
Julgamento do ex-deputado distrital Carlos Xavier acusado de mandante de um assassinato - (crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Há 22 anos, a Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) esteve à frente de uma das investigações mais árduas de 2004. As diligências do assassinato de Ewerton Ferreira, 16 anos, levaram à autoria do então deputado distrital Carlos Xavier, acusado de ser o mandante do homicídio. Mais de duas décadas depois, ele senta no banco dos réus. O júri começou às 9h desta quarta-feira (23/9) e se estende até à noite. No turno vespertino, os sete jurados do Conselho de Sentença ouviram testemunhas-chave do processo: três delegados e um chefe da Seção de Investigação de Crimes Violentos (Sicvio) na época.
A delegada aposentada Lúcia Antônia de Moraes coordenou as investigações. Em um depoimento de mais de uma hora, relatou ter sofrido, ao longo de 60 dias, pressão da própria corporação para não indiciar Carlos Xavier. “Me perguntaram se eu tinha certeza e que seria muito difícil por ele ser deputado. Mas eu sou delegada de polícia. Fiz o que era correto perante as provas colhidas”, afirmou ela, em Plenário.
Do começo das diligências, Lúcia acreditava que jamais um parlamentar estivesse envolvido em um crime de homicídio. A “visão romântica” para a classe política, como define ela, deixou-a espantada. “Não achava que um deputado deixaria levar-se por uma circunstância dessa. Não passava pela minha cabeça.”
No inquérito final, a motivação do crime cravou em uma possível vingança de Carlos Xavier perante as suspeitas de que a esposa dele estaria mantendo uma relação extraconjugal com Ewerton. A delegada relembra que, durante as apurações, soube que, antes do assassinato, um jovem, frequentador da mesma igreja de Carlos e da esposa, gritou nos corredores afirmando que Ewerton estaria “pegando” a mulher.
Revoltado, Carlos teria contratado um rapaz por nome de Leandro. Ao ser preso, Leandro disse, na delegacia, ter recebido R$ 15 mil pelo crime, afirmou o delegado aposentado Mário Gomes no júri. Ele também esteve à frente das investigações na época. Ainda em interrogatório, Leandro delatou o esconderijo da arma. Ela estava guardada no armário de uma academia do Riacho Fundo.
Mário, atualmente advogado, suspeitou da execução desde o começo. “Quem é policial sabe que um tiro na nuca não é de praxe de latrocínio. O que nós apuramos é que houve ameaças anteriores por parte do deputado à família da vítima. Muitas testemunhas foram ouvidas e esse relacionamento da mulher com outros menores, incluindo a vítima, ficou comprovado”, detalhou.
Interferência
Laerte Bessa chefiava a PCDF na época. Afirmou, em plenário, ter convocado delegados para pontuar que se trataria de latrocínio. A constatação, segundo ele, baseou-se em um cruzamento de dados telefônicos. “Não identificamos nenhum telefonema entre os criminosos e o autor (Xavier).”
“Estive com Mário Gomes e pedi para ele analisar melhor o caso”, ressaltou. Apesar do adendo, as investigações cravaram em homicídio. Até as 18h54 desta quarta-feira, o júri seguia com o depoimento de Mário Gomes. Não há previsão para o término.
Defesa
O advogado Sérgio Fonseca, que defende o ex-deputado Carlos Xavier, conversou mais cedo com a imprensa. Ele destacou que o júri anterior foi anulado por unanimidade — com 11 votos a zero na Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJDFT) —, respaldado por novas provas apresentadas anos após a condenação e que contaram com parecer favorável do próprio Ministério Público.
Para a defesa, a oportunidade de apresentar esses elementos aos jurados revelará uma história surpreendente e pavimentará o caminho para a absolvição. "Os jurados que acompanharem o plenário até o final se surpreenderão com os desdobramentos trazidos à tona no processo", completou.
Saiba Mais
Por Darcianne Diogo
postado em 23/09/2026 19:24 / atualizado em 23/09/2026 20:32
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