
O cardeal Paulo Cezar Costa afirmou que a Arquidiocese de Brasília não responderá aos posicionamentos públicos do padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa sobre a situação da Capela Santo Atanásio, em Ceilândia.
Após divulgar uma nota pastoral alertando que o sacerdote e os ministros da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) estão em situação de cisma e excomunhão, o arcebispo disse que a Igreja apenas aplicou ao caso local as determinações da Santa Sé e que não pretende alimentar a polêmica. "Nós já fizemos aquilo que deveríamos fazer. Não entraremos nessa polêmica", afirmou.
Em entrevista ao Correio, durante a Festa de Nossa Senhora do Carmo, nesta quinta-feira (16/7), Dom Paulo explicou que o documento divulgado pela Arquidiocese não representa um posicionamento isolado da Igreja de Brasília, mas uma consequência das decisões adotadas pelo Vaticano após a ordenação de quatro bispos pela Fraternidade Sacerdotal São Pio X sem autorização do papa Leão XIV.
"Nós não fizemos nada mais do que traduzir aquilo que a Santa Sé fez", afirmou. Segundo o cardeal, a excomunhão decorre automaticamente do próprio ato de ordenar bispos sem mandato pontifício. "Quando nós falamos em excomunhão latae sententiae, quer dizer que, quando você cumpre o ato, automaticamente já está excomungado. Quando aqueles quatro bispos foram ordenados, automaticamente, a partir do ato, quem ordenou e os quatro já estavam excomungados. Isso é previsto no Direito Canônico", explicou.
De acordo com o arcebispo, a função da Arquidiocese foi apenas aplicar ao contexto de Brasília o entendimento manifestado pelo Dicastério para a Doutrina da Fé. "A Santa Sé fez uma nota depois explicando, falando sobre a fraternidade. Nós simplesmente traduzimos aquela nota para a situação que vivemos aqui na nossa realidade, que é a questão do padre Françoá e da capela dele. Simplesmente traduzimos."
Cartas e manifestações
O cardeal também afirmou que a Arquidiocese não responderá à carta e manifestações anunciadas pelo sacerdote da FSSPX. Desde a divulgação da nota pastoral, o padre Françoá tem contestado a existência de cisma e excomunhão, afirmando que a fraternidade permanece unida ao papa e que as sanções seriam "inválidas".
Questionado sobre essas declarações, Dom Paulo reiterou que a posição oficial da Igreja já foi apresentada. "Vamos permanecer aí. Não vamos responder a cartas, nós não vamos entrar nessa dinâmica. Nós simplesmente fizemos, com muita caridade, aquilo que a Igreja me mandava fazer como pastor", declarou.
Ao comentar a repercussão do caso, o arcebispo defendeu que o debate seja conduzido com respeito, sem ataques pessoais. Segundo ele, a aplicação das normas canônicas não deve ser confundida com ofensas ou condenações dirigidas às pessoas envolvidas.
"Acho muito indigno quando, para responder uma coisa, a gente ofende o outro, começa a levantar coisas. A Igreja e a fé cristã nos mandam ter uma visão bonita do outro. O outro é ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus. Por isso, o respeito pelo outro faz parte da fé cristã", afirmou.
Dom Paulo ressaltou que, mesmo em situações de divergência, o Evangelho orienta os cristãos a preservar a dignidade das pessoas.
"Mesmo na polêmica, é preciso manter sempre o respeito. É manter sempre a dignidade. O Evangelho é o primeiro a dizer: Jesus é o primeiro a dizer para não apontar o dedo, para não condenar. Às vezes, a gente quer se defender condenando o outro. Não é esse o caminho."
O arcebispo também fez questão de diferenciar a aplicação da legislação canônica de um julgamento pessoal. Segundo ele, cumprir aquilo que determina a Igreja não significa desrespeitar quem pensa de forma diferente.
"Aplicar a lei não quer dizer perder o respeito pelo outro. Aplicar a lei quer dizer fazer um ato que precisa ser feito. Mas é preciso sempre manter o respeito, nunca perder essa visão alta e bonita do outro, que é a dignidade humana, a grandeza de quem foi criado por Deus e é amado por Deus", afirmou.
Dom Paulo reforçou que considera o assunto encerrado por parte da Arquidiocese. "Nós já fizemos aquilo que deveríamos fazer. Não entraremos nessa polêmica, nesse sentido de ofensa, não entraremos nessa polêmica de ficar apontando o dedo. Não é o caminho da fé, não é o caminho da Igreja, não é o caminho que o Evangelho me manda", concluiu.
