Há um mês, Ana Gomes, 46 anos, sonhou com a morte de uma das seis irmãs. Pensou que fosse um devaneio. Em uma calçada, intercalava o choro com a feição séria. "Não é minha irmã que está deitada ali não, né?", questionava. A irmã era Flávia Gomes da Silva, 36. Ela foi assassinada a facadas pelo companheiro, o vigilante Anderson Gonçalves, na frente da filha do casal, de 4 anos.
Pouco antes das 19h de ontem, Flávia e Anderson discutiram dentro de casa. A residência fica a duas ruas do local onde ocorreu o feminicídio. Não era a primeira briga, relataram os familiares ao Correio. Desde que se conheceram, há mais de nove anos, a relação foi marcada por agressões psicológicas e físicas, além de perseguições. "Ele não deixava a gente entrar na casa dela (Flávia), controlava todos os passos dela e a perseguia. Uma vez ela me chamou para vir comer um bolo com ela, mas eu nunca me dei bem com esse cara", desabafou Ana.
Depois da discussão de ontem, Flávia pegou a filha caçula e caminhou até um supermercado próximo. Fez compras e retornava para a casa com a menina no colo. Testemunhas narraram ao Correio que, na volta, Anderson a cercou, sacou uma faca e esfaqueou a vítima, que caiu ao chão com as sacolas de compras. Antes de desfalecer, mandou a filha correr. "(Depois do crime) Ele subiu a rua andando normalmente. Pegou o carro na porta da casa dele e fugiu", relatou uma pessoa à reportagem.
O Correio apurou que o carro do autor foi localizado em uma região erma do Paranoá. Até o fechamento desta reportagem, o paradeiro dele era incerto.
Histórico
Anderson é vigilante e prestava serviço na Ermida Dom Bosco. Irmãs da vítima afirmam que o homem escondia, no ambiente profissional, a personalidade violenta e agressiva. No serviço, era profissional exemplar: evitava atrasos e sustentava um perfil simpático. "Quando chegava em casa, era um monstro", desabafou Angeliana Gomes, outra irmã de Flávia.
Na porta da casa da vítima, as seis irmãs se reuniram aos prantos. Com sentimento de impotência, afirmavam ter feito o que podiam para tentar tirá-la daquela relação. Lamentavam que, apesar dos recorrentes episódios de violência, Flávia nunca registrou boletim de ocorrência contra o autor e se preocupava com a reputação do companheiro no local de trabalho dele. Segundo a irmã, ela tinha dependência emocional e também se preocupava com a reputação do companheiro no trabalho.
Em 2023, relembra Angeliana, a família festejava na casa de Flávia, quando Anderson entrou na residência e agrediu a companheira na frente de todos. "Desde o começo sabíamos que o pior estava por vir. Esse homem é um covarde. Aquela foi a primeira vez que ele cometeu algo contra ela na nossa frente."
Ana Gomes relata outro episódio. Conta que, um dia, Flávia telefonou pedindo ajuda, pois Anderson estaria cercando-a no trabalho em um posto de gasolina da Asa Norte. Há quatro meses, Flávia conseguiu outra oportunidade de emprego no setor de serviços gerais no Edifício Vitória, no Setor de Autarquias Sul. "Minha irmã era uma mulher trabalhadora. Era de casa para o trabalho e só pensava em dar o melhor para os filhos. Tinha saído do emprego para ter mais tempo para a filha menor", detalhou.
Flávia deixa três filhos. Dois deles, de 16 e 21 anos, são frutos de um relacionamento anterior. A caçula, de 4 anos, é filha do suspeito. A vítima ainda cuidava de um irmão deficiente físico. Até a noite de ontem, policiais civis e militares montaram uma força-tarefa de buscas pelo autor. O caso é investigado como feminicídio.
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