Morreu, ontem, aos 91 anos, Maria Elisa Costa, arquiteta e urbanista e filha de Lucio Costa. O pai foi responsável pelo projeto urbanístico que deu origem a Brasília. Nascida no Rio de Janeiro, em 1934, Maia Elisa seguiu os passos profissionais paternos, mas construiu uma trajetória própria na arquitetura, no urbanismo e na preservação do patrimônio histórico. Ela deixa a filha, Julieta Costa, e as netas Clara, Julia e Sofia, e os bisnetos Benjamin e Zoe. Informações sobre o velório ainda não foram divulgadas até o fechamento desta edição.
Ao Correio, Julieta contou que a mãe faleceu em casa, de mãos dadas com ela, enquanto cantava uma música para confortá-la. Ao mencionar a história de Maria Elisa, ela diz que a Maria Elisa protegeu Brasília com unhas e dentes durante toda a vida. "Defendeu o Plano Piloto com garra, coragem e energia. A cidade ficou órfã".
Como mãe e avó, Maria Elisa liderava a família. "Nós somos uma espécie de matriarcado. Meu pai morreu muito cedo. Foi uma mãe maravilhosa", ressaltou emocionada.
Segundo o jornalista e ex-secretário de Cultura do DF Silvestre Gorgulho, foi Maria Elisa quem entrou no prédio para protocolar o projeto urbanístico do pai.
"São muitos os motivos para lembrar e homenagear ela. Primeiro porque viveu Brasília desde a placenta. Ela que entregou o projeto urbanístico do Plano Piloto, dia 11 de março de 1957, no Ministério da Educação e Saúde (MEC) para participar do concurso. Foi com seu pai, que ficou no carro esperando que ela trouxesse o protocolo de entrega", afirmou Gorgulho.
"Admiro ela por ser, evidentemente, filha do inventor de Brasília, por ser arquiteta e ter sempre acompanhado profissionalmente a construção e o desenvolvimento da nova capital", completou.
Para Silvestre Gorgulho, Maria Elisa foi, até o fim, uma "Guardiã da 'Casa Lucio Costa'" e uma "defensora incondicional do projeto do Plano Piloto elaborado pelo pai", ressaltou o jornalista, completando: "É exemplo de cordialidade, de respeito e símbolo de amor a Brasília. A realidade pode ter sido dura, mas os sonhos e as esperanças fazem da realidade uma doce lembrança. Obrigado, Maria Elisa. Brasília chora sua passagem, mas agradece sua história".
A governadora do DF, Celina Leão, decretou três dias de luto pela morte da arquiteta. A governadora destacou a contribuição decisiva para a manutenção das diretrizes que tornaram a cidade um bem protegido mundialmente. "Maria Elisa Costa é um ícone e um símbolo de Brasília. Deixa um enorme legado para a preservação de nossa identidade arquitetônica e a luta pela preservação de Brasília como patrimônio cultural da humanidade. Minha solidariedade aos familiares e amigos de Maria Elisa", declarou.
Rodrigo Rollemberg contou ao Correio que recebeu a notícia da morte da tia com muita tristeza. "Ela era uma pessoa apaixonada por Brasília. Guardiã da obra de Lucio Costa, seu pai", disse. O falecido marido de Maria Elisa, Eduardo Sobral, era irmão da mãe do ex-governador, Teresa Rollemberg. "Comento com a filha dela que a chamava de tia, devido à consideração. Muito triste pela partida, mas agradecido por tudo que ela fez por nós".
A presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-DF), Luiza Coelho, pesquisa há cerca de dez anos mulheres arquitetas de todo o Brasil. Ela conta que "é impossível não esbarrar no nome de Maria Elisa" durante os estudos.
O arquiteto Thiago Andrade, conviveu com Maria Elisa quando ela presidia o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em 2003. Ele comentou que ela possuía o seu próprio brilho, tendo assinado importantes construções na capital. "Ela desenhou várias partes da cidade, como o conjunto do Conic e o Setor de Autarquias Norte".
Em 2015, Maria Elisa foi entrevistada pelo Correio Braziliense. Na ocasião, despediu-se dizendo que, com a posse do "crachá do Lucio", sentia-se muitíssimo à vontade para criticar quem quer que seja em nome da preservação da capital.
Perfil
Maria Elisa formou-se em arquitetura em 1958, pela Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). No ano seguinte, passou a integrar a Divisão de Urbanismo do Departamento de Urbanismo e Arquitetura da Novacap, onde trabalhou sob a direção do próprio pai, Lúcio Costa, e de Augusto Guimarães Filho.
A relação com Brasília permaneceu ao longo de sua carreira. Entre 1986 e 1987, Maria Elisa foi assessora do secretário de Viação e Obras do Governo do Distrito Federal. Também integrou o Conselho de Arquitetura, Urbanismo e Meio Ambiente (Cauma), entre 1986 e 1992, e o Conselho Técnico de Preservação de Brasília (CTPB), entre 1999 e 2001.
Maria Elisa integrou também a Comissão Especial de Brasília do Departamento de Proteção do Iphan, entre 1996 e 1998. Em 2003 e 2004, presidiu o próprio Iphan.
Entre as contribuições documentadas pela arquiteta estão a fonte da Torre de TV e a Praça dos Pedestres, na Plataforma da Rodoviária do Plano Piloto, locais que passaram a fazer parte da rotina de milhares de brasilienses.
Em 2014, Maria Elisa lançou um livro que conta hábitos do pai e episódios da inauguração de Brasília, intitulado como "Lúcio Costa, inventor de Brasília. Em entrevista ao jornal na época, ela resumiu o pai: "O homem mais livre que conheci na minha vida. Tinha clareza em relação aos limites, o pé no chão, mas fez voos altos. Característica ideal para fazer Brasília".
