HISTÓRIA

50 anos sem JK: Brasília, como poderei viver sem a tua companhia (parte 2)

Em 22 de agosto de 1976, a morte de Juscelino Kubitschek chocou o país. Na segunda parte deste artigo, os últimos dias de JK e as conclusões do relatório apontando que o fundador de Brasília foi assassinado pela ditadura militar

Em um momento icônico, JK acena para os candangos em frente ao Palácio da Alvorada na inauguração de Brasília
 -  (crédito:  Arquivo Público do Distrito Federal)
Em um momento icônico, JK acena para os candangos em frente ao Palácio da Alvorada na inauguração de Brasília - (crédito: Arquivo Público do Distrito Federal)

Por Jorge Henrique Cartaxo, especial para o Correio — O amigo Adolpho Bloch seria o último anfitrião de Juscelino Kubitschek na sua derradeira e ainda pouco compreendida cena política e histórica, até ser retirado da vida e dos destinos da Pátria, num episódio que se sabe hoje criminoso. Como relembrado na primeira parte deste artigo, publicado na quarta-feira, JK embarcou em Brasília com destino a São Paulo na manhã de 20 de agosto de 1976. Estavam no mesmo voo o então deputado federal Ulysses Guimarães e o então senador Franco Montoro, que lhe fizeram companhia naquela última viagem que registrou, também, as últimas reflexões de JK sobre as urgentes e crescentes inquietações políticas do país.  

Em 1935, na esquina da Avenida Europa com a Rua Groenlândia, o arquiteto Jacques Pilon projetou e edificou para o parlamentar e empresário Horácio Lafer a monumental residência que, posteriormente, ficou conhecida como a Casa da Manchete. Seguindo o estilo Luís XIII, traços renascentistas e inspirações nos castelos do Vale do Loire, esse Petit Palais foi adquirido pelo empresário Adolpho Bloch no início da década de 1960. Contemplando um projeto paisagístico assinado por Burle Marx, a imponente mansão estava decorada com um mobiliário clássico dos quatro cantos do mundo, além de peças assinadas por Sérgio Rodrigues e Joaquim Tenreiro, as telas luminosas de Portinari, Lasar Segall, Di Cavalcanti, Cícero Dias, Djanira, Tarsila do Amaral e toda a plêiade modernista que embelezou a estética brasileira, desde 1922.

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Foi nesse esplendor o último abrigo de Juscelino Kubitschek. Ali, sob as sombras das árvores gigantescas que adornam o jardim da antiga Casa da Manchete, JK abraçou, pela última vez, os amigos Montoro e Ulysses. Para o almoço, naquele momento bem atrasado, já o aguardavam Adolpho Bloch, Carlos Heitor Cony e outros convidados, de confirmação imprecisa: o rabino Moshe Elkana de Posselva, o pianista Jaime Davidson e a cantora Malka Davidson, entre outros. 

Sobre a agenda do ex-presidente JK no dia 21, em São Paulo, as informações, até onde nos foi permitido pesquisar, não são exatamente esclarecedoras. Em princípio, às 11h, ele teria acompanhado Adolpho Bloch até o aeroporto de Congonhas no embarque para o Rio de Janeiro. À noite, Juscelino teria ido, com o grande amigo Olavo Drummond, ao restaurante Paddock. Na manhã do dia 22 de agosto, JK voltou a se encontrar com Olavo Drummond e foram à casa de Ademar de Barros Filho (o Ademarzinho). O ex-presidente queria rever o afilhado, Ademar de Barros Neto, na ocasião com 14 anos. O anfitrião estava em Brasília, mas o encontro familiar transcorreu com a gentileza e a agradabilidade de Maria Helena, esposa de Ademarzinho. A visita terminou às 14h, após o almoço com o farto cardápio italiano servido aos visitantes. 

 O Opala em que Juscelino estava ficou destruído no acidente na Via Dutra em agosto de 1976
Opala que conduzia Juscelino ficou destruído. Ele e o motorista Geraldo Ribeiro morreram na hora (foto: Fotos: Arquivo/EM/DA Press)

"Vou à Casa da Manchete", disse Juscelino ao se despedir do amigo Olavo Drummond. "Você está muito bem, Juscelino. Bonito, corado, animado, conversando muito. Há muito não o via tão feliz", respondeu Drummond ao abraçar o amigo pela última vez. Adolpho Bloch e Olavo Drummond acreditavam que o ex-presidente iria para o Rio de avião. Talvez Carlos Heitor Cony, que estava no almoço do dia 20, soubesse que JK queria ir de carro para o Rio sob o argumento da "discrição". Carlos Murilo, o amigo que o hospedou em Brasília na noite de 19 de agosto, eventualmente teria ouvido de Juscelino que de São Paulo iria para o Rio pela Via Dutra. Mas o motivo real ninguém sabia!

O motorista do Alfa Romeo que Bloch deixou à disposição de JK seguiu para a Casa da Manchete, onde aguardou os minutos necessários para Juscelino pegar sua pequena bagagem. Já no automóvel, ele ordenou ao motorista que o levasse para um posto de gasolina no km 2 da Via Dutra. Em princípio, o destino seria o aeroporto de Congonhas. Geraldo Ribeiro, amigo e motorista de Juscelino há boas décadas, já estava de prontidão no seu Opala aguardando "o chefe" no posto de gasolina, quando o Alfa Romeo estacionou ao lado. Geraldo morava em Belo Horizonte com a sua família, de onde se deslocava para atender o ex-presidente em situações específicas. Para agendar aquele encontro incomum num posto de gasolina, Juscelino teria telefonado para Geraldo entre a tarde do dia 20 — quando já se encontrava na Casa da Manchete, em São Paulo — e ao longo do dia 21.

A escalada da morte

Já na estrada em direção ao Rio, sentado no banco traseiro do Opala, sempre com livros e papéis nas mãos, JK ordenou a Geraldo que observasse a placa que indicava o Hotel Fazenda Villa-Forte, na altura do km 165, e seguisse em direção a ele. Geraldo ainda não sabia dessa escala no caminho, mas cumpriu a ordem sem perguntas. Já no estacionamento, o brigadeiro Newton Junqueira Villa-Forte os recebeu com alegre simpatia. Depois de encaminhar Juscelino para um dos salões do hotel e Geraldo para conhecer a área externa da fazenda e fazer um lanche, Junqueira disse que teria de sair para resolver uma urgência num outro hotel que tinha na região.

Juscelino, atendendo a uma solicitação do então presidente Geisel, teria sido convidado para uma reunião reservada com dois oficiais do Exército — emissários do Palácio do Planalto — para uma reflexão com o ex-presidente sobre o processo de abertura política, já em curso. O diálogo de JK com os dois oficiais — não temos a informação exata se eram generais ou coronéis — durou pouco mais de 90 minutos. Quando percebeu o movimento de despedida, Geraldo estacionou o Opala no local adequado, Juscelino voltou ao banco traseiro e partiram. Ainda no estacionamento, Geraldo Ribeiro notou algo estranho no carro. Já no portão de saída, indagou ao vigia se alguém havia mexido no Opala. Ele negou de forma sucinta. O rápido diálogo foi confirmado, 72 horas depois, por Carlos Heitor Cony, que teria ido ao hotel. Lá encontrou um estabelecimento abandonado e, como único funcionário, o mesmo vigia que falou com o motorista Geraldo Ribeiro. 

O brigadeiro Junqueira Villa-Forte, quando na ativa, havia sido um dos fundadores, ao lado de Golbery do Couto e Silva, do Serviço Nacional de Informações (SNI). Naquele mesmo hotel-fazenda — propriedade que estava na família do brigadeiro desde o século XIX —, ele costumava receber militares, agentes do SNI e do sistema de segurança dos governos da ditadura. O general Figueiredo, então ministro-chefe do SNI, e Golbery do Couto e Silva, então ministro-chefe do Gabinete Civil, não raro ali se hospedavam e reviam o amigo Junqueira. Na região, o hotel era conhecido como o "Hotel do SNI". 

 (4A) 23-08-1976. Crédito Arquivo CB - DA Press. Funeral do ex-Presidente da República, Juscelino Kubitschek
No cortejo, candangos cantaram Peixo Vivo, música preferida de JK, e o Hino Nacional (foto: Arquivo CB - DA Press)
 

O Opala dirigido por Geraldo Ribeiro deixou o hotel-fazenda e percorreu entre dois e três quilômetros na Via Dutra. A tarde começava a cair. Os relógios marcavam entre 17h45 e 18h. Ribeiro estava ultrapassando um ônibus da viação Cometa quando o Opala se mostrou desgovernado e, em zigue-zague, invadiu o canteiro central e foi de encontro, na pista contrária, a um caminhão com 30 toneladas de gesso, conduzido por Ladislau Borges. Geraldo e JK morreram na hora. Uma punhalada florentina atingia o coração da Pátria! 

O relatório final

Em 29 de maio de 2026, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, vinculada ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, aprovou o relatório que conclui que o ex-presidente Juscelino Kubitschek foi assassinado por agentes da ditadura militar. O parecer, assinado pela historiadora Maria Cecília Adão, teve como base os documentos reunidos pela Comissão Estadual da Verdade de São Paulo "Rubens Paiva" e pela Comissão Municipal da Verdade "Vladimir Herzog". A alentada documentação teve o suporte de pesquisadores da USP e da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Concluída em 2016, nos 40 anos da morte de JK, a densa investigação foi reunida em um livro — O Assassinato de JK pela ditadura: Documentos Oficiais / Editora LiberArts — publicado em 2018. Agora, em 2026, o jornalista Alex Solnik lançou, pela Editora Matrix, O Código 12 — As Surpreendentes Revelações sobre o Assassinato de JK pela ditadura militar. Constam dessas duas publicações as informações mais sensíveis deste artigo.

Quando o avião da Varig pousou no Aeroporto de Brasília naquela manhã sombria do dia 23 de agosto de 1976, com a melancolia a bordo, uma multidão já se aglomerava no local. Com o corpo de JK, o carro fúnebre iniciou seu trajeto do aeroporto para a Catedral. Na mesma direção, a multidão se apoderou do veículo, que se obrigou a fazer o percurso seguindo o passo lento e dolorido da tristeza. A cena tocante do gigantesco cortejo coube aos jovens motociclistas, com seus cabelos longos e jaquetas escuras, que, seguindo a primeira moto com uma coroa de flores, portavam uma gigantesca faixa na qual se lia: "Ao Querido Juscelino a Nossa Eterna Gratidão". E, como batedores da saudade, num réquiem de preces e lágrimas, revestiram de majestade o carinho da cidade, no desfile do adeus ao seu fundador. 

*Jornalista, mestre em história pela Universidade Paris-Sorbonne

 

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postado em 22/08/2026 05:00
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