
Por Manuela Sá* — Entre as quatro paredes de um laboratório surgem várias soluções usadas pelas pessoas em geral no dia a dia. No entanto, para que saiam do ambiente acadêmico e conquistem as ruas, existe um processo abandonado com frequência. E é pela dificuldade de converter ideias em empresas que transformam o Distrito Federal que a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti-DF) com o Instituto Bem Estar lançaram o Programa Capital Lab — Empreendedorismo Científico.
A iniciativa, fruto de um edital de chamamento público, tem como objetivo converter pesquisas de laboratório produzidas por universidades em soluções de mercado. A proposta é ajudar pesquisadores a desenvolverem competências de empreendedor. Das equipes inscritas no edital, foram selecionadas 20 para participar de cinco meses de aceleração. Nesse período, será ofertada uma consultoria de acompanhamento técnico-empresarial individualizada.
No Setor Comercial Sul, no edifício Vera Cruz, está sendo construído um hub com 20 salas individuais, onde esses pesquisadores terão a oportunidade de trabalhar em conjunto. Para descentralizar os ecossistemas de inovação, serão construídos também laboratórios temporários em containers instalados em Ceilândia, na Faculdade de Ciências e Tecnologia em Saúde da Universidade de Brasília (FCTS/UnB); na Asa Norte, no campus Darcy Ribeiro da UnB; e um terceiro no Núcleo Rural Vargem Bonita, na Fazenda Água Limpa da UnB.
O engenheiro mecânico Silvio José Gobbi, 43 anos, considera que esse programa ajuda a concluir o ciclo completo de pesquisa. Além do levantamento e validação de hipóteses, faz parte do processo disponibilizar essa descoberta para a sociedade. Gobbi desenvolveu em seu doutorado no Programa de Pós-Graduação em Ciências Mecânicas da UnB, junto ao Departamento de Engenharia Mecânica, uma pesquisa sobre ligas de titânio para uso ortopédico.
Apesar da alta biocompatibilidade e maior resistência desse material, ele sofre muito desgaste com o movimento do corpo. O estudo identifica as melhores ligas e tem ainda como propósito avaliar o melhor filme fino para ser depositado sobre os implantes e protegê-los. Gobbi conta que, agora, a vontade é fazer o implante desde a formação da liga até o depósito do filme para que ele vire um produto.
Ele tem experiência com as etapas de venda. Na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), ele desenvolveu uma pesquisa que desencadeou no Reator Gerador de Flocos. A ferramenta une em um floco rejeitos líquidos que não podem ser descartados diretamente na natureza. A tecnologia foi produzida em escala industrial e usada por fábricas de carvão em Santa Catarina. Também foi usada em lava-jatos em Porto Alegre, para reutilizar a água de lavagens.
É com base nessas experiências que o engenheiro diz que sente falta de uma boa assessoria para os cientistas. "Reverter descobertas em algo acessível para as pessoas é uma forma de mudar a microcultura local. É ganhar consciência de que é possível fazer algo em cima das próprias ideias", salienta Gobbi, que leciona engenharia de materiais na UnDF.
Obstáculos
O coordenador do Centro Interdisciplinar de Engenharias, Tecnologia e Inovação da Universidade do Distrito Federal (UnDF), Antonio Pereira Júnior, detalha que as principais barreiras enfrentadas por estudantes e pesquisadores ao tentar registrar uma patente ou abrir uma empresa a partir de uma descoberta científica são dificuldades burocráticas e culturais. "Entre os obstáculos burocráticos, destacam-se o desconhecimento sobre propriedade intelectual, a complexidade dos procedimentos, a definição de titularidade, os prazos prolongados e a necessidade de articulação entre diferentes setores institucionais", explica.
Júnior identifica que, no aspecto cultural, a universidade prioriza a produção acadêmica tradicional, como publicações e atividades de ensino. No sentido de promover um ambiente favorável à inovação, a sugestão do coordenador é "fortalecer os núcleos de inovação tecnológica, simplificar processos internos e ampliar a formação em empreendedorismo científico".
O professor de fisioterapia da UnB Rodrigo Carregaro, 47, esteve à frente do ensaio clínico para testar o uso da máscara Vesta, criação responsável por reter o vírus da covid-19 e reduzir a atividade do microorganismo. A inovação, desenvolvida pelas pesquisadoras Marcella Lemos e Graziella Joanitti na UnB, em parceria com a Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), foi explorada comercialmente por uma empresa de São Paulo. Carregaro destaca que a universidade atua como importante ponte no momento de entrar em contato com as empresas.
Atualmente, ele coordena o desenvolvimento de um aplicativo para ajudar no tratamento de pessoas com dor na lombar. Por meio de uma avaliação feita dentro da plataforma, médico e paciente vão ter acesso a uma intervenção mais personalizada, com acompanhamento por um fisioterapeuta. Assim, será possível implementar um programa de fisioterapia mais eficaz e adequado à condição de cada usuário. O objetivo é preencher lacunas no ramo da saúde digital. "Cresceram as ofertas de aplicativos, mas eu noto a falta de embasamento científico neles", observa Carregaro.
Com potencial comercial, a ferramenta surge como uma maneira de dar autonomia a quem sofre de dor na lombar. Além da própria experiência com o processo de transformar teses científicas em negócios, Carregaro lida com estudantes que desenvolvem as próprias pesquisas. O professor avalia que há uma falta de estímulo ao longo da graduação, e de dedicação dos alunos na hora de realizar pesquisas em inovação, apesar de a universidade possuir uma estrutura que auxilia nesse processo. "Essa dificuldade talvez se deva à falta de engajamento para viabilizar futuros negócios", aponta.
*Estagiária sob a supervisão de Malcia Afonso
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