ENTREVISTA

'O BRB foi devolvido ao Distrito Federal', afirma a governadora Celina Leão

Acordo articulado no STF para salvar o banco, crise financeira, saúde pública, expansão do metrô, bastidores políticos e planos para o futuro do DF foram os temas de entrevista exclusiva com a chefe do Executivo local

Em entrevista exclusiva ao Correio, a governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), detalhou os bastidores do acordo firmado entre o Governo do Distrito Federal (GDF), a União e o Banco de Brasília (BRB) para viabilizar empréstimo de R$ 6,5 bilhões junto ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Mediada pelo ministro Luiz Fux, do STF, a negociação destrava o empréstimo bilionário à instituição, depois da fraude provocada durante as negociações do BRB com o Banco Master, de Daniel Vorcaro. 

Na conversa, Celina afirmou que o BRB "foi vítima", elogiou a postura institucional do governo federal e garantiu que o balanço do banco será entregue "positivo", mas não definiu data (a última previsão era de que seria entregue nesta sexta-feira, 29 de maio). A governadora falou sobre arrocho no orçamento, mudanças no secretariado, prioridades para saúde pública e os desafios de governar em meio ao período eleitoral. 

Como foram os bastidores das negociações para salvar o BRB?

Em menos de 50 dias, que é o período em que estou como governadora, enfrentamos muitos desafios. Primeiro porque estamos em um momento pré-eleitoral e alguns pré-candidatos jogavam contra a instituição (BRB), trazendo informações falsas, muitas vezes até configurando crime contra o mercado financeiro. Mas nós atuamos sempre com responsabilidade. Quando assumi o governo, busquei imediatamente o Banco Central. Marquei reuniões com bancos, fui duas vezes a São Paulo, conversei com o FGC em mais de uma oportunidade e participei de todas as reuniões necessárias. Era importante mostrar que o controlador (o GDF) não abandonaria o banco. O BRB não seria liquidado. O banco tem personalidade, tem um controlador forte, e isso fez toda a diferença para o desfecho positivo. 

Muito se falava em privatização, federalização ou outras saídas. Mas qualquer alternativa que não fosse a manutenção do BRB como banco público seria uma solução menor. O BRB não pode perder o tamanho que tem hoje. O banco foi vítima de tudo o que aconteceu. Foi vítima dos crimes que foram cometidos. E nós tínhamos dois problemas graves para resolver. O primeiro era a liquidez. Banco vive de credibilidade. Quando começam os boatos, as pessoas ficam inseguras.

Nós conseguimos resolver isso com algumas medidas importantes. Fizemos a venda de títulos, avançamos na securitização de dívidas e colocamos recursos no banco para garantir liquidez. Mas ainda havia um problema contábil, que era a questão do capital. E isso só seria resolvido por meio de um empréstimo. Se nós tivéssemos um Capag A, que é a nota classificatória das contas públicas do GDF, o aval da União seria automático. Mas, como estamos com Capag C, isso não aconteceu. Então entramos com uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF).

Eu faço questão de destacar a atuação do ministro Luiz Fux. Brasília precisa reconhecer o papel dele nesse processo. Ele teve sensibilidade para compreender a gravidade do que estava sendo apresentado. Em 24 horas, notificou a AGU (Advocacia-Geral da União) para que se manifestasse. É importante esclarecer: nós não pedimos aval da União. O que pedimos foi a dispensa da exigência do Capag C. Esse era o centro da ação. O ministro entendeu que o pedido era razoável porque o GDF não tem histórico de endividamento. Nós estamos diante de uma fotografia momentânea. Com gestão, reorganização das contas públicas e compliance, nós vamos superar isso rapidamente. Inclusive, as contas do DF já estão melhores do que quando assumi. 

Como esse dinheiro chega ao banco? Existe prazo?

O recurso entra de uma vez só e já integraliza como capital. Assim que entrar, o banco consegue fechar um balanço positivo. Ainda não tem uma data exata, porque existem etapas burocráticas. Mas hoje o ministro Fux pediu agilidade ao FGC (Fundo Garantidor de Crédito) e deixou claro que o prazo precisa ser aquele que não cause dano à situação do banco. Então, o balanço vai aguardar a entrada desses recursos. Data exata ainda não temos. Mas posso garantir duas coisas: o balanço será entregue e será positivo.

A senhora teme um novo rebaixamento do banco das agências de risco?

Não, porque tudo isso foi pactuado coletivamente. Na mesa estavam representantes do Banco Central, procuradores, diretores, integrantes da AGU e do Ministério da Fazenda. Mesmo com diferenças ideológicas, houve diálogo. Nós somos um governo de direita. O governo federal é de esquerda. Mas o BRB é maior do que qualquer disputa política. A cidade é maior do que isso. Foi uma demonstração importante de pacto federativo. Um colapso do BRB seria ruim para o mercado financeiro e devastador para Brasília. Todos os serviços públicos do DF passam pelo banco. Então essa negociação terminou com todos ganhando.

Quais serão as prioridades do BRB daqui para frente?

A principal é instalar um sistema de compliance forte. Independentemente da gestão, o banco precisa ter mecanismos rígidos de controle para impedir que algo assim volte a acontecer. Nós queremos deixar algo sólido, com participação dos próprios servidores e acompanhamento dos órgãos de controle. Tenho certeza de que o banco mudou. E vai crescer ainda mais. O BRB volta para as pessoas. Ele é devolvido ao Distrito Federal. Eu sou uma mulher de muita fé. Fiz uma lista de pedidos para Brasília e o primeiro item era salvar o BRB.

O BRB vai fechar agências? 

Essa será uma decisão técnica da gestão do banco. O presidente Nelson de Souza tem autonomia para isso. O foco agora é fortalecer o banco e devolver o BRB para as pessoas. 

O que a senhora espera que aconteça com os envolvidos na fraude? 

As pessoas precisam pagar. O que aconteceu é muito grave. Nós conseguimos conter o colapso do banco. Porque, se o BRB quebrasse, seria algo impagável para o Distrito Federal. Quem levou o banco a essa situação precisa ser responsabilizado. Minha expectativa é de que todas as pessoas envolvidas sejam responsabilizadas. Eu não vou acusar ninguém sem responsabilidade. Seria leviandade da minha parte. Mas espero que todos os responsáveis respondam pelos atos que cometeram.

A irresponsabilidade. O sentimento de impunidade. Pessoas confundindo o cargo de gestor com a posição de dono. Isso é algo que realmente desestabiliza. Muitas das irregularidades que hoje estão sendo investigadas foram descobertas pela nossa própria equipe.

Qual foi o sentimento ao fim desse acordo?

Acho que a população de Brasília viveu um momento muito emocionante, principalmente os funcionários do BRB. Eles tinham até organizado uma carreata sem saber qual seria o resultado das negociações e estavam desesperados. Quando eu cheguei lá, muitos choraram. Foi muito bonito ver aquele sentimento de alívio. Foi uma etapa muito difícil. Tivemos muitos problemas e, como era um momento pré-eleitoral, muita gente jogou contra o BRB. E quando você joga contra o BRB, você joga contra a cidade. Desde o começo eu pedi reconciliação, serenidade e responsabilidade.

Minervino Junior CB/DA Press. - Entrevista exclusiva de Celina Leão ao Correio Braziliense

O governo federal ajudou politicamente?

O governo federal teve uma posição institucional muito séria e isso precisa ser reconhecido. Houve um entendimento de que o BRB é maior do que disputas ideológicas. Eu fiz questão de agradecer publicamente aos ministros Dario Durigan (Fazenda) e Jorge Messias (AGU) pela condução responsável do processo. 

O GDF está comprando ações do BRB para manter o controle?

Estamos acompanhando isso de perto para garantir que o governo continue como acionista majoritário.
A senhora acredita que houve interferência política para que ocorresse fraudes no BRB?
Eu acho que houve muita gente que jogou contra a instituição.

A senhora entende que o BRB recuperou sua credibilidade?

Tenho certeza disso. Hoje estou recebendo mensagens de pessoas dizendo que estão voltando a serem clientes da instituição. Isso mostra que a confiança está sendo recuperada. Fico muito feliz em ver tudo isso.

A senhora se sentiu subestimada durante essa crise?

Muitas vezes as pessoas subestimam a capacidade de uma mulher. Mas acredito muito em Deus e na capacidade de resolver problemas graves. Conseguimos construir uma solução definitiva para o BRB.

Agora que a crise do banco está encaminhada, qual será o foco do governo?

Continuar cuidando da gestão da cidade. Nunca deixamos de olhar para a saúde, para a segurança e para os programas sociais, mesmo no meio dessa crise.

Sobre partidos da base aliada, como está sua relação com o MDB depois dos atritos recentes?

Minha relação com o MDB continua boa. Tenho boa relação com o deputado Wellington Luiz, respeito a institucionalidade do cargo dele e também mantenho diálogo com os deputados distritais do partido. Aquele episódio passou. Hoje estou focada na gestão.

Mas como está a base governista na Câmara Legislativa?

Quando assumi, tínhamos uma base de 14 deputados. Hoje estamos com 17. Era necessário uma recomposição porque você não governa sem maioria mínima para aprovar projetos importantes. Tenho mantido diálogo muito franco com os parlamentares.

Quais projetos a senhora pretende enviar à Câmara Legislativa?

Nós vamos encaminhar um projeto sobre situação de rua e internação involuntária humanizada. Hoje, muitas pessoas em surto ou dependência química acabam sendo levadas para UPAs, causando situações de descontrole. Isso não é tratamento adequado. Queremos criar equipes multidisciplinares, com psiquiatras e estrutura especializada para atendimento dessas pessoas. Quando uma pessoa está em surto, armada, oferecendo risco, eu não posso simplesmente fechar os olhos. É uma questão de saúde pública. Claro que haverá debate. Mas eu sou Estado. Preciso agir com responsabilidade.

A senhora tem uma lista de pedidos, em que o primeiro dele era a salvação do BRB. Qual é o segundo pedido?

O segundo pedido que eu fiz foi melhorar a saúde pública. Porque as pessoas chegam até mim e falam o que estão vivendo, o que estão passando dentro dos hospitais, das filas, da espera. E é desumano você deixar uma pessoa esperando atendimento, esperando cirurgia, esperando consulta. Isso mexe comigo. Eu falo muito que a saúde pública talvez seja a área onde o governante mais sente o peso da responsabilidade. Porque ninguém procura um hospital por felicidade. A pessoa chega ali sofrendo angústia, muitas vezes desesperada. Eu preciso melhorar a saúde das pessoas. Preciso deixá-la melhor do que aquela que eu encontrei. A gente sabe que os recursos do SUS são limitados. O SUS tem limitações financeiras no Brasil inteiro. Mas gestão faz diferença. Organização faz diferença. Prioridade faz diferença.

Quando nós começamos o projeto de atendimento mais rápido para pacientes com câncer, por exemplo, conseguimos reduzir drasticamente o tempo de espera. Chegamos a ter pacientes iniciando tratamento em oito dias. E aquilo virou referência nacional.

Só que aconteceu uma coisa muito forte: o Brasil inteiro começou a procurar Brasília. Nós tínhamos uma média de 300 pessoas chegando por mês e isso praticamente dobrou (o atendimento). Passamos a receber 600 pessoas. E mesmo assim, isso não pode nos impedir de continuar avançando. Porque eu olho para a fila de cirurgias, para a fila de consultas, para os exames represados, e sei que as pessoas não conseguem esperar mais. Quem está na fila está sofrendo agora. Não é um problema para daqui a cinco anos. É um problema imediato.

Então nós estamos trabalhando em várias frentes ao mesmo tempo. Tenho feito o GDF na Sua Porta, estamos reformando unidades básicas de saúde, reorganizando atendimentos e tentando melhorar os ambientes das unidades. Porque também não adianta falar em humanização se você recebe as pessoas em locais deteriorados, sem estrutura. A estrutura importa. O acolhimento importa. A gestão importa.

Nós criamos um espaço específico dentro do orçamento para reforma de UBSs. Em várias regiões administrativas já começamos esse trabalho. Tenho acompanhado pessoalmente. A saúde exige presença do governador. Não dá para governar saúde de longe.

Eu mesma fui ao Tribunal de Contas despachar processos da saúde. Liguei para conselheiros porque nós precisávamos destravar reformas nos hospitais. Eu precisava que aquilo andasse. Então, às vezes, as pessoas perguntam: “Governadora, por que a senhora vai pessoalmente?”. Porque eu tenho urgência. Porque quem está esperando cirurgia não pode aguardar burocracia eterna.

E tem outro problema muito sério hoje, que é a dificuldade de manter profissionais na rede pública de saúde. Principalmente médicos. Hoje não é atrativo financeiramente para muitos médicos permanecerem na rede do DF. Eu queria muito ter enviado já um reajuste salarial para essa categoria. Queria muito. Porque eu sei da importância desses profissionais e sei também que muitos estão sobrecarregados.
Mas eu não posso agir com irresponsabilidade fiscal. Não posso prometer algo sem orçamento. Isso seria muito fácil politicamente, mas errado como gestora. Agora, eu posso afirmar: essa será uma das primeiras categorias que nós vamos olhar quando tivermos recuperação financeira. Porque se você não remunera bem o médico, você perde esse profissional.

Como equilibrar demandas da população diante de um cenário financeiro difícil?

Acho que a população acompanha muito de perto o que está acontecendo. Ela entende quando você fala a verdade e quando você demonstra prioridade. Nós assumimos um cenário muito complicado financeiramente. E a primeira coisa que fizemos foi cortar gastos da máquina pública. Reduzimos contratos, aluguel, despesas administrativas, viagens. Desde que assumi como governadora, não autorizei viagem de secretário. Porque eu precisava reorganizar a casa.

Mas, mesmo diante desse cenário, não posso deixar de investir onde as pessoas mais precisam. E a saúde é uma dessas áreas. Então nós estamos priorizando aquilo que é mais sensível. A população não quer discurso. Ela quer resultado. Quer entrar em uma UBS e conseguir atendimento. Quer cirurgia acontecendo. Quer um hospital funcionando. E eu tenho muito claro dentro de mim que a saúde precisa melhorar rapidamente.

Há outros projetos em estudos?

Tem projetos estruturantes que eu estou em negociação com bancos internacionais. Porque nenhum estado consegue fazer grandes obras estruturantes apenas com recurso próprio. Nós temos duas obras muito importantes que estamos buscando financiamento internacional para iniciar. A primeira é a expansão do metrô para a região de Santa Maria. Essa obra é fundamental. Brasília cresceu muito e o transporte público precisa acompanhar esse crescimento. Hoje, muitas pessoas passam horas dentro de ônibus, enfrentando deslocamentos extremamente cansativos. Quando você melhora a mobilidade, você melhora qualidade de vida, melhora acesso ao trabalho, melhora acesso à saúde, à educação, melhora tudo. A expansão do metrô é uma prioridade muito clara. E nós também estamos trabalhando no projeto do VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) entre Taguatinga e Ceilândia. Esse projeto é muito importante, porque ele não é apenas uma obra de mobilidade, também revitaliza toda aquela região central de Taguatinga. A ideia é criar uma integração maior com o metrô já existente e reorganizar o fluxo urbano daquela área. Nós queremos transformar aquela região. Fazer uma revitalização urbana com a melhoria do transporte.

Quando chegar 31 de dezembro, qual será sua maior conquista?

Primeiro, eu tenho que agradecer a Deus. Sempre foi muito generoso comigo. Acredito que existe um propósito em tudo isso. Quando chegar o dia 31, quero olhar para trás e falar: eu fiz o que tinha que fazer. Fiz as coisas certas. Fiz tudo com responsabilidade. Sei que os desafios são enormes. Sei das dificuldades financeiras, dos problemas históricos, das crises. Mas também sei da minha capacidade de trabalho. E eu acho que, no final, o que marca um governo não é o discurso. São as entregas. São as mudanças reais na vida das pessoas. Se eu conseguir melhorar a saúde pública, organizar as contas do DF e devolver estabilidade para Brasília, eu já vou sentir que cumpri minha missão.

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