
O cuidado que pais e responsáveis devem ter com o uso excessivo de telas não se limita ao período das férias, quando as crianças passam mais tempo dentro de casa e as alternativas para entretê-los ficam mais escassas. Interações em parquinhos, nas áreas de lazer dos prédios e nas ruas, cenas comuns na infância, tornaram-se mais raras quando uma opção mais prática passou a ocupar os pequenos. Para enfrentar essa situação, especialistas e pais dão dicas sobre como evitar o vício, quais os efeitos negativos desse uso e destacam a importância do tédio.
Pedagoga da Escola Classe 115 Norte, Martha Scárdua lista brincadeiras e dinâmicas pedagógicas que podem ajudar pais e responsáveis na hora de manter os pequenos ocupados. Algumas opções são a leitura, jogos de tabuleiro, encontros entre amigos e atividades que se integram à rotina da família, como cozinhar em conjunto.
Sair para observar a fauna e a flora, especialmente para aqueles entre cinco e sete anos, é um caminho. Martha cita espaços como a Biblioteca Nacional e o Espaço Cultural Renato Russo, onde há grande oferta de gibis. "Todo jovem gosta de movimento. Propor jogar bola ou andar de bicicleta são sempre possibilidades interessantes", detalha.
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Entre os efeitos negativos de estar constantemente em frente às telas, a pedagoga destaca a perda de convívio com outras pessoas da mesma faixa etária e de movimento do corpo. O excesso também pode causar ansiedade e virar um vício, problema sério para pessoas de todas as idades. Contudo, apesar de ser um problema, evitá-lo não é viável para todos. Pais que trabalham e não têm rede de apoio podem enfrentar dificuldades. É por esse motivo que ela enfatiza a necessidade de políticas públicas que contemplem esse grupo com, por exemplo, a criação de mais colônias de férias públicas.
Além desses efeitos, Martha destaca a importância de permitir que as crianças sintam tédio, sentimento comum quando elas estão desconectadas do mundo digital. De acordo com a especialista, essa sensação é a porta de entrada para a criatividade e a curiosidade, pois é quando o cérebro descansa e cria soluções para problemas com mais facilidade. Ele é também o responsável por fazer com que os pequenos aprendam a lidar com o aborrecimento. "É a possibilidade de encontro com aquilo que não é óbvio", afirma.
A advogada Priscilla Gurgel, 42 anos, mãe de uma criança de seis anos, observa isso na prática. Para ela, a televisão e o celular oferecem um entretenimento pronto, consumido de forma passiva. No período passado assistindo a algo, não há o desenvolvimento da criatividade e não há o exercício de tomar decisões. É por esse motivo que Priscilla oferece diversas opções de lazer em casa. A família tem o costume de jogar jogos de tabuleiro e brincar com livros de pintura. Também faz parte da rotina levar a criança para aulas de judô e de dança. "O essencial é encontrar programas que sejam do interesse do pequeno", ressalta.
Doar a si mesmo
Quando a criança quer assistir à televisão, a mãe não nega, porque ela acredita que proibir não é uma solução. Nesse ritmo, Priscila diz conseguir evitar o uso excessivo de telas. Segundo ela, não é difícil manter os filhos longe das tecnologias se eles não crescem acostumados a recorrer ao mundo digital. Ela reconhece que ter estrutura e rede de apoio na hora de educar é essencial. Para muitos pais, as circunstâncias em que se encontram não permitem dar uma atenção maior a esse assunto. No entanto, tendo estrutura, é simples encontrar opções atrativas. "Vale considerar até que ponto você está disposto a se doar", diz.
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Outro fator a se levar em consideração é o impacto do exemplo dos adultos nos mais jovens. Rafaela Marques, doutora em educação, docente e pesquisadora do programa da pós-graduação em educação da Universidade Católica de Brasília (UCB), avalia que crianças tendem a espelhar o comportamento dos mais velhos. Portanto, parentes precisam ficar atentos ao uso que eles mesmos fazem de aparelhos digitais. Ela orienta pais e responsáveis a se envolverem em atividades divertidas e significativas. "Conversar e brincar com as crianças pode garantir momentos especiais e gerar experiências que estreitam laços familiares", sugere.
A professora explica que é interessante proporcionar atividades que estejam de acordo com a faixa etária e de desenvolvimento da criança. Para os bebês, por sentirem o mundo por meio do toque, o ideal é bater palmas, engatinhar atrás de brinquedos e explorar texturas. Quando estiverem um pouco maiores, elas podem se interessar por jogos simbólicos, como brincadeiras de faz-de-conta. "A partir dos sete anos, as crianças começam a se interessar por jogos de regras — ludo, dama, pega-pega e esconde-esconde. Já pré-adolescentes tendem a apreciar jogos de estratégia", completa Rafaela.
Para manter a atenção dos pequenos, Rafaela sugere músicas que envolvam movimentos corporais repetitivos, adedonha e jogos de montar. Preocupada em evitar o vício em telas, Jéssica Sousa, 35, mãe de Miguel, 2 anos, aplica alguns desses conselhos e nota os efeitos positivos desse trabalho. Seu filho gosta de ler, brincar no parquinho e de andar de bicicleta. Ela observa que quando o filho passa muito tempo assistindo a algum desenho na televisão, ele fica hipnotizado e tende a ficar irritadiço.
Jéssica, que é agrônoma paisagista, e o marido trabalham em casa, o que facilita a criação de Miguel. Mesmo assim, há dias em que é difícil entretê-lo. "Querendo ou não, quando o trabalho aperta ou em dia de limpeza da casa, acabamos tendo que liberar mais a tela", conta. De toda forma, eles mantêm o limite de uma hora diária para assistir a programas. "Quando o Miguel passa mais tempo brincando e usando a imaginação, ele fica mais tranquilo."
Dicas de atividades
. Fazer programas que se integrem à rotina da família, como cozinhar em conjunto;
. Dar espaço para a criança sentir tédio;
. Incluir programas regulares na rotina. Aulas de dança, de judô ou de futebol são exemplos;
. Incentivar o movimento do corpo ao ar livre;
. Estimular atividades dentro de casa, como leitura, brincar com livros de pintura, jogos de tabuleiro, jogos de montar e adedonha.
*Estagiária sob supervisão de Tharsila Prates

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