
Por meses, integrantes de um grupo criminoso de Samambaia se apresentaram como benfeitores. Organizavam e bancavam festas comunitárias em datas comemorativas e geriam comércios aparentemente legais na região. Fora dos eventos, impunham regras e punições. Por trás da fachada, operava uma engrenagem de tráfico e lavagem de dinheiro.
As aparentes ações filantrópicas eram estratégia para mascarar a violência e opressão à comunidade, segundo revelaram as investigações que resultaram na operação Eiron. A ação, coordenada pela 26ª Delegacia de Polícia (Samambaia Norte), foi deflagrada nesta quarta-feira (6/5) e cumpre 39 ordens judiciais.
Dia das Mães ou das Crianças eram datas escolhidas a dedo pelo grupo vinculado ao Terceiro Comando Puro (TCP), do Rio de Janeiro. Com o dinheiro do narcotráfico, assumiam o papel de falsos provedores. Para o grupo, o investimento valia a pena: despistava a polícia e esvaziavam as chances de denúncias.
Apesar da fachada assistencialista e do discurso de aparente empreendedorismo, a violência praticada pelo grupo era evidente. As investigações flagraram integrantes ostentando armas de fogo de grosso calibre e realizando a limpeza de armamentos no interior de veículos.
Em um dos locais utilizados pela organização, foi constatado que um usuário de drogas foi brutalmente espancado durante a madrugada, evidenciando as severas punições impostas pelo chamado “tribunal do tráfico” àqueles que ameaçassem os interesses do grupo.
Esse contexto de violência também atingiu um dos próprios investigados. Em fevereiro deste ano, durante o curso das apurações, o corpo de um dos alvos foi encontrado boiando no Lago Paranoá. As circunstâncias da morte são investigadas.
O vínculo com a facção oriunda do Rio de Janeiro era estampada até mesmo nos muros das casas dos investigados. Nas paredes, exibiam, em pintura, o símbolo da Estrela de Davi, em alusão à organização carioca.
Tráfico
Em outubro de 2025, os investigadores descobriram a artimanha do grupo na venda de e crack, cocaína, lança-perfume, haxixe (“dry”) e maconha em diferentes variações, como “skunk” e “ice”. Uma das estratégias para despistar a polícia e manter o controle territorial sem gerar denúncias, era promover “ações assistencialistas.”
Segundo o delegado Marcos Miranda, a investigação também revelou a estratégia financeira adotada pelo grupo, que consistia na aquisição e gestão de estabelecimentos aparentemente lícitos, como distribuidoras de bebidas, quiosques e padarias. Esses negócios eram utilizados para camuflar o armazenamento e a comercialização de drogas.
Em uma padaria chamada Bella Massa, por exemplo, os suspeitos usavam a mesma balança destinada à pesagem de pães para fracionar entorpecentes. As drogas eram escondidas no estabelecimento.
Venda nas redes sociais
Por meio de perfis das redes sociais, os criminosos divulgavam “cardápios” com drogas de alto valor agregado. As negociações ocorriam via aplicativos de mensagens, e as entregas funcionavam no formato delivery.
Os envios eram feitos em embalagens de delivery do McDonald’s, mecanismo para dificultar o rastreio. Os pagamentos, segundo as investigações, eram pulverizados por meio de transferências via PIX para contas bancárias de terceiros (“laranjas”).
Os envolvidos responderão pelos crimes de tráfico de drogas, organização criminosa armada e lavagem de capitais. Somadas, as penas podem ultrapassar 35 anos de reclusão.
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