
Por Jorge Henrique Cartaxo
A Casa Petrópolis, hoje museu da cidade e prestigiado centro cultural, fica na Avenida Ipiranga, no centro histórico de Petrópolis. Construída entre 1879 e 1894, o petit palais de arquitetura eclética e vitoriana sempre foi um dos encantos da cidade de Dom Pedro II. Depois de alguns anos na Europa, o arquiteto José Tavares Guerra construiu o seu "paraíso" no meio de um belo jardim projetado pelo botânico francês Auguste François-Marie Glaziou. Sim, aquele que integrou a Segunda Comissão Cruls (1894-1895) e indicou, com precisão, o local onde deveria ser erguida a barragem que daria origem ao hoje Lago Paranoá, em Brasília.
Foi no petit palais do avô materno que Alcides da Rocha Miranda, nascido em 1909 no Rio de Janeiro, passou a infância e a adolescência. Em 1925, agora morando com os pais no Rio de Janeiro, Alcides, então com 16 anos, matriculou-se na Escola Nacional de Belas Artes.
Os anos 1920, do século 20 — década da primeira maturidade de Alcides —, também conhecidos como os Anos Loucos, foram particularmente intrigantes nas artes, na cultura, no comportamento, no gosto, nas liberdades e, também, na desordem, no caos e na violência política. Em 1926, em Dessau, na Alemanha, Walter Gropius projetou o icônico prédio da Staatliches Bauhaus (Casa Estatal de Construção). A revolucionária escola de arte e berço do que hoje chamamos de Modernismo na arquitetura e no design. Em Paris, Pablo Picasso, Ernest Hemingway, Coco Chanel inquietavam os cafés. Nos EUA, o jazz; Luis Buñuel, na Espanha; Sergei Eisenstein, na URSS... e tantos outros.
No Brasil, em 1922, no Theatro Municipal, a Semana de Arte Moderna sinalizou o caminhar de uma nova arte no país. Em 1924, a Coluna Prestes adentrou os sertões da pátria numa marcha épica. Em 1928, o ucraniano Gregori Warchavchik inaugurou a Casa Modernista da Rua Santa Cruz, em São Paulo. Em 1929, Le Corbusier faz a sua primeira visita ao Brasil e suas famosas conferências no Rio e em São Paulo. A década terminaria com a Revolução de 1930, que entronizou Getúlio Vargas no Palácio do Catete.
Quando concluiu o seu curso de arquitetura da ENBA, em 1932, Alcides já havia conversado, longamente, com Le Corbusier, em 1929; acompanhando a gestão revolucionária e tensa de Lucio Costa na direção da Escola Nacional de Belas Artes, em 1931; e trabalhava, como arquiteto, no escritório do calculista da equipe de Lucio Costa, Emilio Enrique Baumgart.
Nas décadas de 1930 e 1940, o arquiteto, que sempre foi antes de tudo um artista, privilegiou suas atividades nas artes plásticas e nos estudos acadêmicos. Em 1933, integrou a equipe que realizou o 1º Salão de Arquitetura Tropical. Também em 1933 fez parte da coordenação da revista Base (periódico sobre arquitetura e engenharia). Em 1935, matriculou-se no curso de filosofia da Universidade do Distrito Federal, recém-criada por Anísio Teixeira. Até o fim da década de 1940, realizaria e participaria de dezenas de exposições no Brasil, na Inglaterra, na Argentina e em várias cidades da América Latina. No início da década de 1940, Alcides ingressa no Sphan — hoje Iphan — e compõe a plêiade de intelectuais convocados por Melo Franco. Em pouco tempo, ele já estava envolvido com o tombamento e a preservação de Ouro Preto, Tiradentes, a Região do Serro, Paraty, Diamantina e uma miríade de igrejas e prédios em Minas, no Rio e em São Paulo.
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Depois da sua rápida passagem por São Paulo, como professor da USP, Alcides sugere a Rodrigo de Melo Franco a criação de uma representação do Sphan em Brasília, já próxima da sua inauguração. Em 1959, agora em Brasília e integrado também ao grupo de Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro, Lucio Costa, Oscar Niemeyer, Ciro dos Anjos e Vitor Nunes Leal, ele participa do núcleo central de planejamento, organização, construção e fundação da Universidade de Brasília. Faz gestões junto ao então ministro da Educação, Clóvis Salgado, no sentido de assegurar a edificação do Campus da UnB dentro do Plano Piloto, proposta que sofria resistência de Israel Pinheiro. Aprovado pelo Congresso o Projeto de Lei que criava a UnB, em 1961, Alcides iniciou a edificação da universidade: projetou e construiu a Faculdade de Educação (que abriga o auditório Dois Candangos, obras icônicas).
Quando o presidente João Goulart inaugurou a UnB, no dia 21 de abril de 1962, o Instituto Central de Artes, projeto de Alcides, estava devidamente pronto, assim como a Faculdade de Arquitetura. O ICA tinha como objetivo precípuo oferecer aos estudantes da UnB e à população de Brasília o diálogo com a arte, a produção artística e a estética. "O encontro com Alcides foi para mim uma das boas coisas que Brasília me deu. Eu já o conhecia aqui no Rio como arquiteto, autor de obras de muita qualidade. Fazendo a universidade, encontrei um artista evidente", disse Darcy Ribeiro sobre Alcides da Rocha Miranda.
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Vivia-se um grande entusiasmo, naquele momento, em Brasília com a construção da UnB. Alcides trouxe para o ICA o que havia de melhor na cidade: Athos Bulcão, Paulo Emilio Salles Gomes, Claudio Santoro, Luiz Humberto, Régis Duprat, Ferreira Gullar, Marilia Rodrigues, Alfredo Ceschiatti, Glênio Bianchetti, Paulo Martins... uma equipe de rara qualidade! Música, cinema, designer, movelaria, desenho, pintura integravam o cotidiano daquele momento único da UnB. Na manhã do dia 9 de abril de 1964 tudo ruiu. Os militares invadiram a universidade atingindo o coração da nova Civita e Urbs, ainda em construção, a nossa Brasília.
No início da década de 1970, ele volta para o Rio e constrói um novo projeto: vai revitalizar prédios antigos e edificar novas construções, quando necessárias, em sítios históricos. Assim, ele se divide entre o Rio e Minas Gerais até a década de 1980. Não são poucos os estudos, teses e ensaios sobre o modernismo no Brasil que tratam, direta ou indiretamente, da vida acadêmica e artística de Rocha Miranda. Dentre eles, pelo menos um não podemos deixar de lembrar aqui: o belo e rico texto de Lelia Coelho Frota, Alcides Rocha Mirada — caminho de um Arquiteto. Ele faleceu no Rio de Janeiro no dia 22 de outubro de 2001, aos 92 anos.
Jorge Henrique Cartaxo é jornalista, mestre em história pela Universidade Paris-Sorbonne

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