CASO MASTER

Crise deve deixar BRB menor antes de voltar a crescer, afirma Nelson de Souza

Banco de Brasília venderá ativos e deve reduzir agências e cortar despesas, num esforço de governança para recuperar credibilidade no mercado e viabilizar novo ciclo de crescimento com sustentabilidade financeira

O presidente do Banco de Brasília (BRB), Nelson de Souza, afirmou ao Correio que a instituição deve diminuir antes de retomar a expansão, com foco em controle e sustentabilidade financeira. "O BRB será menor nesse primeiro momento para recomeçar um crescimento gradativo, com compliance, dentro da capacidade instalada, além de crescer com margem de rentabilidade compatível com uma instituição financeira", disse.

Nelson de Souza havia informado ao Correio que analisa um plano de redução de despesas que resultará no fechamento de agências e cortes em diferentes áreas do banco que não estiverem dando resultados. "Vamos mensurar caso a caso, sem nenhum alarde. Onde tivermos negócios que sejam bons para o banco, vamos manter, como em Tocantins, João Pessoa e Maceió, onde temos folha de pagamento", antecipou. "Nossa prioridade é manter o bom atendimento e o conforto dos clientes", completou. 

Na ocasião, Nelson destacou que o projeto de contenção de despesa, neste momento, é muito forte. "Precisamos fazer (cortes) para ser (um banco) cada vez mais saudável. Não adianta só fortalecer e capitalizar. É preciso melhorar a governança, o operacional, a tecnologia da informação, incluir elementos novos na área de inovação", citou, na última quarta-feira ao programa CB.Poder — parceria do Correio com a TV Brasília.

Professor de economia da Universidade de Brasília (UnB), César Bergo explicou que a proposta de se tornar uma instituição reduzida envolve uma reestruturação profunda. "Ser mais enxuto significa reduzir custos, rever contratos e tornar a estrutura mais leve. É uma gestão mais austera", disse. Ele alerta que o movimento tem limites. "Esse tipo de ajuste também tem custo e, muitas vezes, indica uma atuação mais defensiva do banco", completou.

Newton Marques, economista e especialista em mercado financeiro, questionou o que está por trás do discurso: "Um banco enxuto precisa ser mais produtivo e lucrativo. Se há excesso de custos, baixa rentabilidade e operações arriscadas, é isso que precisa ser corrigido". 

Participação

Com a aprovação, por meio da assembleia geral extraordinária, da emissão de 2,5 bilhões de novas ações, com preço fixado em R$ 5,36, o Governo do Distrito Federal deve expandir a sua participação como acionista do BRB, caso os acionistas minoritários não exerçam seu direito de preferência no aumento de capital. Isso se dará com o GDF garantindo o aporte necessário para cobrir o rombo deixado pela gestão de Paulo Henrique Costa, que comprou ao menos R$ 21,9 bilhões de ativos do Banco Master, parte deles, títulos fantasmas e, outra parte, com indícios de irregularidades ou muito frágeis.

Apoio

Além da emissão de novas ações, o BRB espera o aval do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para um empréstimo de R$ 6,6 bilhões. Segundo Nelson de Souza, as tratativas estão cada vez mais avançadas. "Tivemos várias reuniões nos roadshows que fizemos. Nessas nossas idas, chegamos a ter posições firmes com relação a esse assunto, a ter essas garantias. Tivemos reuniões com o FGC semana passada. Ficamos bem adiantados com relação ao assunto a ser resolvido e quais as maneiras mais rápidas de aportar esses recursos", afirmou. 

O banco estuda usar, como garantia, a dívida ativa do GDF, que pode chegar a R$ 52 bilhões, além de solicitar apoio do governo federal para auxiliar nas negociações das garantias. "A medida é uma saída criativa para um momento de necessidade de reforço de capital ou garantias, mas não é isenta de riscos. Para o BRB, o saldo é positivo no curto prazo porque viabiliza o acesso a recursos do FGC. Entretanto, a longo prazo, a qualidade dessa garantia depende estritamente da eficiência do GDF em cobrar esses devedores. Se a securitização for bem modelada, o BRB transforma um "problema" do estado em uma solução de liquidez para o banco", explica Renan Silva, professor de economia do Ibmec Brasília.

Rebaixamentos

Após o início da operação Compliance Zero, em novembro de 2025, o BRB passou por uma sequência de rebaixamentos em sua classificação de crédito. O mais recente foi feito pela agência Moody's, que colocou a instituição em nível elevado de risco, indicando deterioração relevante nas condições financeiras do banco.

A nota caiu de BBB-.br para CCC .br. Além disso, o rating de depósitos de curto prazo foi reduzido. Em relatório, a agência afirmou que a qualidade de crédito do BRB é muito fraca em relação a outras entidades nacionais e provavelmente está próxima de um default (termo usado para indicar o risco de a instituição não conseguir cumprir suas obrigações), sem a concretização de um aporte de capital. 

Entre os fatores que pesaram na decisão do rebaixamento está o descumprimento do prazo legal para a divulgação das demonstrações financeiras de 2025, encerrado em 31 de março. Para a Moody's, a ausência desses dados amplia as incertezas sobre a real situação financeira do banco e sua capacidade de gerar negócios.

O relatório chama atenção para a estrutura de controle da instituição, vinculada ao GDF, apontando possíveis impactos na percepção de risco por parte do mercado.

Perda de confiança

César Bergo disse que o principal impacto do rebaixamento é direto: a perda de credibilidade. "O rebaixamento afeta a reputação do banco. Para captar recursos no mercado, ele vai ter que pagar juros mais altos. Isso é um grande problema", afirmou. Segundo ele, as consequências aparecem no médio e longo prazo: "O banco passa a ter dificuldade de conseguir crédito. Isso impacta o crescimento, o volume de negócios e o total de ativos que ele administra".

Apesar do cenário negativo, o especialista pondera que o rebaixamento não significa crise imediata. "Não indica quebra ou intervenção, mas é um alerta claro de que o banco está perdendo confiança no mercado", completou.

Newton Marques detalhou o funcionamento das avaliações de risco e reforçou o peso do rebaixamento na nota de crédito. "Quando uma instituição tem sua nota rebaixada, significa que ela não oferece condições de segurança suficientes. Isso obriga o banco a pagar mais caro para captar recursos", explicou. Na prática, isso compromete toda a operação: "Com mais dificuldade para captar, o custo aumenta, a rentabilidade cai e a confiança diminui. É um efeito em cadeia".

Newton chama atenção para o papel das agências de classificação. "Elas não determinam que uma empresa vai quebrar, mas indicam o nível de risco. Quanto mais baixa a nota, maior a fragilidade", declarou.

 

 

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