Luto

Maria Elisa Costa: um legado na defesa de Brasília

Filha de Lúcio Costa, arquiteta dedicou parte da trajetória à preservação do Plano Piloto e à valorização da capital

Maria Elisa na redação do Correio em 2014
    
     -  (crédito: Paula Rafiza/Esp.CB/D.A Press)
Maria Elisa na redação do Correio em 2014 - (crédito: Paula Rafiza/Esp.CB/D.A Press)

Morreu aos 91 anos Maria Elisa Costa, filha do arquiteto e urbanista Lúcio Costa, responsável pelo projeto do Plano Piloto de Brasília. Arquiteta e urbanista, Maria Elisa construiu uma trajetória própria e se tornou uma das principais defensoras da preservação da capital federal. Ao longo dos anos, concedeu entrevistas ao Correio em que falou sobre a criação de Brasília, sobre o pai e os desafios para manter as características originais da cidade. 

Em março de 2007, quando Brasília se aproximava dos 50 anos do projeto de Lúcio Costa, Maria Elisa contou ao Correio detalhes sobre a criação do Plano Piloto. Ela relembrou o momento em que, ainda jovem estudante de arquitetura, foi chamada pelo pai para conhecer o desenho da nova capital. Lúcio trabalhava sozinho no apartamento da família, no Rio de Janeiro, e mostrou à filha um rascunho feito à mão, antes mesmo da apresentação oficial do projeto.

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“O desenho ainda não era o apresentado, era um rascunho na mesma escala, em papel opaco, feito à mão livre e a lápis, avivado com toques de lápis de cor, e algumas anotações manuscritas. Esse precioso desenho até hoje não apareceu no meio da papelada do nosso acervo, mas ainda não perdi a esperança de encontrá-lo”, contou à época. 

“À medida que me explicava a cidade, ia mostrando as coisas no desenho. Quando terminou, me lembro que a camisa dele estava encharcada de suor, parte pelo calor e parte pela emoção que deve ter sentido ao expor verbalmente, pela primeira vez, a sua criação a outra pessoa”, também relembrou. 

Na mesma entrevista, ela defendeu Brasília das críticas recorrentes à arquitetura da cidade. Questionada sobre a ideia de que a capital seria fria ou pouco convidativa ao convívio, Maria Elisa rejeitou a visão e contou que chegou a levar o pai para Brasília, em 1984, para que ele próprio percebesse como a cidade era vivida pelos moradores. 

“Eu acho Brasília uma cidade que propicia, e convida ao convívio entre as pessoas. E foi por isso que, para que meu pai parasse de sofrer com esse tipo de comentário, o convenci de ir ver com os próprios olhos se Brasília era uma cidade fria ou não”. 

Sete anos depois, em março de 2014, Maria Elisa voltou ao Correio para falar sobre o livro que escreveu: Lucio Costa, inventor de Brasília, publicação em que reuniu lembranças pessoais e hábitos simples do pai. Aos 79 anos, ela procurava apresentar ao público não apenas o arquiteto responsável pelo Plano Piloto, mas também o homem que conheceu dentro de casa. 

Na ocasião, resumiu Lúcio Costa em uma frase que também ajuda a compreender a relação entre pai, arquitetura e Brasília: “O homem mais livre que conheci na minha vida. Tinha clareza em relação aos limites, o pé no chão, mas fez voos altos. Característica ideal para fazer Brasília”. 

Maria Elisa também relembrou a própria relação com a cidade. Ainda jovem, ajudou o pai a preparar a apresentação do Plano Piloto e contou que só compreendeu a dimensão da obra anos depois, ao observar Brasília já construída e ocupada. “Vi tudo isso num pedaço de papel, agora, estou dentro dele. Fiquei 30 minutos sem conseguir levantar do chão”, disse ao recordar um show do Roberto Carlos na Esplanada dos Ministérios, que a fez perceber a dimensão da criação do pai.

Já em junho de 2015, Maria Elisa apareceu novamente nas páginas do Correio, desta vez não apenas como filha de Lúcio Costa, mas como uma voz ativa na defesa do patrimônio de Brasília. Na entrevista, criticou propostas de ocupação e expansão que poderiam descaracterizar o Plano Piloto e defendeu a criação de uma comissão técnica permanente e com poder de veto para proteger a área tombada. A entrevista contou com a participação da diretora de redação, Ana Dubeux.

“Todo mundo é guloso, todo mundo quer meter a mão em Brasília”, afirmou. Para Maria Elisa, a capital estava diante de um momento decisivo para impedir que a área original fosse cercada por novas construções. “Está no momento limite para se impedir que isso aconteça”. 

A defesa da cidade, para Maria Elisa, não significava ignorar os problemas de uma capital que cresceu e se transformou ao longo de décadas. Ela reconhecia o desafio de conciliar a preservação do centro histórico com as necessidades de uma cidade de milhões de habitantes. “De um lado, há uma cidade com quase 3 milhões de habitantes e um centro histórico que tem que ser preservado. São coisas opostas e indissociáveis ao mesmo tempo”, disse.

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postado em 25/08/2026 21:03 / atualizado em 25/08/2026 21:52
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