O Tribunal do Júri condenou João Paulo Teixeira a 29 anos e 11 meses de prisão pelo assassinato e esquartejamento de Thalita Berquó. A sentença proferida ontem, no Fórum do Guará, dá ponto-final a um dos mais cruéis crimes cometidos na cidade. Do total da pena, 24 anos e seis meses correspondem ao crime de homicídio qualificado, um ano e sete meses à ocultação de cadáver e três anos e 10 meses à corrupção de menores.
O homicídio ocorreu em 13 de janeiro do ano passado, com a participação de dois adolescentes. De acordo com as investigações da Polícia Civil (PCDF), Thalita foi morta após uma discussão relacionada à compra de drogas. Segundo a apuração, ela teria entregue o celular como forma de pagamento e, ao tentar recuperar o aparelho, foi atacada com golpes de faca e uma pedrada no rosto.
Em seguida, o corpo foi esquartejado. A cabeça e as pernas foram encontradas na Estação de Tratamento de Esgoto da Asa Sul, administrada pela Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal, enquanto o tronco foi localizado dois meses depois, enterrado e enrolado em um cobertor. Os braços da vítima nunca foram encontrados.
Durante depoimento, João Paulo confessou ter ajudado a ocultar o corpo de Thalita, mas negou participação direta no assassinato. Segundo ele, dois adolescentes cometeram o crime e pediram ajuda para esconder o cadáver em troca de R$ 500 e 20 pedras de crack. Ele teria aceitado. "Eu cheguei no local e pediram para eu pegar um carrinho de mão e uma pá. Quando eu cheguei no local, o William estava todo cheio de sangue. Eu falei que eles não deveriam ter feito isso, que ia dar problema", afirmou o réu. Ao descrever a cena encontrada, João Paulo relatou que o corpo da vítima já estava mutilado. "Tava todo cortado o corpo. Não sei como cortaram. Tinha uma faca na mão do William", disse.
A versão apresentada pela defesa foi duramente criticada pelo promotor Gladson Viana, que classificou o caso como um dos crimes mais cruéis e covardes já registrados no Guará. Para ele, a tentativa de responsabilizar adolescentes seria uma estratégia para afastar a culpa do acusado. "Talvez seja o crime mais cruel e mais covarde ocorrido no Guará. Os restos da Thalita foram jogados no esgoto, o que demonstra o total desprezo pela vida dessa mulher. Para ele, a vida da Thalita não valia nada", declarou o promotor aos jurados.
Segundo Viana, o grupo envolvido no crime eliminava pessoas que atrapalhavam o esquema criminoso. "Estavam matando pessoas que deviam dinheiro, que atrapalhavam o fluxo do trabalho deles", afirmou. O promotor também questionou a narrativa de que adolescentes teriam comandado a ação. "Ele está dizendo que um menor de idade chama um maior de idade para ser um instrumento. Esse é o caminho mais fácil e óbvio para pessoas que praticam atos tão graves. Como admitir um crime desses? É mais fácil delegar aos inimputáveis", disse.
Já a defesa de João Paulo sustentou que não existem provas concretas de que ele tenha participado do homicídio e afirmou que o processo se apoia em relatos contraditórios de usuários de drogas. "Essa suposta solidez do caso não é tão consistente assim. Parece uma história muito fechada. Estamos falando de pessoas que estavam em um uso intenso de drogas, e que o caso se fundamenta nas falas dessas pessoas", declarou o defensor público Ronan Ferreira Figueiredo. Ele também pediu cautela aos jurados na análise dos depoimentos dos adolescentes envolvidos no caso. "Há muitas contradições nas falas dos adolescentes. A verdade é rarefeita na questão da justiça penal", afirmou.
Comoção
Os familiares da vítima se reuniram em frente ao Fórum, pela manhã, para pedir justiça. Cerca de uma hora antes do início do júri popular, os parentes e amigos fizeram uma oração coletiva e levaram cartazes em memória da vítima. Acompanhada de familiares, a mãe de Thalita, Valéria Marinho, de 61 anos, disse que a família convive há mais de um ano com a dor causada pela violência do crime e pela forma como a filha foi encontrada. "A gente não teve uma aceitação normal porque o caixão foi fechado. Até isso eles tiraram da gente", lamentou.
Na saída do tribunal, a mãe de Thalita falou sobre o impacto emocional do julgamento e a sensação de alívio após a condenação. "Tive que levantar várias vezes porque passei mal. Para a gente é um troféu, já que todas as outras coisas foram tiradas da gente, a gente precisava dessa vitória", declarou. Ainda emocionada, ela disse que a família tenta reconstruir a rotina após muita dor. "Vamos tentar voltar ao normal com a vida. É difícil porque ainda não tenho minha filha", completou.
A tia de Thalita, Glaucia Marinho, 51, afirmou que a condenação trouxe a sensação de alívio. "É um ciclo que a gente está fechando. Pegou praticamente a condenação máxima".
Entenda o caso
O crime ocorreu em 13 de janeiro do ano passado e envolveu, além de João Paulo, dois adolescentes. Nos dias seguintes ao assassinato, 14 e 15, a cabeça e as pernas de Thalita foram encontradas na Estação de Tratamento de Esgoto da Asa Sul, administrada pela Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb).
O tronco da vítima só foi encontrado cerca de dois meses depois, em 17 de março, após um dos adolescentes indicar aos investigadores o ponto onde havia sido enterrado, enrolado em um cobertor. Os braços de Thalita nunca foram localizados.
De acordo com as investigações da 1ª Delegacia de Polícia, na Asa Sul, Thalita saiu da QE 46 em direção a uma área próxima a uma invasão para comprar drogas. Segundo o então delegado-chefe Antônio Dimitrov, ela teria entregue o celular como pagamento e, ao tentar recuperar o aparelho, iniciou uma discussão com os suspeitos. A apuração aponta que João Paulo e os dois adolescentes teriam atacado a vítima com golpes de faca e uma pedrada no rosto antes de esquartejar o corpo.
Os três suspeitos foram presos pela Polícia Civil do DF. Um dos adolescentes segue internado em uma unidade socioeducativa, enquanto o outro cumpre medida socioeducativa em regime de semiliberdade desde outubro do ano passado.
