
Ser maratonista ou triatleta não significa que a saúde cardíaca se manterá intacta. Um novo consenso, publicado recentemente na revista Journal of the American College of Cardiology (JACC), revela que treinar muito não significa estar imune a problemas no coração. Segundo a publicação, para os chamados atletas masters — aqueles que mantêm rotinas rigorosas de exercícios após os 35 anos —, o check-up precisa ir muito além do eletrocardiograma convencional.
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O documento, elaborado em conjunto pelo Colégio Americano de Cardiologia (ACC) e pela Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC), detalha o que os médicos chamam de “paradoxo do exercício”. Embora praticantes de modalidades de resistência, como maratonas e ciclismo, vivam mais que a população geral, eles podem apresentar algumas condições cardíacas com mais frequência do que pessoas sedentárias. Entre os problemas comuns estão arritmias, dilatação da aorta e pequenas cicatrizes no tecido cardíaco, conhecidas como fibroses.
De acordo com Breno Giestal, cardiologista do Alta Diagnósticos, no Rio de Janeiro, o esporte continua sendo o melhor remédio para a longevidade, mas a relação entre esforço intenso e saúde não é linear. “O alto condicionamento cardiorrespiratório não dá ‘imunidade’ contra doenças cardíacas”, afirma o especialista, que acumula mais de duas décadas de experiência acompanhando atletas de alto rendimento.
Riscos invisíveis
O maior perigo após os 35 anos continua sendo a doença coronariana, que provoca o entupimento das artérias. O exercício não apaga totalmente o histórico genético ou hábitos de vida do passado. O desafio para os médicos é diferenciar o que é uma adaptação natural do coração ao esforço extremo do que é, de fato, uma patologia.
A principal mudança trazida pelo novo consenso internacional é o fim das regras fixas para avaliação cardiológica. A orientação agora é que ela seja estritamente individualizada, levando em conta: o risco cardiovascular hereditário; o nível de intensidade da atividade; a presença de sintomas; os objetivos competitivos do indivíduo.
Alexandre de Matos Soeira, cardiologista da Beneficência Portuguesa de São Paulo, frisa que a questão do prejuízo é muito individual e depende do nível de treinamento do paciente e da resposta cardiovascular que ele apresenta. “O que é recomendado, na verdade, é que, caso o paciente queira participar de corridas ou de algum tipo de prova, ele faça um treinamento supervisionado, de forma gradual, para atingir o condicionamento desejado sem causar nenhum prejuízo ao corpo, sem exceder o próprio limite.”
“A ciência hoje nos permite cuidar do coração do atleta de forma tão personalizada quanto a planilha de treinos deles. Para quem passou dos 35 anos e faz do esporte uma parte central da vida, o acompanhamento regular deixou de ser apenas uma questão de segurança para se tornar uma estratégia de otimização de desempenho”, pontua Giestal.

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