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'O debate é essencial para o exercício da democracia', diz advogada

A especialista Anne Cabral repercutiu o debate entre candidatos ao Governo do Distrito Federal promovido pelo Correio. Para ela, os seis participantes apresentaram linhas de argumentação e críticas razoáveis

A advogada eleitoral, professora e palestrante Anne Cabral avaliou que o debate do Correio com candidatos ao Palácio do Buriti foi saudável e que foram discutidos temas relevantes para a população do DF. Nessa quarta-feira (2/9), em entrevista ao CB.Poder — parceria entre o Correio Braziliense e a TV Brasília — a especialista, que participou da comissão julgadora, falou sobre a importância desses eventos e sobre a dificuldade em estabelecer diálogos na internet. Ela disse que a rádio e a imprensa tradicional, em tempos de rede social e polarização, ainda ocupam papel central como fonte de informação e para ampliar discussões. Aos jornalistas Carlos Alexandre de Souza e Denise Rothenburg, a convidada também comentou o direito de resposta concedido a Ricardo Capelli (PSB). Confira, a seguir, os principais pontos. 

Qual balanço a senhora faz do comportamento dos candidatos no debate? Qual a importância de ter eventos como esse? 

Avalio que o debate foi um sucesso porque foi possível ver as linhas de argumentação. Foram feitas críticas razoáveis. Vimos que Celina Leão (PP), candidata à reeleição, foi questionada por um conjunto de outros candidatos, o que é natural, já que ela está no poder. Os participantes puderam falar, e as regras estavam bem expostas. Esses debates são fundamentais para o exercício democrático. A gente vê que o percentual da população que é indecisa e que deixa para decidir o voto depois do começo do processo eleitoral é muito grande. Há uma gama de candidatos. Então, o evento ajuda o eleitor indeciso a formar sua opinião. Além disso, foi um debate muito saudável. Só teve um requerimento de direito de resposta, que foi concedido. 

Hoje, a campanha eleitoral ocorre muito nas redes sociais. Considera que está havendo um desvirtuamento do debate, com discussões que desviam de problemas reais? 

Acredito que sim. Na internet, todos nós, que somos eleitores, vamos para a arena. Você vai afunilando muitos vieses de opinião pública, e os algoritmos de redes sociais estimulam isso. Em um viés religioso, por exemplo, você vai discutir só questões comportamentais religiosas. Mas isso não é responsabilidade somente dos candidatos. Trata-se de uma mudança de paradigma na forma como a sociedade está se comunicando, que vai impondo esse nível de afunilamento e, então, as pessoas só escutam aquilo da sua bolha e vão se tornando mais intolerantes. Acham que só existe aquilo que ela enxerga dentro do micro-universo em que ela vive. 

Como o eleitor pode sair dessa bolha para se informar? 

Ainda acredito no horário eleitoral gratuito e no poder da radiodifusão normal para além da internet. Se a gente for pensar oito anos atrás, era muito mais central o tempo de TV dos candidatos. Ele era muito mais disputado. Isso está relacionado ao papel da internet nas eleições e na comunicação. Estou falando de um país com cinco mil municípios. As pessoas escutam rádio.

O horário eleitoral não é muito plastificado? 

É verdade. A imprensa é fundamental, porque traz uma visão do todo, junto com o horário eleitoral gratuito. Ando muito em interiores, por conta da advocacia que exerço. Noto que o poder do rádio ainda é muito forte, mais ainda do que o da TV. Ele tem o papel, nem de elevar o nível do debate, mas de escala para chegar, pelo menos, a um debate de questões centrais. Na internet, os debates sempre vão afunilar, e, para afunilar, eles vão precisar exagerar naquele tópico. Dessa forma, as pessoas ficam sem a visão do todo. Acredito que a imprensa tradicional tem um papel fundamental de pautar os grandes temas.

Celina Leão e Ricardo Capelli (PSB) trocaram acusações na discussão sobre mobilidade urbana. A governadora chegou a chamar Capelli de "bobo da corte do 8 de Janeiro", o que rendeu ao candidato um direito de resposta. Qual avaliação a senhora faz desse momento? 

A gente entendeu por consenso que era, sim, cabível o direito de resposta. A questão de fundo foi que ela extrapolou o limite da crítica, que é permitida, e partiu para a ofensa pessoal ao falar em "bobo da corte". O direito de resposta é um direito constitucional e, obviamente, para as eleições, ele tem um rito diferente, porque ele precisa ser rápido. Tanto é que, nas regras do debate, só tínhamos três minutos para decidir. Esse tipo de ofensa vai para a esfera pessoal, que pode trazer algum prejuízo à candidatura. Então, é justo que a pessoa tenha tempo para se pronunciar. 

Como a população pode se proteger de informações falsas, tendo em vista que, às vezes, é difícil essas situações chegarem à Justiça Eleitoral? 

Preciso reconhecer que a Justiça Eleitoral tem cumprido um brilhante papel no combate à desinformação e à fake news. Ela firmou acordos de cooperação com as plataformas. Há também a resolução que traz uma corresponsabilização das plataformas que não retirarem os posts a tempo. Comparada à eleição passada, a resposta das plataformas em relação à retirada de publicações ofensivas está muito mais célebre. Ainda há, entretanto, um caminho longo a percorrer. A questão da desinformação é um problema da atualidade, não só das eleições. Precisamos convencer a população de que é preciso checar o que recebe.

*Estagiária sob a supervisão de Tharsila Prates

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