
Colaborou Manuela Sá*
"Precisamos reaprender a envelhecer". É o que observa a servidora pública Cristina Segatto, de 67 anos. "Não achávamos que iríamos alcançar as idades a que chegamos hoje. Diante do aumento da expectativa de vida, é necessário rever paradigmas". Ativa no mercado de trabalho, ela faz parte da chamada economia prateada do Distrito Federal, termo que se refere ao ecossistema de atividades econômicas, produtos e serviços voltados à população 60 .
"No DF, temos uma população idosa com alto nível de escolaridade e renda, superior à média nacional. Isso impulsiona setores como saúde suplementar, turismo especializado, educação continuada e bem-estar. Economia prateada não é apenas sobre gasto, mas também sobre um mercado pujante que movimenta o nosso PIB (Produto Interno Bruto)", explica Diana Vaz de Lima, contadora, professora da Universidade de Brasília (UnB) e pós-doutora em contabilidade e controladoria.
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Com 13,9% da população composta por pessoas idosas, de um universo de 2,9 milhões de moradores, o DF ostenta o maior rendimento médio do país para essa faixa etária, assim como ocupa o primeiro lugar no ranking das unidades da Federação onde, proporcionalmente, a terceira idade que mais acessa a internet, conforme dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Segundo projeções do Observa DF, da UnB, em 2040, a cada quatro pessoas, uma será idosa. O salto demográfico, que redefine a face da capital federal, é o ponto de partida de Moderno é envelhecer, a nova série de reportagens do Correio, cujo objetivo é traçar um diagnóstico sobre o que significa ter mais de 60 anos no DF em 2026.
A primeira reportagem mergulha na economia prateada, revelando o idoso como um motor financeiro essencial para o desenvolvimento local. Nas próximas edições, investigaremos os desafios na saúde e mobilidade, as novas possibilidades de lazer e a urgência do combate ao etarismo. Mais do que uma fase da vida, envelhecer é o destino de uma Brasília que se transforma.
Expertise
Para a servidora Cristina Segatto, que não tem interesse em se aposentar no momento, o contato com novas tecnologias permite maior crescimento profissional. Epidemiologista da Secretaria de Saúde do DF (SES-DF), ela interage constantemente com sistemas livres — nos quais o usuário tem liberdade para mexer no próprio software. "No trabalho, uso muito a inteligência artificial (IA) para a elaboração de documentos e organização de aulas", conta. Além do uso profissional, Cristina também incorpora a tecnologia ao lazer para assistir a filmes e jogar com os três netos.
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De acordo com a professora Diana Vaz de Lima, a permanência da terceira idade no mercado tem transformado positivamente a economia prateada da capital. "Muitos idosos, quando se aposentam, decidem abrir consultorias e assessorias técnicas, em vista do capital intelectual que acumularam ao longo dos anos. Trata-se de um grupo com alto preparo e expertise. Assim, criam novos postos de trabalho e geram renda com a contratação de terceiros, movimentando o cenário do empreendedorismo no DF", avalia.
Dados do boletim População Idosa no DF, do Instituto de Pesquisa e Estatística do DF (IPEDF), em parceria com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), mostram que a maior parte dos idosos ocupados atua como autônomos, servidores públicos ou trabalhadores formalizados em empresas privadas. Como empreendedores, o grupo também tem conquistado maior presença.
"Se desacelerar, morro"
Atualmente, do total de empreendedores do DF, 9,1% são pessoas idosas — quase 40 mil —, dos quais mais da metade investe no setor de serviços, conforme números de 2025 do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). É o caso de Isabel Di Pilla. Aos 70 anos, ela é proprietária de uma academia de jiu-jitsu em Sobradinho II que, hoje, conta com 160 alunos e oito funcionários.
Para a empreendedora, manter o corpo em movimento é essencial. Foi por influência do filho que ela entrou no mundo do jiu-jitsu, aos 56 anos. À época, conta, havia o estigma de que o esporte era praticado por arruaceiros. Seu filho, no entanto, conquistava cada vez mais reconhecimento na cidade até que foi convidado para dar aula nos Estados Unidos. Com a mudança, Isabel sentiu um distanciamento. "Queria me reaproximar dele. Então falei: 'Vou treinar jiu-jitsu'", recorda.
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O envolvimento com a arte marcial a levou a competir em diversos eventos, como o Mundial Masters em Las Vegas (EUA), do qual foi campeã de sua categoria na última edição de agosto de 2025. "Decidi investir no esporte, porque vejo o impacto que ele tem na vida das pessoas. Elas ganham disciplina e motivação", afirma.
Formada em direito e economia, Isabel utilizou sua experiência para gerir o próprio negócio. Ela define o empreendimento como um propósito de vida: "Se eu desacelerar, morro. Fico pelo caminho". Neste ano, planeja abrir mais uma escola e, nos próximos 10 anos, inaugurar mais quatro unidades. "Fora do tatame, o que pensam de mim não me interessa", completa.
Histórias como a de Isabel mostram que o envelhecer no DF não deve ser sinônimo de declínio, mas de oportunidade. É o que reforça a professora da UnB Diana Vaz, especialista em previdência e envelhecimento. "O idoso é um grande motor econômico, porque possui uma renda previsível e garante a demanda em setores de serviço e comércio. Precisamos pensar a terceira idade como o principal impulsionador de estabilidade e consumo qualificado na nossa capital", explica.
"Tenho potencial"
Manter-se ativo, no mercado de trabalho ou não, também perpassa a busca por novos conhecimentos. Foi com esse objetivo que Terezinha da Silva, 66, decidiu começar a graduação em jornalismo na UnB, há um ano, após trabalhar por quatro décadas como cuidadora de idosos no Lago Sul. Ao se aposentar, em 2020, não quis ficar parada.
Ao saber pela irmã do Vestibular 60 , inscreveu-se, motivada pelo desejo de voltar ao mercado de trabalho. Na segunda tentativa, garantiu a vaga no curso de comunicação. Seu desejo é cobrir os acontecimentos do Congresso Nacional. A estudante observa que a forma como as pessoas lidam com a terceira idade, no geral, tem mudado. "Lembro-me quando era menina e me mudei de Serra do Salitre (MG) para Brasília. À época, meu pai tinha 40 anos e todos o chamavam de velho. Hoje, não é mais assim. Me reconheço como idosa, mas não me considero velha. Ainda tenho potencial", reforça.
Consumidores fiéis
Cada vez mais perto dos 70 anos, a epidemiologista Cristina Segatto avalia ter conseguido equilibrar bem o trabalho com atividades de lazer, como pilates, dança e projetos voluntários. Com o próprio dinheiro, aproveita momentos com a família, fazendo questão de viajar uma vez por ano. Na hora das compras, ela prioriza o contato presencial, um acalento após horas em frente ao computador no trabalho.
Segundo o estudo Brasil Prateado, do núcleo de pesquisa Data8 — que investiga as tendências e inovações sobre a economia da longevidade —, os principais consumos prateados mensais são aqueles que visam assegurar necessidades básicas de moradia, alimentação, transporte e saúde. Projeções indicam que, em 2034, esse grupo será responsável por cerca de 43% do consumo total no setor de saúde (pública e privada) do país, com planos de saúde, consultas, suplementos, medicamentos e cirurgias.
Mesmo diante de um cenário promissor em relação ao consumo, vale se atentar aos excessos. Isso porque, no DF, há um crescimento constante na quantidade de inadimplentes, cuja marca chegou a 283.435 idosos negativados em março de 2026 — um salto significativo em relação aos anos anteriores, conforme levantamento da Serasa. Segundo Aline Vieira, educadora financeira da empresa, a regra de ouro nesses casos é nunca colocar a própria sustentabilidade financeira em risco para ajudar terceiros.
Na próxima reportagem: confira como a terceira idade tem cuidado da saúde — e sido cuidada — no Distrito Federal.
Saiba Mais
Três perguntas para (apenas para o site)
Diana Vaz de Lima, professora do Departamento de Ciências Contábeis e Atuariais da UnB, contadora e pós-doutora em contabilidade e controladoria.
Como o idoso brasiliense tem equilibrado a inflação local com aposentadorias que muitas vezes ficam estagnadas enquanto os preços sobem?
O idoso enfrenta um desafio atuarial: os benefícios previdenciários nem sempre captam a "inflação da terceira idade", marcada por aumentos acima da média em medicamentos e planos de saúde. No DF, o custo elevado dos serviços pressiona o consumo. O equilíbrio acaba sendo buscado por meio de uma reeducação financeira e, infelizmente, pela compressão do consumo de itens não essenciais. O grande risco é a descapitalização do idoso para cobrir custos fixos de sobrevivência em uma capital tão cara.
O aumento da expectativa de vida dos servidores brasilienses exige que tipo de adaptação nas contas públicas?
O envelhecimento é uma certeza estatística. Isso exige uma gestão fiscal rigorosa e a revisão constante das premissas atuariais para evitar déficits na previdência, que é financiada pelo Tesouro. Precisamos gerir melhor os ativos capitalizados para que a rentabilidade componha os fundos previdenciários. É necessário adaptar as políticas públicas para considerar a longevidade como uma conquista social que pode — e deve — ser mensurada.
Como você avalia o fenômeno do idoso como o principal mantenedor financeiro de famílias inteiras no DF?
É comum observarmos em Brasília famílias multigeracionais sustentadas pela aposentadoria do idoso. Ao assumir o papel de provedor de filhos e netos, ele sacrifica recursos que deveriam financiar seus próprios cuidados de saúde e dependência na fase mais avançada da vida. Essa sobrecarga financeira compromete a reserva para o futuro e leva ao endividamento, como vemos no uso excessivo do crédito consignado, o que pode ferir a dignidade e a sobrevivência do idoso a longo prazo.

Ciência e Saúde
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