CB.SAÚDE

Fumo passivo afeta o cérebro e o sistema cardiovascular

A pneumologista Aída Alvim destaca que 1,6 milhão de pessoas morrem por ano no mundo devido à exposição à fumaça do cigarro. O contato também pode provocar problemas respiratórios em crianças, como bronquite e pneumonia

A pneumologista Aída Alvim comentou um estudo divulgado pela revista Lancet, que aponta que o fumo passivo mata cerca de 1,6 milhão de pessoas por ano no mundo. Durante a edição desta quinta-feira (17/9) do CB.Saúde — parceria entre o Correio Braziliense e a TV Brasília —, a especialista explicou às jornalistas Carmen Souza e Sibele Negromonte que parte dessas mortes está relacionada a doenças cardiovasculares, uma vez que o contato com a fumaça de terceiros também pode afetar o coração e o cérebro.

De que forma o coração é afetado pelo fumo passivo?

A nicotina tem efeitos não somente sobre o pulmão, mas também no sistema cardiovascular e no cérebro. O que se viu nessa pesquisa é que aquelas pessoas expostas à fumaça do cigarro de terceiros e não do próprio, eram acometidas por doenças ligadas à nicotina e também àquela fumaça não filtrada pelo pulmão de quem fumou. Quem fuma inala a fumaça através de um filtro, mas a pessoa próxima ao tabagista não tem esse filtro e fica exposta às mesmas substâncias que os fumantes e têm grande influência sobre o coração e cérebro. Com isso, aumentam os casos de infarto, angina, derrame e outras doenças que não se imagina como consequência do tabagismo passivo.

Qual o efeito disso em uma criança?

A consequência começa intraútero. As mães que são tabagistas passivas têm maior chance de ter um bebê pequeno para a idade gestacional. Essas crianças após nascidas quando expostas ao tabagismo, seja da mãe ou do pai, têm maior chance de serem asmáticas ou de terem infecções respiratórias, como bronquite, pneumonia, sinusite ou otite média. Por não relacionar essas condições, as mães nem comentam com o médico, que não sabe que a criança é fumante passiva.

A exposição à fumaça dos cigarros eletrônicos também é perigosa?

Sim. É preciso dizer que também existe exposição passiva. Estudos mostram que nas crianças expostas aos vapes dos pais é possível detectar nicotina. Precisamos prestar atenção nisso porque pode, sim, causar problemas respiratórios nas crianças.

Por que o cigarro eletrônico, que surgiu como uma alternativa ao convencional, faz mal?

Ele surgiu com o sentido de auxiliar na cessação do tabagismo, mas de maneira programada. Mas não tínhamos noção do que era a queima desse cigarro eletrônico e todas essas substâncias que estão presentes no vape. O cigarro convencional é, basicamente, um tipo apenas de carga de nicotina. Os cigarros eletrônicos variam essas cargas e, quanto maior a quantia, maior o prejuízo a quem está ao nosso lado que não está nem se dando conta, porque o cheirinho é bom e perfumado. O vape abre as portas para a nicotina. Temos que parar de ver como uma coisa inofensiva.

Segundo o SUS, nove em 10 casos de câncer no pulmão diagnosticados estão em fase avançada. Como é a realidade aqui no DF?

No consultório, eu me considero privilegiada, porque eu vejo muitos pacientes que querem parar de fumar. Então, eu faço o screening, uma tomografia com baixa radiação, que detecta pequenos nódulos. Na maior parte das vezes, são benignos, mas a gente acompanha. Esse acompanhamento, tanto nos tabagistas quanto nos não tabagistas, fez com que a chance de cura do câncer de pulmão aumentasse em cinco vezes, e os novos tratamentos, como a imunoterapia, também melhoraram essa perspectiva. Também diminuiu um pouco a taxa de abandono do tratamento. A quimioterapia é algo agressivo, apesar de ter a sua eficácia também. O mais importante é a prevenção.

Qual a importância da imunoterapia no tratamento do câncer de pulmão?

Ela veio como uma revolução. A imunoterapia diminui um pouco aqueles efeitos colaterais que, muitas vezes, faziam com que o paciente abandonasse o tratamento. Além de resultados melhores em determinados tipos de câncer de pulmão que são detectados e tipificados do ponto de vista imunológico, para que o paciente possa ou não ser triado para esse tipo de tratamento, que é uma outra dificuldade, às vezes, que a gente pode encontrar no SUS. Como é que eu vou fazer toda essa triagem para saber se o câncer de pulmão vai responder ou não à imunoterapia, se eu não tenho esses exames no SUS? As coisas têm que evoluir em conjunto.

Quando a pessoa para de fumar, os benefícios começam a surgir em quanto tempo?

Em um dia, a frequência cardíaca e a pressão arterial começam a normalizar sem a nicotina. Em uma semana, a capacidade respiratória começa a se recuperar. Em 10 anos, por exemplo, a chance de você ter uma neoplasia de pulmão começa a se igualar à da população geral, então, vale sempre a pena parar de fumar.

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