A celebração de Santo Antônio vai muito além das tradicionais promessas afetivas e alcança um forte pilar de assistência social no Distrito Federal. Conhecido historicamente como o "santo dos pobres", o padroeiro inspira uma extensa rede de apoio estruturada no Santuário Santo Antônio, na 911 Sul. De acordo com o frei Edgar Alves, a paróquia desenvolve um papel ativo na comunidade ao acolher quase 200 famílias, todos os meses, com a entrega de cestas básicas e o oferecimento de café da manhã.
A atuação solidária do santuário abrange diferentes frentes de vulnerabilidade social. O local disponibiliza kits com enxovais e itens essenciais para gestantes carentes, promove oficinas de artesanato para a geração de renda de pessoas simples e mantém uma parceria contínua com uma creche na Cidade Estrutural. A cooperação envolve o envio periódico de alimentos, roupas arrecadadas e gestos simbólicos, como a doação de calçados brancos ofertados pelas crianças da catequese no dia da primeira eucaristia.
Durante os festejos juninos, o projeto "Santo Antônio Acolhe" traz cerca de 60 crianças da Estrutural para passar o dia no colégio ao lado do santuário, oferecendo atividades recreativas, exames e apoio material. "A gente quer mostrar um outro lado, um outro mundo, para que essa criança também possa saber que existe e que é possível, pela educação, conseguir sair daquela situação", explica o Frei Edgar.
Pães abençoados
O centro das celebrações deste sábado gira em torno da distribuição dos pães, um costume que remonta à vida do próprio frade franciscano, que doava o alimento da cozinha de seu convento para os famintos. No santuário, os fiéis realizam doações ao longo do dia e retiram os pães abençoados para proteger suas despensas e praticar a caridade. Na linha de frente desse trabalho está o filósofo Hugo Junqueira, 32 anos, morador da Asa Sul, que atua como voluntário na organização e entrega dos alimentos desde as 6h da manhã.
Com uma trajetória de 15 anos de voluntariado no santuário, Hugo herdou a devoção de sua avó, que o levava à paróquia desde os 6 anos de idade. Hoje, ele ajuda a perpetuar o legado familiar na organização da festa e no acolhimento aos devotos.
"O fiel faz a sua doação durante o dia, participa da missa, das orações e leva também um pãozinho abençoado para colocar na despensa em casa e ainda fazer a partilha com o vizinho ou demais familiares", conta o filósofo. Para ele, o serviço comunitário traz realização pessoal: "me sinto muito feliz e realizado. Vivendo esse legado de Santo Antônio, o carisma franciscano permanece vivo também na minha vida e na minha família".
A busca pelo pão bento também constrói correntes de solidariedade invisíveis entre diferentes regiões administrativas. A aposentada Zélia Higino, de 78 anos, saiu cedo de Sobradinho, onde mora, com a missão de representar um grupo de pessoas que não puderam comparecer à Asa Sul. Frequentadora assídua do santuário há mais de 15 anos, em todo dia 13, dona Zélia recolheu pães para vizinhas impossibilitadas de andar e para funcionários de uma farmácia local que lhe fizeram o pedido.
"Uma vizinha caiu, quebrou a perna e não pode andar. A outra está muito idosa, a outra não levanta mais. Ainda fui à farmácia e o pessoal me pediu para trazer pelo menos dois pãezinhos", relata a aposentada, explicando a tradição de trocar o pão antigo guardado na geladeira pelo novo a cada ano para garantir que nunca falte alimento no lar.
Emocionada ao resumir que Santo Antônio representa "fé" em sua vida, dona Zélia permaneceu no santuário para acompanhar as missas e manifestar sua gratidão pela própria condição física. "Eu venho sempre agradecer pela graça da saúde. Estou com 78 anos. Graças a ele, ao Pai e a todos os santos que nos protegem, eu não tenho uma doença", ressalta.
