Candangos

Vladimir Carvalho: Os olhos férteis

Vladimir Carvalho chegou em Brasília em 1970, convidado pelo professor e amigo Fernando Duarte, para montar, na Universidade de Brasília (unB), o centro de produção de documentários

Jorge Henrique Cartaxo*

"Nós moramos, desfrutamos de uma imensa, fabulosa, magnificente arquitetura. Ninguém passa incólume pela Esplanada dos Ministérios. Se formos a cada edifício, a cada capricho arquitetônico do Niemeyer, contemplamos uma obra de arte enorme...nós somos protagonistas disso também. Quem nasce em Brasília, já nasce no meio de uma obra de arte. Depois, é o seguinte: Brasília é um tambor onde ressoa toda a problemática brasileira. Temos o Congresso, o Judiciário e o Poder Executivo, a presidência da República. Os Três Poderes moram aqui. Isso produz um tipo de cultura vis a vis com a alma da nação. Toda a problemática brasileira ressoa no Congresso Nacional...o fato de Brasília ter sido partejada pelas câmeras do cinema, a fez umbilicalmente ligada à cultura universal. Não existe outra capital no mundo que tenha surgido assim e com essa força extraordinária da arquitetura. O projeto urbanístico de Lucio Costa é maravilhoso! Um avião que não é avião, mas que pode ser uma cruz, pode ser o descobrimento, a primeira missa...tudo está aqui! A essência de Brasília, o charme de Brasília que é enorme!"

Assim Vladimir Carvalho descreveu o seu encantamento com a nossa cidade, na sua última entrevista, em vida, para a jornalista Marcia Zarur, na Fundação Cinememória, no dia 5 de outubro de 2024. Ele viria a falecer 19 dias depois, no dia 24. Vladimir Carvalho chegou em Brasília em 1970, convidado pelo professor e amigo Fernando Duarte, para montar, na Universidade de Brasília (unB), o centro de produção de documentários. O projeto nunca se viabilizou exatamente, mas Vladimir acabou ficando no Planalto, onde viveu por mais 54 anos. Aqui ele foi professor na UnB, se consolidou como um dos maiores documentaristas do Brasil e, last but not least, fez valer a sua aura de um militante convicto e consistente de dois valores básicos que abraçaram parte expressiva da inteligência ocidental no pós-guerra: a liberdade e a justiça social. Provocações e denúncias estavam, e estão, em todas as suas películas.

Vladimir produziu uma grande obra em qualidade, não exatamente em quantidade, pouco mais de 20 documentários (com vários prêmios em Brasília). Ao contrário da tradição europeia, o cinema no Brasil optou pelo entretenimento hollywoodiano em detrimento da memória e da história. Especificamente em relação a Brasília - o trabalho de Vladimir é muito significativo também no Nordeste - ele realizou pelo menos três grandes documentários: Conterrâneos Velhos de Guerra, Barra 68 e Rock Brasília - Era de Ouro. Nessas três obras ele sublinha a sua extraordinária participação na construção da identidade e no sentido de pertencimento à Civita, Urbs e Pólis concebida por Lucio Costa.

Em Conterrâneos Velhos de Guerra, Vladimir nos oferece a feição da epopeia da construção de Brasília sob a perspectivas dos 50 mil trabalhadores que se apinharam no canteiro de obras e nos aglomerados humanos improvisados dos seus arredores. As cenas mais fortes do documentário trazem a ação violenta da Guarda Especial de Brasília nos alojamentos da construtora Pacheco Fernandes Dantas, no carnaval de 1959, e a tensa entrevista com Oscar Niemeyer sobre o episódio.

No Barra 68 - Sem Perder a Ternura, ele narra a construção do grande e inovador projeto da UnB conduzido por Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira. O filme traz, ainda, o impacto dos governos militares no seu esforço de destruição da nova universidade, com destaque para a violenta invasão pelo Exército do campus em 1968, quando foram presos mais de 500 estudantes com a consequente e expressiva demissão de professores. Rock Brasília - A Era de Ouro, oferece para a cidade, com a sensibilidade de Vladimir Carvalho, a mais importante e visível manifestação cultural da juventude brasiliense na década de 1980. As bandas Capital Inicial, Legião Urbana, Paralamas do Sucesso e Plebe Rude, mostraram a sua força, irreverência, poesia e talento para o Brasil.

Vladimir Carvalho nasceu em Itabaiana, na Paraíba, em 1935, numa antiga e próspera região de grande comércio de gado, um centro boiadeiro. Em 1945, para continuar os estudos, vai para Recife. Em 1949 voltou para a Paraíba, agora em João Pessoa, onde o pai, comerciante, havia se estabelecido. No final da década de 1950, com apenas 15 anos, ele  dirigia um programa de rádio - Luzes do Cinema - e escrevia crítica de cinema nos jornais da cidade. Nesse mesmo período foi convidado por Linduarte Noronha para escrever o roteiro de Aruanda - obra inaugural do que viria ser posteriormente o chamado Cinema Novo.

Em 1962, depois de realizar com o amigo João Ramiro o documentário Romeiros da Guia, Vladimir vai para Salvador terminar o curso de Filosofia na universidade. Na Bahia ele conhece e fica amigo de Glauber Rocha, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Orlando Senna, Torquato Neto, e Álvaro Guimarães. Foi também na Bahia que ele ingressou no Centro Popular de Cultura, e iniciou, como assistente de Eduardo Coutinho, a realização de Cabra Marcado para Morrer.

Ainda em companhia de Coutinho, Vladimir foi conhecer as filmagens de Os Fuzis, de Ruy Guerra. Com o golpe de 1964, suas atividades foram interrompidas e a perseguição dos militares o levou à clandestinidade. Em 1965, agora no Rio de Janeiro, Vladimir foi assistente de Arnaldo Jabor e se dedicou, na maior parte do tempo, ao jornalismo no Diário de Notícias. Em 1969, apresentou o filme A Bolandeira no Festival de Cinema de Brasília. O documentário recebe um dos prêmios e ele reencontra o amigo Fernando Duarte. O paraibano vira Candango. Brasília recebe e acolhe o mestre edificante, refinado, exemplar e admirável memorialista, artesão poético das películas!

A Fundação Cinememória, que abriga o majestoso acervo museológico de Vladimir Carvalho, será realocada para a Casa da América Latina, da UnB. Uma iniciativa do Coletivo Editorial Maria Cobogó, que provocou o IPHAN, que levou a proposta para a UnB. A professora Rozana Naves, reitora da UnB, vem conduzindo com elogiável zelo e cuidado esse projeto especial da memória da nossa cidade e do Brasil. Bravo!

*Jorge Henrique Cartaxo, é jornalista, mestre em história pela Universidade Paris-Sorbonne

 


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