mobilidade urbana

Crise: por que passageiros estão abandonando o transporte público?

Dados apresentados pela NTU no seminário nacional Transporte para Todos, durante a feira Lat.Bus, em São Paulo, revelam que a perda de passageiros para o transporte individual reflete a busca por agilidade e qualidade na mobilidade urbana

Seminário Nacional NTU 2026 -  (crédito: MBM Fotografia)
Seminário Nacional NTU 2026 - (crédito: MBM Fotografia)
São Paulo — A decisão do passageiro de abandonar o transporte coletivo passa, antes de tudo, pelo tempo perdido no trânsito e pela falta de conforto no deslocamento diário. Ao contrário do que se poderia supor, o valor da tarifa não é o principal fator de expulsão dos usuários dos ônibus nas cidades brasileiras: a busca por flexibilidade, menor tempo de viagem e maior comodidade tem falado mais alto na hora de migrar para os modos individuais de transporte.
Os números foram apresentados pela Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU) durante o Seminário Nacional NTU 2026 — Transporte para Todos, realizado na feira Lat.Bus, em São Paulo. O levantamento lança luz sobre o diagnóstico da mobilidade urbana no país e explicita o tamanho do desafio enfrentado pelas redes de transporte público.

Por que o passageiro foi embora?

A pesquisa traz o raio-X da migração de modal no país: apenas 32% dos usuários permanecem como demanda cativa do transporte por ônibus, enquanto 29% deixaram de usar totalmente o sistema e 28% diminuíram a frequência das viagens (10% declararam nunca ter utilizado o serviço).
Entre os passageiros que abandonaram ou reduziram o uso do ônibus, os motivos centrais destacam a insatisfação com a qualidade e a eficiência da viagem:
  • Pouco conforto: 29%
  • Falta de flexibilidade dos serviços: 21%
  • Tempo elevado de viagem: 20%
  • Tarifa elevada: 12%
A constatação da NTU indica que a experiência do usuário — traduzida em pontualidade, frequência, assentos disponíveis e viagens menos desgastantes — pesa mais na balança do que o preço cobrado na catraca.

Mudança nos padrões de mobilidade

Entre 2017 e 2024, a participação do ônibus no quadro geral do transporte urbano despencou 14 pontos percentuais, caindo de 45% para 31%. No mesmo período, os modos individuais motorizados ganharam espaço expressivo:
  • Carro: subiu de 22% para 31% (+9 p.p.)
  • Moto: subiu de 5% para 11% (+6 p.p.)
  • Aplicativos de transporte: avançaram de 1% para 11% (+10 p.p.)
  • Bicicleta: passou de 4% para 7% (+3 p.p.)
  • A pé: manteve-se estável em 22%
A transição evidencia que o encolhimento do transporte público coletivo (TPC) não decorre apenas de uma redução de deslocamentos da população, mas de uma verdadeira reorganização da mobilidade, marcada pelo crescimento expressivo do uso de veículos individuais motorizados e serviços por aplicativo.

Gargalo nos investimentos e propostas para o setor

O levantamento da NTU expõe, ainda, o desequilíbrio histórico nos aportes financeiros para a infraestrutura de mobilidade. No Brasil, os investimentos em mobilidade urbana equivalem a apenas 0,1% do PIB, patamar significativamente inferior à média internacional (1,3%) e à União Europeia (2,5%). Além disso, a alocação de recursos públicos para o setor de transportes (1,8%) fica bem distante de áreas estratégicas como Educação (5,7%) e Saúde (5,0%).
Para contornar o cenário de esvaziamento dos ônibus e gargalos viários, o setor aponta que a simples renovação de frota (que garante conforto, acessibilidade e menores emissões) não resolve o problema de fundo se os veículos continuarem retidos nos engarrafamentos das grandes cidades. A solução exige, fundamentalmente, infraestrutura de priorização — como faixas exclusivas e corredores preferenciais —, capaz de assegurar menor tempo de percurso, regularidade e maior produtividade operacional.
No campo do financiamento, o setor defende a estruturação do programa "Transporte para Todos", fundamentado em três pilares para custeio do sistema:
  • Vale-Transporte do Trabalhador (VTT): estimativa de 45% a 55% do custeio;
  • Gratuidades Setoriais: estimativa de 25% a 35% do custeio;
  • Vale-Transporte Social (VTS): estimativa de 15% a 25% do custeio.
O objetivo do modelo é reduzir a dependência da tarifa paga pelo passageiro comum, garantindo a sustentabilidade financeira do serviço e permitindo que o transporte coletivo recupere a competitividade e a atratividade perdidas nas últimas décadas.
*A repórter viajou a convite da NTU.

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postado em 12/08/2026 10:52 / atualizado em 12/08/2026 10:55
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