
A formação óssea é um processo crucial para o crescimento de qualquer criança. Porém, nem sempre essa etapa ocorre de forma adequada. Um jeito diferente de andar, quedas frequentes, comentários na escola, uma dúvida que cresce com o tempo. Pensando nessas histórias, um grupo de ortopedistas tem apostado no cuidado precoce de crianças e adolescentes com alterações nos membros inferiores, buscando evitar que pequenos sinais se transformem em problemas maiores no futuro.
À frente da iniciativa estão os médicos Cláudio Dorna e Rafael Valadares, do Hospital Sarah Kubitschek, que acompanham de perto casos de genu varo e genu valgo, conhecidos popularmente como "pernas tortas". O genu varo e o genu valgo são alterações no alinhamento dos joelhos que fazem com que as pernas fiquem arqueadas para fora ou voltadas para dentro, respectivamente.
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Embora possam fazer parte do desenvolvimento normal em determinadas fases da infância, quando persistem ou se acentuam, passam a exigir avaliação médica. Isso porque o desalinhamento pode provocar uma distribuição desigual do peso corporal sobre as articulações, gerando sobrecarga, desgaste precoce da cartilagem, dores ao caminhar e limitações funcionais.
Segundo o ortopedista Rafael Valadares, o acompanhamento das crianças começa ainda nos primeiros anos de vida, muitas vezes logo após o início da marcha. "Costumamos acompanhar desde bebê, a partir da idade de início de marcha, por volta de um ano, um ano e meio", explica. Após a identificação da deformidade, o tratamento pode variar desde a simples observação clínica até intervenções cirúrgicas, conforme a evolução do quadro.
O médico destaca que, atualmente, o acompanhamento prioriza métodos menos agressivos e mais individualizados. "Não é comum usar aparelhos ortopédicos, alguns dispositivos, como antigamente se fazia. Hoje em dia preza-se por acompanhar a criança", afirma. Segundo ele, espera-se que, por volta dos 2 anos de idade, os joelhos atinjam um alinhamento considerado neutro. Quando isso não acontece e há persistência do genu varo ou do genu valgo após os 5 anos, a cirurgia passa a ser indicada.
Rafael explica que os procedimentos utilizados são minimamente invasivos e utilizam a técnica de crescimento guiado. "São cirurgias mais simples, com colocação de implantes para guiar o crescimento desse membro inferior", detalha. Os implantes são posicionados próximos à zona de crescimento dos joelhos para desacelerar o crescimento de uma das faces do membro e permitir a correção gradual do eixo das pernas ao longo dos meses.
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Transformação
Para Tatiane Soares, 32 anos, moradora de Campo Novo do Parecis, em Mato Grosso, o tratamento da filha Aurora Vasconcelos, 4, representou uma mudança profunda na rotina da família. Diagnosticada ainda bebê (11 meses) com a doença de Blount, uma condição associada ao genu varo, a menina enfrentava dificuldades para caminhar, manter o equilíbrio e participar de atividades comuns da infância. "Foram várias idas ao pronto-socorro por causa das quedas", relembra a mãe.
Segundo Tatiane, as limitações afetavam, também, a convivência com outras crianças. "Na escolinha, ela não podia brincar no pula-pula, porque a gente tinha muito medo de machucar mais ela. Era difícil para ela correr, subir escadas e participar das brincadeiras como os coleguinhas", conta. Até tarefas simples, como calçar um tênis, eram um desafio. "Ela não conseguia usar sapato fechado, porque os pezinhos batiam um no outro."
A indicação de cirurgia em uma criança tão pequena gerou apreensão. Aurora passou pela primeira cirurgia em 2025, com a colocação de pequenas placas para guiar o crescimento dos ossos. "Duas ou três horas depois da cirurgia, ela já estava andando normalmente" diz. Os resultados, segundo a mãe, são visíveis no dia a dia. "Hoje ela corre, sobe escadas, brinca normalmente com os amiguinhos. É realmente uma transformação na vida da criança."
Diagnóstico
Para Nathália Dutra, 26, moradora de Valparaíso de Goiás, a esperança de ver a filha Emilly Emanuely Santos Gomes, 2, crescer sem limitações é o que sustenta a rotina de consultas e acompanhamentos médicos. A mãe percebeu os primeiros sinais do genu varo ainda nos primeiros meses, logo depois que a menina começou a andar. "Eu senti que ela tinha dor e caía bastante", relata.
Além das dificuldades físicas, Nathália conta que também precisou lidar com comentários e opiniões de pessoas ao redor. "As pessoas olham e dão palpites incertos, dizendo que conhecem crianças que tiveram as pernas assim e que melhoraram sozinhas, como se a situação fosse se resolver do dia para a noite", afirma. Segundo ela, o acompanhamento médico tem sido importante não apenas para o tratamento, mas também para trazer segurança à família.
A principal orientação recebida pela mãe foi ter paciência e confiar no processo. "Me disseram para confiar no tempo, porque as pernas podem voltar ao normal sozinhas. Caso isso não aconteça, será feita a cirurgia", explica. Mais do que a correção física, Nathália deseja poupar a filha de situações dolorosas no futuro. "Minha expectativa é a melhora do genu varo para que minha menina não precise passar por olhares maldosos e comentários inapropriados."
Doença
O ortopedista Cláudio Dorna explica que as deformidades nos joelhos durante a infância são relativamente comuns, mas exigem atenção para evitar consequências graves ao longo da vida. "Quando tratadas da forma e na idade adequadas, essas crianças podem evitar problemas que eventualmente teriam lá pelos 40, 50, 60 anos", afirma.
O especialista explica que o principal objetivo da iniciativa é conscientizar as famílias sobre a importância do diagnóstico precoce e do acompanhamento correto. O hospital realiza esse tipo de atendimento há anos, mas o projeto busca ampliar a conscientização da população sobre o tema. "A ideia é principalmente tentar alertar a população, orientar que temos disponibilidade de tratamento aqui no hospital e buscar justamente a prevenção", diz.
A procura pelo atendimento, segundo Dorna, é espontânea e pode ser feita diretamente pela plataforma da Rede Sarah (https://www.sarah.br). "Todos podem fazer sua inscrição para atendimento, e o agendamento é realizado de acordo com a demanda", explica. Atualmente, o especialista afirma atender cerca de 60 pacientes por semana, em um trabalho que envolve uma equipe de 15 profissionais da área. "Quando começa a atrapalhar o desenvolvimento e as atividades da criança, é sempre um sinal de que precisa buscar atendimento", conclui.

Ciência e Saúde
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