Rogério Carvalho*, especial para o Correio — Há formas que atravessam oceanos antes mesmo de serem percebidas como linguagem. Permanecem adormecidas em grades de ferro, em desenhos urbanos, em ornamentos repetidos milhares de vezes até que, em algum momento, alguém percebe que determinados traçados sobrevivem porque carregam mais do que função ou decoração. Carregam memória.
O símbolo Adinkra conhecido como Mpatapo, originário da tradição Akan da África Ocidental, representa reconciliação, pacificação e equilíbrio entre forças distintas. Seu desenho contínuo, construído por curvas que se encontram sem se interromper, produz uma espécie de fluxo permanente. Não há choque. Não há hierarquia rígida. Há cruzamento conciliado. O símbolo organiza diferenças sem anulá-las.
Curiosamente, ao observar do alto as tesourinhas concebidas por Lucio Costa para Brasília, torna-se difícil ignorar uma afinidade visual e conceitual profunda entre ambas as formas. As tesourinhas não são apenas soluções viárias. São dispositivos de mediação espacial. Permitem que fluxos distintos coexistam sem conflito frontal. Transformam o cruzamento em continuidade. A cidade moderna, nesse ponto, abandona a lógica do choque ortogonal tradicional para adotar uma coreografia de curvas reconciliadas.
Seria exagero imaginar que Lucio Costa tenha visto, conscientemente, símbolos Adinkra? Talvez. Mas seria igualmente ingênuo desconsiderar a longa circulação de formas africanas dentro da cultura visual europeia, especialmente em Paris do século XIX e início do XX.
As sacadas parisienses oferecem uma pista importante. Muitas grades em ferro fundido apresentam composições ornamentais baseadas em entrelaçamentos contínuos, nós simétricos, cruzamentos curvilíneos e módulos repetitivos extraordinariamente próximos da gramática visual dos Adinkras. Não como cópia direta, mas como absorção silenciosa de repertórios formais vindos das redes coloniais, etnográficas e decorativas que ligavam África e Europa naquele período.
Paris foi, simultaneamente, centro do modernismo e grande repositório colonial. Objetos africanos chegaram aos mercados, aos antiquários, às exposições universais, aos ateliês e às coleções privadas. Muito antes de Picasso olhar para máscaras africanas, padrões gráficos africanos já circulavam dissolvidos em tecidos, ferragens, arabescos e ornamentos urbanos. A cidade absorveu essas formas ao ponto de naturalizá-las.
Lucio Costa conhecia profundamente Paris. Conhecia não apenas sua arquitetura monumental, mas sobretudo sua dimensão urbana cotidiana: os alinhamentos, os ritmos das fachadas, as continuidades espaciais, as soluções discretas que transformavam infraestrutura em desenho civilizatório. O urbanista brasileiro sempre teve sensibilidade rara para perceber quando técnica e forma deixavam de ser separáveis.
Talvez seja justamente aí que o paralelo se torne mais potente.
As tesourinhas de Brasília possuem uma qualidade quase caligráfica. Vistas do alto, deixam de parecer engenharia para se aproximarem de ideogramas territoriais. Seus movimentos desenham laços contínuos semelhantes aos encontrados tanto nos Adinkras quanto nas ferragens ornamentais parisienses. Não se trata apenas de semelhança formal. Trata-se de uma visão compartilhada de circulação e coexistência.
No símbolo Mpatapo, as linhas retornam sobre si mesmas sem romper a unidade do conjunto. Nas tesourinhas, os fluxos automotivos se entrelaçam sem produzir interrupção violenta. Em ambos, o encontro deixa de ser colisão para tornar-se negociação espacial.
Brasília, frequentemente apresentada como ápice da racionalidade moderna europeia transplantada aos trópicos, talvez carregue, silenciosamente, camadas mais complexas de herança visual. Talvez exista nela uma memória atlântica subterrânea, onde repertórios africanos atravessaram Paris, infiltraram-se no imaginário moderno e reapareceram transformados na paisagem brasileira.
Isso não diminui a genialidade de Lucio Costa. Ao contrário. Amplia-a.
Os grandes criadores raramente inventam formas absolutas. Eles reorganizam memórias dispersas do mundo. Captam estruturas ancestrais que sobrevivem porque respondem a necessidades profundas da experiência humana. Harmonia. Continuidade. Mediação. Fluxo.
Talvez seja precisamente isso que torna tão emocionante a aproximação entre o Mpatapo e as tesourinhas de Brasília. Ambos parecem afirmar que civilização não nasce da imposição rígida das linhas, mas da inteligência dos encontros.
E talvez, no fundo, Brasília guarde em seu desenho moderno uma curva africana que passou por Paris antes de alcançar o Planalto Central.
*Rogério Carvalho é arquiteto, especialista em patrimônio
