Manuela Sá*
Com o início da fase de mata-mata da Copa do Mundo, a pressão sobre os jogadores aumenta. É nesse momento que o resultado do trabalho dos psicólogos do esporte entra em jogo. Em entrevista ao CB.Poder — parceria entre o Correio Braziliense e a TV Brasília — dessa segunda-feira (29/6), a professora da Universidade Católica de Brasília (UCB) Larissa Maciel, graduada em psicologia e em educação física, falou sobre o valor desses profissionais no preparo dos atletas desde a base até uma disputa de pênaltis na Copa do Mundo. Aos jornalistas Mariana Niederauer e Ronayre Nunes a especialista explicou que essa área do saber, apesar de muito associada a patologias, ajuda as pessoas a apresentarem melhor rendimento.
Qual é a importância de ter um psicólogo integrado à equipe da Seleção Brasileira na Copa?
A gente observa essa inserção do psicólogo do esporte há pouco tempo. É uma área muito nova também dentro da psicologia. Então, claro que ainda tem muito a crescer. O profissional, inserido nesse contexto, em um super evento como a Copa, pode e vai ajudar os atletas a trabalhar o manejo do estresse e da ansiedade. Ele auxilia no preparo mental para esses jogos, principalmente os mais decisivos.
Por que existiu, por tanto tempo, essa barreira para a inserção do psicólogo? Como ela foi quebrada?
A barreira vem muito pelo preconceito. Como falar para os grandes patrocinadores que esse atleta está recebendo um acompanhamento psicológico? A psicologia veio, por muitos anos, associada, de fato, à patologia e não ao desempenho. Então, a gente vem quebrando essa barreira e mostrando que a psicologia também está aqui para ajudar as pessoas a ter um melhor desempenho e rendimento.
Como se dá esse trabalho?
Existem dois trabalhos. Em um deles, o psicólogo acompanha o treino e percebe que aquele atleta, de forma específica, precisa de atendimento individual. É um pouco diferente do que a gente está acostumado no contexto clínico, em que o psicólogo fica só no consultório. Na psicologia do esporte, não. O profissional vai a campo. Há também o acompanhamento do grupo. O psicólogo também está ali para ajudar essa equipe a trabalhar a coesão. Um time que não é coeso dificilmente vai conseguir desempenhar bem.
Outras seleções de alto rendimento também vão atrás desse tipo de acompanhamento?
A gente ouviu falar com bastante força sobre a Alemanha. Foi uma das primeiras seleções a buscar o acompanhamento do psicólogo e ter esse profissional como integrante da equipe. Nas categorias de base, esse trabalho vem sendo construído, principalmente, fora do país. Aqui, a gente ainda está sofrendo resistência. Mas ele é importante para acompanhar esse atleta ao longo da carreira. Ele prepara esse atleta desde a base para chegar, como adulto, desempenhando melhor, sabendo fazer melhor o manejo da ansiedade, do estresse e da pressão.
Talvez não exista pressão maior que a da hora do pênalti. Como ensinar a controlar as emoções nesse momento?
A gente fala em psicoeducação, ou seja, mostrar para esse atleta como a ansiedade acontece, como ela surge e quais são os primeiros sintomas que podem aparecer. Claro que a gente não vai tirar a ansiedade do atleta. Precisamos de um mínimo de ansiedade para conseguir desempenhar. É como se fosse uma curva. Se eu tenho ansiedade em excesso, não vou desempenhar bem. Eu posso paralisar ou acelerar demais e errar o timing daquele pênalti. Se eu não tenho ansiedade alguma, eu não tenho motivação para fazer aquilo. Preciso da adrenalina. Então, a gente tenta trabalhar com esse atleta para que ele entenda qual é o nível ótimo de ansiedade e mostrar que, mesmo ansioso, ele consegue ter os processos atencionais. Para isso, a gente faz o treino mental. Ele vai visualizar aquele momento várias vezes, enxergando sempre o acerto.
*Estagiária sob a supervisão de Tharsila Prates
