LANÇAMENTO

Autora lança livro em Brasília sobre relatos de câncer, tabus e esperança

Baseada em dezenas de relatos de pacientes oncológicos, obra de Eleonora Santos aborda tabus nos consultórios e a esperança diante da doença grave

Lançado em Brasília, o livro de Eleonora Santos aborda as transformações na identidade e nas relações familiares após o diagnóstico de câncer -  (crédito: Divulgação)
Lançado em Brasília, o livro de Eleonora Santos aborda as transformações na identidade e nas relações familiares após o diagnóstico de câncer - (crédito: Divulgação)

O que muda na vida de uma pessoa quando ela recebe o diagnóstico de uma doença grave? É a partir dessa pergunta que a economista e escritora Eleonora Santos constrói "(In)finitudes", livro baseado nas histórias de 19 pacientes com câncer, sobretudo linfomas, e em três depoimentos de pessoas que acompanharam de perto o adoecimento ou a morte de alguém. A obra será lançada em 22 de agosto, na Livraria Circulares, em Brasília, como parte de um projeto que também inclui uma série de seis podcasts.

A ideia surgiu da experiência pessoal da autora, diagnosticada com linfoma folicular. Depois de um período inicial de observação, Eleonora precisou começar rapidamente um tratamento mais agressivo do que o previsto. A rotina mudou, vieram a perda de cabelo, o isolamento e as limitações físicas, enquanto ela tentava manter o trabalho e a vida cotidiana. A transformação fez com que a frase ouvida de um médico logo após o diagnóstico ganhasse outro significado: “Sua vida nunca mais será a mesma”.

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Foi também durante as sessões de quimioterapia que Eleonora começou a pensar no projeto. Ao observar outros pacientes e o sofrimento provocado pelo tratamento, sentiu necessidade de criar um espaço de acolhimento e conversa. A intenção, segundo ela, era oferecer conforto e esperança a pessoas que atravessavam experiências semelhantes.

"Como não ajudar as pessoas com uma experiência dessas? A ideia do projeto começou dentro da clínica e do espaço de quimioterapia, um desejo imenso de apoiar, levar conforto e esperança e, sobretudo, ajudá-las a encarar a doença com mais leveza", explicou ela ao Correio

Para construir o livro, Eleonora percorreu quatro cidades do interior de Minas Gerais e acumulou mais de 40 horas de conversas com pacientes e familiares. Os entrevistados, atendidos tanto pelo Sistema Único de Saúde (SUS) quanto pela rede privada, têm idades e trajetórias diferentes. O que os aproxima é a experiência de conviver com a doença, com as mudanças provocadas pelo diagnóstico e com questões que nem sempre encontram espaço durante o tratamento.

Entre os temas abordados estão as transformações na identidade, os impactos sobre as relações familiares, o constrangimento diante de determinados diagnósticos e a dificuldade de falar sobre a morte. Para Eleonora, esse silêncio não está restrito a um grupo social ou a determinado tipo de atendimento médico.

(In)finitudes será lançado em Brasília em 22 de agosto, com evento sediado na Livraria Circulares
(In)finitudes será lançado em Brasília em 22 de agosto, com evento sediado na Livraria Circulares (foto: Divulgação)

"O silêncio não tem sexo, nem cor/raça; não tem idade, nem estratificação social. Mesmo em famílias consideradas mais intelectuais, reside a dificuldade", declarou.

A autora afirmou que as entrevistas também revelaram uma dificuldade de diálogo dentro dos próprios espaços de saúde. Na avaliação dela, pacientes e profissionais nem sempre encontram condições para conversar abertamente sobre a finitude, mesmo quando ela está diretamente relacionada à experiência do adoecimento.

"Esse projeto me mostrou duas coisas muito marcantes: 1ª) mesmo com histórias de adoecimento semelhantes, cada ser é único . A singularidade não está só na impressão digital; ela é muito maior: ela está na história de vida. E isso foi algo precioso que consegui vivenciar, sentir e realizar; 2ª) o silêncio está nos consultórios, está na rede pública e na rede privada, nos pequenos e grandes centros, está na dificuldade e na falta de preparo dos médicos, dos psicólogos, dos enfermeiros e técnicos, enfim, do corpo clínico, de abordarem a morte, o processo de finitude da vida dos pacientes."

É nesse espaço de silêncio que a autora coloca o que chama de "escuta sem filtro". Para ela, ouvir os pacientes sem tentar suavizar a experiência permite que medos, dores e dúvidas sejam tratados de maneira mais direta.

Os entrevistados, que não conheciam Eleonora antes do projeto, receberam-na em suas casas e compartilharam aspectos íntimos de suas vidas.

"A escuta sem filtro é o lidar coma verdade de cada um, o concreto, o real. A escuta sem filtro vem sem recursos de amenizar a dor ou o sofrimento. A escuta sem filtro sai de dentro."

A discussão sobre a morte, contudo, não aparece na obra apenas como contraponto ao tratamento médico. A espiritualidade também ocupa espaço nas narrativas, a partir das diferentes formas encontradas pelos entrevistados para lidar com a doença e atribuir sentido à própria experiência. Para Eleonora, o contato com essas histórias modificou sua própria compreensão sobre finitude e transcendência.

"Hoje sinto que a finitude não existe, o que existe é o fim da materialidade. Somos infinitos, vivemos no interior, no coração e na mente das pessoas que nos amam e vice-versa."

Além do livro, o projeto "(In)finitudes" inclui seis episódios de podcast, com entrevistas e relatos de pacientes e profissionais relacionados ao tratamento de linfomas e outros tipos de câncer. Os conteúdos estão disponíveis no YouTube e no Spotify e ampliam a discussão proposta pela obra para temas como sofrimento, espiritualidade, relações entre médicos e pacientes e as mudanças provocadas pela chamada "vida em tratamento".

O projeto foi realizado por meio da Lei Rouanet (8.313/1991), com patrocínio do Itaú Unibanco. A formação acadêmica da autora inclui graduação em Economia, mestrado em Demografia, doutorado em Administração, pós-doutorado em Economia da Saúde pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e MBA Executivo pela Coppead-UFRJ.

Para Eleonora, apesar de o livro partir de experiências de adoecimento e da possibilidade concreta da morte, o sentimento que deve permanecer depois da leitura é outro. Ela resume a expectativa em uma única palavra: esperança.

"Esperança. A vida se nutra da esperança, mesmo que, como disse um paciente - que, infelizmente, morreu antes do livro ficar pronto: 'Eu sei quie meu relógio corre mais rápido; só não sei o quão mais'. Que independente da velocidade do relógio, do curto ou longo tempo a ser desfrutado, que a vida seja vivida com esperança. Só assim ela será vivida consciente e plenamente."

Serviço

  • O que: Lançamento do livro (In)finitudes
  • Quando: 22 de agosto de 2026 (sábado)
  • Onde: Livraria Circulares 714/715 Norte, Bloco H, Loja 9 (Asa Norte) – Brasília – DF
  • Classificação: Evento aberto ao público, sem necessidade de ingresso

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postado em 20/08/2026 09:50
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