PODCAST DO CORREIO

Filósofo explica como o futebol ajudou a construir a identidade nacional

Afrânio Castro, filósofo e historiador, analisa no Podcast do Correio como o futebol ultrapassou os limites do campo, se tornou um fenômeno coletivo e ajudou a construir a ideia de Brasil

"O futebol pode gerar adesão a uma ideia, mas também pode anestesiar" - (crédito: Reprodução)

Em clima de Copa do Mundo, o Podcast do Correio recebeu o professor, filósofo e historiador Afrânio Castro, pesquisador da relação entre futebol, cultura e história do Brasil. Durante a conversa com os jornalistas Sibele Negromonte e Marcelo Agner, o especialista analisou como o esporte ultrapassou os limites dos campos e passou a ocupar um espaço simbólico na formação da identidade brasileira.

Segundo Afrânio, a compreensão desse fenômeno passa pela forma como diferentes sociedades constroem seus mitos fundadores e narrativas de pertencimento. Para ele, enquanto países como França e Rússia estruturaram parte de suas identidades nacionais a partir de grandes acontecimentos históricos, como a Revolução Francesa e a Revolução Russa, o Brasil não teve um processo semelhante.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

“Quando comecei meus estudos, me chamou a atenção como os primeiros filósofos estavam muito vinculados à ideia de um povo, de um pensamento que conduz uma comunidade. Percebi que o Brasil não tem um mito fundante”, explicou.

O historiador destaca que acontecimentos como a Independência e a Proclamação da República foram conduzidos principalmente por grupos de elite, sem ampla participação popular. Nesse cenário, o futebol teria ocupado um espaço importante na construção de uma ideia de nação. “O futebol vem preencher uma lacuna justamente no momento em que se está tentando construir a identidade de um país”, afirmou.

Apesar de hoje ser associado à cultura popular, o futebol chegou ao Brasil marcado pela exclusão. De acordo com Afrânio, o esporte foi introduzido por ingleses e empresários ligados às fábricas, permanecendo, inicialmente, restrito às classes mais altas.

O historiador explicou que a mudança ocorreu com o processo de industrialização, especialmente durante a Era Vargas, quando o crescimento das cidades e o deslocamento da população do campo para os centros urbanos aproximaram o futebol dos trabalhadores. “Foi nesse período que surgiram os chamados jogos de várzea, disputados em terrenos improvisados e fundamentais para a popularização da modalidade”, disse.

Segundo o especialista, esse movimento permitiu que o futebol incorporasse elementos da cultura brasileira. Ele cita interpretações de autores como Gilberto Freyre e Roberto DaMatta, que identificaram no jogo características como a ginga, o drible e a criatividade — aspectos que ajudaram a consolidar a imagem do chamado “futebol arte”.

A transformação do futebol em fenômeno nacional também esteve ligada aos meios de comunicação. Para Afrânio Castro, o rádio, junto com o cinema e a televisão, tiveram um papel decisivo ao criar uma experiência coletiva em torno das partidas. 

Assista à íntegra da entrevista:

Manifestações culturais

Outro ponto abordado no podcast foi a aproximação entre futebol e manifestações culturais populares, como o carnaval e o samba. Para Afrânio, essa relação está ligada a um movimento mais amplo de valorização da identidade brasileira iniciado no século 20, com destaque para a Semana de Arte Moderna de 1922, quando artistas e intelectuais passaram a defender a valorização das produções culturais nacionais.

Nesse contexto, o carnaval e o samba passaram a ser vistos não mais como manifestações marginalizadas, mas como expressões da cultura brasileira. “O samba passa a contar a beleza do cotidiano, principalmente do cotidiano carioca. Você começa a valorizar uma realidade que antes era deixada de lado”, afirmou. 

Para Afrânio, o futebol segue esse mesmo caminho porque, assim como o carnaval, é um fenômeno coletivo. “Ambos têm a capacidade de reunir diferentes grupos sociais e criar momentos de emoção compartilhada”, destacou.

A força simbólica do futebol também possui uma dimensão política. De acordo com o historiador, o esporte, historicamente, foi utilizado como instrumento de mobilização e construção de narrativas nacionais. Ele cita a Copa de 1950, quando a Seleção já carregava interesses políticos em meio a um período de intensas disputas no país, e a Copa de 1970, realizada durante a ditadura militar. 

“O futebol pode gerar adesão a uma ideia, mas também pode anestesiar a capacidade crítica. Quando o esporte é colocado como símbolo de que tudo está dando certo, fica mais difícil questionar o que está acontecendo ao redor”, analisou.

Por fim, Afrânio destacou a transformação do atleta brasileiro em uma mercadoria valorizada pelo mercado internacional, envolvendo contratos milionários, patrocínios e estratégias de marketing. “A ideia é que o jogador virou commodity. O Brasil é um grande exportador de commodities, e o futebol também entrou nessa lógica. Nós exportamos talentos, mas muitas vezes eles são moldados para outro tipo de futebol”, afirmou.

Segundo o historiador, a formação dos jogadores brasileiros passou a seguir cada vez mais o modelo europeu. Muitos atletas deixam o país ainda adolescentes e são inseridos em uma lógica de treinamento e competição diferente da tradição brasileira.

Na avaliação de Afrânio, esse processo contribuiu para a transformação do estilo de jogo e para o enfraquecimento de elementos associados ao antigo “futebol arte”, como improvisação, criatividade e liberdade dentro de campo.

 

 

  • Google Discover Icon
postado em 20/06/2026 04:00
x