BRB-MASTER

GDF prevê R$ 2,5 bilhões para salvar o BRB até sexta-feira (29/5)

Faltando quatro dias para o fim do prazo de capitalização, o banco tenta recuperar a solidez. A Quadra Capital entrou com R$ 1 bi, parcela da negociação de ativos do Master; e o BTG com mais R$ 1 bi, referente à securitização da dívida ativa

O Banco de Brasília (BRB) entrou na reta decisiva para comprovar ao Banco Central (BC) que tem capacidade financeira suficiente e atravessar a crise causada após as operações fraudulentas envolvendo os títulos podres do Banco Master. Depois do aporte inicial de R$ 1 bilhão, referente à securitização da dívida ativa do Distrito Federal e destinado à capitalização da instituição, o secretário de Economia do DF, Valdivino de Oliveira, afirmou ao Correio que aguarda uma segunda tranche (parcela) de aproximadamente R$ 2,5 bilhões até a próxima sexta-feira.

De acordo com o secretário, os recursos podem chegar em uma única vez ou de forma dividida ao longo da semana. "A gente espera que, até sexta, tanto as parcelas referentes à securitização quanto a negociação com a Quadra (capital, com quem o BRB negocia ativos) estejam completos até sexta", disse.

Valdivino afirmou que o Governo do Distrito Federal (GDF) continua trabalhando para viabilizar um empréstimo com o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), apesar das dificuldades envolvendo o aval do Tesouro Nacional. "Não posso dar detalhes, pois há questões de confidencialidade e pode atrapalhar as negociações, mas não é uma possibilidade descartada", ressaltou.

O governo do DF estava contando com imóveis públicos como garantia aos empréstimos do FGC, no entanto, a insegurança jurídica causada por apelos populares contra a utilização de bens do DF minou o interesse nas garantias. "O mercado financeiro não demonstrou apetite para a área imobiliária", informou Valdivino de Oliveira.

Capitalização

A poucos dias do fim do prazo estabelecido pelo BC, o GDF intensificou negociações no mercado financeiro e garantiu, até ontem, cerca de R$ 2 bilhões em novos recursos para sustentar a capitalização da instituição. Os valores vieram de duas frentes. Segundo apuração da coluna Capital S/A, o BTG Pactual repassou R$ 1,017 bilhão ao Tesouro do Distrito Federal em uma operação ligada à securitização da dívida ativa do DF. A ideia do GDF é destinar toda a dívida ativa que tem a receber, R$ 52 bilhões, e repassá-la como garantia a instituições do mercado financeiro, como o BTG. Paralelamente, a gestora Quadra Capital efetuou o pagamento da primeira parcela, de aproximadamente R$ 1 bilhão, de uma negociação mais ampla envolvendo ativos podres do Master no valor total de R$ 15 bilhões.

O GDF explicou, em nota, que a operação de securitização da dívida ativa do DF é conduzida pelo BRB, enquanto o BTG Pactual atua na estruturação e captação dos recursos no mercado financeiro. "A medida integra as ações em andamento para fortalecer a situação financeira do BRB e atender às exigências regulatórias do sistema bancário", destacou a Secretaria de Economia. Com o objetivo de evitar interferências nas negociações com o mercado financeiro, o BRB prefere não se manifestar sobre o andamento da busca de mais aportes. 

A pressão continua

As mobilizações em torno da capitalização acontecem em meio a uma corrida contra o tempo para demonstrar capacidade de absorção das perdas associadas aos ativos herdados do Banco Master. Segundo o economista e consultor financeiro Carlos Henrique Silva Junior, o BC deve analisar não apenas os anúncios de operações financeiras, mas principalmente o capital efetivamente disponível em caixa. "O regulador tende a separar capital integralizado de estruturas que dependem de monetização futura de ativos. A engenharia financeira melhora a percepção de recuperação patrimonial, mas não elimina os riscos de execução", afirmou. 

Na avaliação do especialista, a possibilidade de o BRB solicitar um novo prazo para a entrega do balanço cresce. Para isso, o banco precisará apresentar contratos, cronogramas e perspectivas concretas de recomposição patrimonial. "O foco deixa de ser apenas captar recursos até sexta-feira. O desafio passa a ser convencer o Banco Central de que existe uma trajetória confiável de estabilização financeira", avaliou. 

Liquidez

O economista e professor da Universidade de Brasília (UnB), César Bergo, avalia que as operações anunciadas melhoram momentaneamente a liquidez do BRB, mas não resolvem o principal problema enfrentado pela instituição: a recomposição patrimonial.

"A operação com a Quadra colocou cerca de R$ 1 bilhão em caixa, enquanto o BTG comprou títulos vinculados à dívida ativa do GDF em um valor semelhante. Esses recursos ajudam o banco a enfrentar saques, movimentações e obrigações de curto prazo, mas a questão patrimonial continua dependendo do aporte do controlador", explicou.

Segundo Bergo, o mercado e o Banco Central aguardam uma efetiva capitalização por parte do GDF, que é controlador do banco. "O aporte total previsto (para cobrir o rombo) gira em torno de R$ 8,8 bilhões. O Banco Central vai separar o que é dinheiro efetivamente integralizado daquilo que representa intenção ou expectativa futura. Até agora, existem sinais positivos, mas o BC vai querer fatos concretos", ressaltou.

O economista destaca que a autoridade monetária acompanha não apenas a situação patrimonial do BRB, mas a ausência da divulgação do balanço dentro do prazo esperado. "Atualmente, dois fatores pesam contra o BRB: a questão patrimonial e a não apresentação do balanço. Isso aumenta a pressão regulatória, porque o Banco Central precisa avaliar a real situação financeira da instituição antes de tomar qualquer decisão", disse.

Para Bergo, a participação do BTG nas operações despertaram atenção no mercado financeiro. "O BTG não costuma entrar em operações desse tamanho sem avaliar cenários mais amplos. Isso alimenta especulações sobre interesse estratégico no banco no futuro, embora não exista nenhuma negociação oficial nesse sentido neste momento", ponderou.

Acionistas

Além das operações estruturadas, o BRB tenta avançar em uma ampla operação de reforço de capital aprovada em assembleia geral extraordinária. O plano prevê ampliar o limite de ações emitidas pelo banco, permitindo a captação de até R$ 8,8 bilhões por meio da emissão de aproximadamente 2,5 bilhões de novas ações ao preço de R$ 5,36 cada.

O modelo prioriza os atuais acionistas, abrindo espaço para a entrada de novos investidores privados. Caso a operação avance integralmente, a participação do controlador público pode ser diluída, ampliando a base privada da instituição.

Fontes do mercado financeiro ouvidas pela reportagem avaliam que o principal risco para o BRB, hoje, não está apenas na liquidez imediata, mas na solvência patrimonial do banco. "Esses R$ 2 bilhões aliviam momentaneamente a situação de caixa, mas o problema mais grave é patrimonial. Sem saber exatamente o tamanho do rombo, fica difícil medir se essa ajuda será suficiente", afirmou a fonte.

Outra avaliação recorrente entre especialistas do mercado é de que o Banco Central terá dificuldade jurídica para ampliar indefinidamente o prazo dado ao BRB (sobre a entrega do balanço). "A Lei 6.024 estabelece regras para situações de intervenção e liquidação. O BC não pode simplesmente ignorar os prazos sem uma solução concreta apresentada pelo banco", acrescentou o especialista ouvido pelo Correio.

Cresce a percepção de que o GDF e a direção do BRB evitam divulgar detalhes mais profundos sobre o tamanho das perdas para evitar uma eventual corrida bancária. "O temor é de que uma divulgação abrupta gere perda de confiança dos clientes e acelere uma saída de recursos. Em crises bancárias, confiança é praticamente tudo", completou a fonte.

Mesmo que consiga superar a pressão regulatória imediata, especialistas avaliam que o BRB continuará sob forte escrutínio do mercado e do Banco Central nos próximos meses, especialmente em relação à qualidade dos ativos, governança de risco e transparência contábil. Para Carlos Henrique Silva Junior, o desafio do banco deixa de ser apenas emergencial. "O problema passa a envolver uma reconstrução gradual de credibilidade institucional", destacou.

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