Jorge Henrique Cartaxo é jornalista, mestre em história pela Universidade Paris-Sorbonne
