Justiça

O assassinato de um adolescente por trás da "perseguição política" alegada por Xavier

Vinte e dois anos se passaram desde o homicídio de Ewerton Ferreira, 16 anos. A investigação do crime levou ao nome do então deputado Carlos Xavier. Nesta quarta-feira (23/9), ele foi condenado, pela segunda vez, a 14 anos e 3 meses de prisão

 23/09/2026 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF - Fórum do Recanto das Emas. Julgamento do ex-deputado distrital Carlos Xavier acusado de mandante de um assassinato. -  (crédito:  Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
23/09/2026 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF - Fórum do Recanto das Emas. Julgamento do ex-deputado distrital Carlos Xavier acusado de mandante de um assassinato. - (crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

“Te perseguirão por um caminho, mas por sete caminhos fugiria de ti.” A passagem bíblica de Deuteronômio 28 foi escolhida por Carlos Xavier para falar aos seus 20 mil seguidores do Instagram. Nesta quarta-feira (23/9), pouco mais de cinco horas depois de receber uma sentença de 14 anos e três meses de prisão por homicídio, o candidato a deputado distrital publicou a capa de um jornal montada por inteligência artificial. Em letras enormes, sobre fundo vermelho, a manchete anunciava: “Perseguição política.”

A história por trás da acusação de perseguição remonta a um assassinato cometido há 22 anos. Ewerton Ferreira cresceu em um lar cristão. Frequentava com os pais, Cirlene Ribeiro da Rocha e Osmar Rocha, uma pequena igreja evangélica de Samambaia. Carlos Xavier e a então esposa, Maria Lúcia Araújo Xavier, congregavam no mesmo templo e participavam assiduamente dos cultos e encontros.

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  •  23/09/2026 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF - Fórum do Recanto das Emas. Julgamento do ex-deputado distrital Carlos Xavier acusado de mandante de um assassinato. Pai da vítima.
    23/09/2026 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF - Fórum do Recanto das Emas. Julgamento do ex-deputado distrital Carlos Xavier acusado de mandante de um assassinato. Pai da vítima. Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
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    23/09/2026 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF - Fórum do Recanto das Emas. Julgamento do ex-deputado distrital Carlos Xavier acusado de mandante de um assassinato. Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
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Fora do púlpito, contudo, segundo os autos do processo, circulava pelos corredores da igreja o boato de que Maria mantinha relações com adolescentes da congregação. Entre eles, estaria Ewerton.

Durante a sustentação oral no Tribunal do Júri, no Fórum Desembargador Valtênio Mendes Cardoso, no Recanto das Emas, o promotor Gilberto Teles afirmou que Maria aliciava menores para fins sexuais e para o uso de drogas.

No banco dos réus pela segunda vez, Xavier estendeu a fala por mais de uma hora. Se limitou a responder aos questionamentos do juiz Valter Bueno e dos oito advogados de defesa. Recusou-se a prestar esclarecimentos aos promotores Gilberto Teles e Raoni Maciel. “Vocês (promotores) deveriam fazer Justiça, mas eu sei bem aonde querem chegar”, atacou.

Xavier alegou inocência e perplexidade ao descobrir a traição da ex-esposa, em 2004. Contou que, numa manhã de sábado, foi a uma padaria de Samambaia quando uma mulher se aproximou e disse ter um assunto sério de interesse dele. À época, Xavier ocupava uma cadeira na Câmara Legislativa (CLDF) e integrava a base do governo. Imaginou que se tratava de política.

“Passei na casa dessa moça e ela contou que minha esposa mantinha um caso com Renan e que os dois estariam usando drogas”, disse em Plenário. Renan era amigo de Ewerton e participava do grupo de jovens da igreja.

Oito meses depois do escândalo e do consequente divórcio de Carlos e Maria, a comunidade religiosa seria novamente abalada. Dessa vez, por um assassinato. Em 8 de março de 2004, atrás de uma parada de ônibus do Recanto das Emas, Ewerton foi morto com dois tiros na cabeça. O corpo foi encontrado sem roupas e sem os pertences.

O delegado aposentado Mário Gomes chefiava a 27ª Delegacia de Polícia à época e cogitou, inicialmente, a hipótese de latrocínio. A ausência das roupas e dos objetos apontava nessa direção. Até que o investigador viu as perfurações provocadas pelos projéteis. “Quem é policial sabe que um tiro na nuca não é praxe num latrocínio”, disse ele diante dos sete jurados do Conselho de Sentença.

Pressão

Em 60 dias de investigação, os policiais colheram dezenas de depoimentos, analisaram interceptações telefônicas e seguiram as pistas enquanto enfrentavam a pressão corporativista que cercava o caso — interferência essa que só apareceu após o nome de Xavier entrar no radar dos agentes. Em um novo depoimento, Leandro, um dos presos, atribuiu ao deputado a ordem para a execução. Acrescentou ter recebido R$ 15 mil para o “serviço”.

Junto a Mário Gomes, a delegada aposentada Lúcia Antônia de Moraes coordenou as investigações. Enquanto Mário tentava frear as pressões, Lúcia avançava para o indiciamento de Xavier.

“Não achava que um deputado deixaria levar-se por uma circunstância dessa. Não passava pela minha cabeça. Quando chegamos à conclusão da autoria, me perguntaram se eu tinha certeza daquilo e disseram que eu poderia perder o cargo. Mas sou delegada. Fiz o que era correto diante das provas colhidas”, afirmou no tribunal.

Outra peça-chave da investigação foi o relato dos pais da vítima. Eles narraram as ameaças que teriam sido feitas por Xavier dias antes do homicídio. Segundo Osmar Rocha, pai de Ewerton, o deputado disse que "era muito perigoso mexer com mulher casada".

Enraivecido, o então chefe da PCDF, Laerte Bessa, telefonou para Mário Gomes. Queria saber por que não havia sido avisado anteriormente sobre o indiciamento de Xavier. Frisou que o deputado integrava a base do governo. Dias depois, Mário perdeu a chefia da delegacia.

Laerte Bessa testemunhou em Plenário e confirmou que, à época, promoveu uma espécie de comissão entre delegados para discutir possíveis erros na investigação. A conclusão, segundo ele, baseou-se no cruzamento de dados telefônicos. “Não identificamos nenhum telefonema entre os criminosos e o autor (Xavier). Estávamos diante de um latrocínio. Estive com Mário Gomes e pedi para ele analisar melhor o caso”, ressaltou.

Apesar do questionamento, as apurações concluíram que houve homicídio. Para a acusação, a motivação era vingança.

O julgamento

Nas cadeiras à esquerda no Plenário, parentes e amigos de Xavier se aglomeraram. Alguns vestiam camisetas verdes, em tom de protesto. À direita, a família de Ewerton acompanhava o julgamento e temia absolvição. O pai do adolescente deixou a sala aos prantos durante a fala de Xavier. “Mentiroso”, dizia o idoso.

Xavier sustentou a própria inocência. Disse que políticos, delegados e agentes da PCDF se uniram para incriminá-lo. A tese era a mesma estampada na imagem produzida por IA publicada no Instagram horas depois da sentença. 

Em abril de 2014, o ex-deputado já havia sido condenado pelo Tribunal do Júri de Samambaia a 15 anos de reclusão. A decisão foi mantida em todas as instâncias de recursos do julgamento e transitou em julgado em dezembro de 2021. Em setembro de 2024, a Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT) julgou procedente a revisão criminal proposta pela defesa, anulando o veredicto e determinando que o acusado fosse submetido a novo julgamento por outro Conselho de Sentença.

Os novos jurados examinaram todas as provas, inclusive as que a defesa trouxe na revisão criminal, e chegaram à mesma conclusão do primeiro julgamento: de que Xavier é responsável pela morte de Ewerton.

Candidato a distrital pelo partido Democracia Cristã (DC), o réu não saiu algemado do Plenário. Está protegido pelo artigo 236 do Código Eleitoral, que impede a prisão de candidatos nos 15 dias que antecedem as eleições.

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postado em 24/09/2026 18:32 / atualizado em 24/09/2026 18:54
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