Otto Lara Resende escreveu que Brasília é o resultado de quatro loucuras: as de Juscelino Kubitschek, de Oscar Niemeyer, de Lucio Costa e de Israel Pinheiro. No momento, fiquemos com a de JK. A sua era daquela espécie afirmadora, construtiva, laboriosa e lúcida, sem a qual os indivíduos, as instituições e as nações adoecem de inércia. Tinha o poder de contaminar a todos com o entusiasmo invencível.
JK era um Dom Quixote de Minas, idealista, mas pragmático. Demorei três anos para construir, aos trancos e barrancos, uma casa em um condomínio. JK ergueu Brasília, uma cidade modernista, no ermo, em três anos e oito meses. É certo que ele tinha dinheiro para bancar a aventura, e eu não. Mas, mesmo assim, a performance épica provoca o espanto.
JK era o antiburocrata e detestava a mania mineiríssima de empurrar os problemas com a barriga e deixar tudo emperrado dentro das gavetas. Valorizava muito mais os tocadores de obra da Novacap do que os ministros de Estado ou os almofadinhas engomados da política parlamentar. Confiava tanto em sua equipe que deixava papéis em branco assinados para que o bom fluxo das soluções fosse garantido.
A vida de JK se divide entre antes e depois do golpe militar de 1964. Antes, ele traçou uma trajetória brilhante; depois, agonizou, se fragilizou e adoeceu gravemente. Ele apoiou a eleição indireta de Castelo Branco como presidente e foi traído da maneira mais torpe. Os militares temiam o carisma popular e o espírito democrático de Juscelino e lhe cassaram o mandato de senador.
Ele era um homem público, da cabeça aos sapatos e, sem mandato, perdeu o palco, o espaço, a alegria e o ar. Um JK com tédio, deprimido e triste é um anti-JK. Mas foi mais ou menos isso que aconteceu com ele, apesar de toda a resistência e tenacidade. Sofreu terrivelmente com o exílio e, mesmo quando decidiu voltar e enfrentar as ameaças dos militares, agonizava com a falta de espaço para exercer a vocação de político.
Em vão, os agentes do regime ditatorial empreenderam uma caçada implacável em busca de indícios de corrupção ou enriquecimento ilícito, com a participação de militares do Exército, da Aeronáutica e da Marinha. Não encontraram nada. No entanto, não deixaram de impor inúmeros constrangimentos ao ex-presidente, exigindo depoimentos em situações esdrúxulas.
O artista plástico Cildo Meirelles se lembra, vivamente, do dia da morte de Juscelino, 9 de agosto de 1976, provocada por um desastre de carro, em Minas Gerais. Batedores da polícia do Exército montados em motocicletas tentavam conter a multidão, mas aconteceu algo fantástico. Movida por intensa comoção, os brasilienses saíram de suas casas e afrontaram o regime militar. Jovens tomaram o caixão e o carregaram pelas avenidas da cidade. Era uma legião urbana de mais de 300 mil pessoas em uma manifestação popular espontânea. Aquele foi um momento simbólico e um divisor de águas para Cildo Meirelles. Naquele instante, começava a ruir uma ditadura, que parecia invencível e eterna.
Pois bem, o relatório da Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos acaba de emitir parecer segundo o qual Juscelino Kubitschek foi morto em 1976 pela ditadura militar, e não vítima de um acidente de carro, como concluído à época e, posteriormente, confirmado pela Comissão Nacional da Verdade. No entanto, a versão do parecer ainda precisa ser aprovada em votação do colegiado para se tornar oficial. Realmente, o acidente de JK desperta muitas indagações. Espero que seja feita justiça a esse grande brasileiro.
