
Cem mil litros de combustível são suficientes para abastecer um posto de gasolina de pequeno porte por cerca de um mês, estima Paulo Roberto Correa Tavares, presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Combustíveis e Lubrificantes do Distrito Federal (Sindicombustíveis-DF). O volume furtado de um oleoduto da Transpetro, subsidiária da Petrobras, apenas na última semana, em Ceilândia, equivale à carga de aproximadamente quatro caminhões-tanque. A Polícia Civil sabe como os três criminosos acessaram a tubulação subterrânea. A dúvida agora é para onde foram os milhares de litros de gasolina e diesel desviados.
Os indícios colhidos até o momento levam a um mercado clandestino que opera à margem da cadeia formal de distribuição. A operação Estige, desencadeada na última sexta-feira, pode representar um caso inédito no Distrito Federal pelo grau de sofisticação da engrenagem criminosa. Em 2023, uma outra operação prendeu quatro homens pelo desvio de 30 mil litros de combustível. À época, a corporação afirmou ser a primeira vez de um crime desse porte na capital.
Desta vez, investigadores da 19ª Delegacia de Polícia (P Norte) estão diante de um problema mais complexo e acreditam que a descoberta do imóvel e a prisão dos envolvidos sejam a camada mais superficial do negócio. Ao Correio, o presidente do Sindicombustíveis-DF afirmou tratar-se de um episódio preocupante e mensurou os prejuízos. Se todo o produto furtado na última semana — entre 90 e 100 mil litros de combustível — for de diesel, o rombo pode chegar a R$ 750 mil, calcula ele.
"Precisamos saber de início o destino desse furto no duto, porque ele é de diesel e gasolina. O DF, diferentemente de outras unidades da Federação, tem em torno de 90% do produto vindo das refinarias do interior de São Paulo e a maior parte chega às grandes distribuidoras. Não acredito que essas maiores possam estar adquirindo de forma clandestina. Elas são muito sérias. Restam as pequenas distribuidoras, que podem ser no DF ou em Goiás", afirmou.
Segundo Paulo Roberto, não há como o combustível furtado ir direto para o posto de gasolina. No caso do diesel, segundo ele, precisa ser misturado com biodiesel. Quanto à gasolina, com etanol. "A não ser que possam estar usando esse tipo de diesel para mistura clandestina e levar para fazendas do interior que precisam ir para os maquinários. Mas somente a investigação vai elucidar", sugeriu.
Para Paulo Roberto, o maior perigo do esquema não está na venda do combustível, mas na retirada clandestina do produto diretamente do oleoduto. Qualquer erro durante a perfuração ou transferência pode provocar vazamentos, incêndios ou explosões de grandes proporções, afirma.
A hipótese considerada mais provável pelo representante do setor é a venda clandestina. Segundo ele, o diesel pode ser comercializado diretamente para caminhoneiros e consumidores que não exigem nota fiscal nem estão sujeitos à fiscalização sobre a origem do combustível armazenado nos veículos. Como o produto furtado costuma ser vendido abaixo do preço de mercado, a demanda tende a ser alta, tornando o escoamento relativamente simples para os criminosos.
Na manhã de sábado, a Defesa Civil interditou duas residências próximas ao oleoduto por riscos de explosão na área. Ontem, a pasta afirmou ter feito os trabalhos de reparo. Após avaliações técnicas, as equipes eliminaram as condições que justificavam o isolamento preventivo. "Segundo informações repassadas pelos responsáveis pela operação, o oleoduto encontra-se novamente em funcionamento normal."
Nos próximos dias, a Defesa Civil executará apenas serviços complementares de reforço e recomposição do local, sem impacto à segurança da comunidade. O órgão descartou o risco iminente para os moradores da região e garantiu acompanhar as condições da área.
Oficina
O delegado Fernando Fernandes, da 19ª DP, responsável pela investigação, aguarda os laudos para saber a quantidade exata de combustível furtado nos três meses em que os criminosos estiveram no imóvel. O ponto alugado fica às margens da BR-070 e, segundo o investigador, o trio alegou ao real proprietário que montaria uma oficina mecânica no espaço.
Por três meses, os suspeitos identificados como Antônio Marcos da Silva Seurinho, 43 anos; José Marle de Queiroz Lucena Segundo, 43; e Paulo Batista de Oliveira, 36, iam ao imóvel de duas a três vezes por semana, sempre à noite. Ontem, a polícia descobriu parte do caminho do produto furtado. Depois de escavar o túnel, soldar a válvula de controle e retirar o combustível com uma mangueira de alta pressão, os criminosos colocavam o líquido em galões, repassavam para caixas d'água e acondicionavam em caminhonetes para o transporte.
A Transpetro emitiu uma nova nota sobre o caso. A subsidiária da Petrobras concluiu, ontem, o reparo do trecho do Oleoduto São Paulo-Brasília (Osbra). "A companhia é vítima da ação de criminosos em seus dutos e atua em conjunto com as autoridades de segurança pública para combater essa prática que coloca em risco a preservação da vida e a proteção ao meio ambiente."
A companhia disse, ainda, que considera essencial o trabalho desenvolvido pela 19ª Delegacia e que não há impacto ao fornecimento de combustível para a região. "Após ocorrências dessa natureza, a companhia adota protocolos de segurança e integridade operacional previstos para atuação em contingências", afirma, em nota.
Saiba Mais
Caso de 2023
O esquema descoberto em Ceilândia não foi o primeiro caso de furto de combustível diretamente de um oleoduto no Distrito Federal. Em janeiro de 2023, a Polícia Civil prendeu quatro homens suspeitos de desviar cerca de 30 mil litros de gasolina do Oleoduto São Paulo-Brasília (Osbra), que abastece o terminal da Transpetro no DF. À época, a corporação classificou a ocorrência como a primeira do gênero registrada na capital. Segundo as investigações, os criminosos perfuraram a tubulação e instalaram uma estrutura clandestina para retirar o combustível. O prejuízo foi estimado em aproximadamente R$ 780 mil. O caso chamou a atenção não apenas pelo volume desviado, mas também pelos riscos de explosão e desabastecimento associados à violação de uma infraestrutura considerada estratégica. A Vara Criminal de Ceilândia condenou os envolvidos. Os três réus foram punidos pelos crimes de furto qualificado e associação criminosa, com cumprimento das penas em regime inicial fechado. As penas ultrapassaram nove anos de prisão em regime fechado.

Cidades DF
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