Religião

Festa do Divino mobiliza uma legião de peregrinos pela fé e tradição

Foliões percorrem fazendas, reúnem famílias e transformam o Distrito Federal em palco de uma das manifestações religiosas e culturais mais antigas da região

O som das violas, da sanfona, da percussão e dos cânticos religiosos rompe o silêncio das estradas de terra enquanto cavaleiros, famílias e devotos seguem de fazenda em fazenda carregando as bandeiras do Divino Espírito Santo. Em Planaltina, a Festa do Divino não é apenas uma celebração religiosa: é memória, herança familiar, encontro comunitário e resistência cultural que atravessa gerações há mais de um século.

Reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Distrito Federal desde 2013, a festividade mobiliza centenas de voluntários, cozinheiros, músicos, foliões e famílias inteiras em uma tradição que une fé e cultura popular.

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Antes mesmo dos eventos oficiais tomarem as ruas da cidade, a chamada Folia de Roça já percorre áreas rurais de Planaltina-DF, Água Fria-GO, Córrego Rico-GO e Planaltina-GO. Ao longo dos giros, os foliões visitam propriedades levando orações, cantos e as bandeiras do Divino às famílias da região, uma prática criada justamente para evangelizar comunidades que, antigamente, tinham pouco acesso às igrejas.

Pelas estradas de chão, onde a poeira sobe a cada passo, não há silêncio. Os grupos seguem entre rezas, conversas, músicas religiosas e o som dos instrumentos que acompanham a caminhada.

Ed Alves/CB/D.A Press -
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Gerações

Para muitos participantes, o evento começa ainda na infância. É o caso do policial civil Sebastião Xavier Gonçalves, 61 anos, que participa ativamente da folia desde os anos 2000 e mantém viva uma tradição herdada do pai. "Meu pai foi pioneiro dessa folia de roça e a gente vem continuando o legado dele", contou.

A devoção também se traduz em promessas. Há mais de 10 anos, Sebastião percorre a pé o trajeto entre Planaltina de Goiás e a Alvorada da Folia. Hoje, os netos também acompanham os giros. "Tenho um neto de 12 anos e uma pequenininha de dois anos. Isso já virou uma tradição da família", afirmou.

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A aposentada Ivanilde Gonçalves, 69, também carrega uma história familiar ligada à celebração. Filha de um antigo folião, ela conta que resistiu durante anos ao convite do pai para participar da festa, até decidir acompanhar os giros. "Meu pai brigava muito com a gente. Falava: 'vocês têm que ir, é tão bom'. Depois que eu conheci, gostei e nunca mais parei", relembrou.

Hoje, ela participa da chamada "mussunga", nome dado aos acampamentos montados pelos grupos que acompanham a folia durante vários dias. Caminhões adaptados, barracas e estruturas improvisadas se transformam em cozinhas, dormitórios e espaços de convivência ao longo do percurso. "A gente programa tudo com antecedência. Uns dois meses antes já começamos a juntar dinheiro porque não fica barato. Quando passa, a gente já fica esperando o próximo ano", pontuou.

Apesar do clima festivo, Ivanilde faz questão de destacar que a motivação principal é religiosa. "Eu sou muito devota do Divino Espírito Santo. A gente já conseguiu muitas bênçãos e essa é uma forma de agradecer", ressaltou.

Devoção

Neste ano, a Festa do Divino chega à 144ª edição sob coordenação dos festeiros Vivian de Oliveira Guimarães e Alan Souza Gonçalves. Para o casal, estar à frente da celebração representa a realização de um sonho cultivado há décadas. "É trabalhoso, mas muito gratificante. Essa festa não começa um mês antes. Ela começa um ano antes", explicou Vivian.

Segundo os organizadores, a preparação envolve giros mensais, arrecadações, mobilização comunitária e uma grande rede de apoio formada por voluntários e fiéis. "Planaltina é a cidade do Espírito Santo. A grande maioria das pessoas aqui é devota. A festa tem o lado da fé e também o lado cultural, mas a maior parte das pessoas vem movida pela devoção".

A estrutura impressiona. Enquanto uma parte da programação acontece na área urbana, outra segue simultaneamente nas zonas rurais. As duas celebrações se encontram no tradicional Encontro das Bandeiras, considerado o ponto alto da festividade. Marcado para o próximo sábado, o cortejo reúne milhares de pessoas em um grande ato coletivo de fé e confraternização popular.

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Sabores da Folia

Nas fazendas que recebem os pousos, panelões permanecem no fogo desde cedo. Voluntários passam horas preparando refeições que serão servidas gratuitamente aos foliões e visitantes.

Entre os cozinheiros está o gerente administrativo Leandro Matias, 48, que soma 35 anos de participação na folia e três décadas trabalhando nas cozinhas improvisadas da roça. "É devoção, é fé. Um negócio que deixa a gente energizado", resumiu.

No pouso acompanhado pela reportagem, a expectativa era servir entre 500 e 600 refeições durante o almoço. Na noite anterior, cerca de 800 pessoas haviam sido alimentadas. O cardápio tinha arroz branco, feijão tropeiro, carne assada, linguiça e vinagrete, tudo preparado coletivamente, entre amigos, parentes e devotos.

"Muitas coisas são doações. Antigamente era praticamente tudo doado pela própria comunidade. As pessoas cediam fazenda, comida, tudo pela devoção ao Divino Espírito Santo", concluiu.

Os primeiros cristãos

Natural da República Dominicana e vivendo pela primeira vez a Festa do Divino em Planaltina, o padre Guillermo Santos afirmou ter se impressionado com a dimensão espiritual da tradição. "Para mim, tem sido muito forte ver as pessoas deixarem tudo para viver esse tempo de folia de roça. As crianças deixam a escola, as famílias deixam suas casas e vão de pouso em pouso. Isso lembra muito como viviam os primeiros cristãos", aomparou.

O sacerdote também destacou a relação íntima que os fiéis mantêm com o Espírito Santo. "Aqui as pessoas vivem plenamente essa relação com o Espírito Santo. Desde as pessoas mais simples até aquelas com maior nível de educação, todos se fazem um", disse.

Segundo ele, a festa representa uma das expressões mais fortes da religiosidade popular brasileira. "Ver essa forma como a fé é vivida é muito lindo", completou.

Patrimônio vivo

Para além da religião, a celebração também representa um importante símbolo da cultura popular brasileira. Gê Vitor, especialista em linguagens artísticas e educação (UnB), explica que a tradição das folias está presente em diferentes regiões do país e atravessa gerações como uma manifestação profundamente ligada à memória afetiva das comunidades. "É na prática persistente dessas expressões culturais tradicionais que reside a memória afetiva das cidades, dos cidadãos e das regiões".

Segundo o especialista, tradições como as folias, catiras, novenas e festas populares ajudam a preservar os vínculos culturais e comunitários, mesmo diante das transformações da modernidade. "As manifestações vão se ressignificando com o tempo, mas sem perder a essência", observou.

Para ele, a força da Festa do Divino no Distrito Federal também está relacionada à formação cultural de Brasília e de Planaltina, marcada pela chegada de famílias de diferentes regiões do país, que trouxeram consigo costumes, crenças e tradições populares. "A Folia do Divino é um elemento identitário da diversidade cultural brasileira", destacou.

Cultura popular

Além do aspecto religioso, a Festa do Divino preserva expressões tradicionais da cultura sertaneja, como catira, cantos populares, cavalgadas e apresentações musicais regionais.

Neste ano, a programação também conta com a segunda edição do Festival Festa do Divino — Tradição Sertaneja, que busca valorizar artistas locais e fortalecer a música caipira no Distrito Federal.

O encerramento terá show do cantor Daniel Beira Rio, além de apresentações de artistas de Planaltina, selecionados por meio de edital cultural.

Mais do que uma festa religiosa, a celebração mantém viva uma memória coletiva construída ao longo de gerações. Nas estradas de terra, nos cânticos entoados durante os giros e nas bandeiras carregadas pelos foliões, a Festa do Divino continua reafirmando a identidade cultural de Planaltina e do Entorno.

 

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