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"Câncer de colo é desafio político", avalia oncologista

Diretora de Planejamento do Grupo Brasileiro de Tumores Ginecológicos e presidente de honra da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, Angélica Nogueira explica que um dos motivos para o alto número de casos da doença no Brasil é a baixa adesão a exames preventivos

A diretora de Planejamento do Grupo Brasileiro de Tumores Ginecológicos e presidente de honra da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, Angélica Nogueira, é a entrevistada do CB.Saúde. Na bancada, as jornalistas Carmen Souza e Sibele Negromonte  -  (crédito:   Carlos Vieira/CB/D.A Press)
A diretora de Planejamento do Grupo Brasileiro de Tumores Ginecológicos e presidente de honra da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, Angélica Nogueira, é a entrevistada do CB.Saúde. Na bancada, as jornalistas Carmen Souza e Sibele Negromonte - (crédito: Carlos Vieira/CB/D.A Press)

Os desafios políticos para a eliminação do câncer de colo de útero, além da importância da vacinação e do diagnóstico precoce na prevenção da doença foram tema do CB Saúde — parceria do Correio Braziliense com a TV Brasília — desta quinta-feira (10/9), que recebeu a diretora de Planejamento do Grupo Brasileiro de Tumores Ginecológicos e presidente de honra da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, Angélica Nogueira. Às jornalistas Carmen Souza e Sibele Negromonte, a médica explicou que um dos motivos para a alta incidência de câncer de colo de útero no Brasil — 46 diagnósticos e 19 óbitos por dia — é a baixa adesão aos exames preventivos e de rastreio.

Há países que praticamente não têm mais diagnósticos de câncer de colo de útero. Infelizmente, o Brasil vai na contramão, com uma média de 46 diagnósticos por dia, quase dois casos por hora. Por que aqui é tão diferente? 

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O problema de o Brasil ter taxas tão altas é a não adesão aos exames de prevenção e rastreio. Enquanto o mundo adotou o Papanicolau com alta cobertura há cinco décadas, o Brasil não. E, com as novas tecnologias, como a vacinação e a chegada do HPV DNA, é fundamental que as mulheres façam uma adesão adequada, pois é uma doença que podemos eliminar.

A vacina entrou no SUS a partir de 2014, inicialmente para meninas de 9 a 11 anos, até eventualmente chegar aos meninos. Qual é a importância da vacinação nessa faixa etária? 

Ela evitaria 10% dos cânceres da mulher e 5% dos cânceres da humanidade. A idade de vacinação de 9 a 14 anos é ideal, pois é antes do início da exposição ao vírus, e quando o organismo tem alta produção de anticorpos. É o melhor momento de proteção. No Brasil, é cara e ela está aprovada gratuitamente, disponível no SUS, para crianças e adolescentes, com uma administração única, e para pessoas até 45 anos imunossuprimidas.

Ainda que disponível, a cobertura é muito baixa. No DF, não chega a 15%. Outros países que reduziram o diagnóstico vacinam de maneira mais ampla?

Os países com eliminação, como Reino Unido e a Austrália, com alta adesão, são países que focaram na vacinação dentro da escola. No ano de 2014, quando foi implementada a vacina, a taxa de cobertura foi mais de 90%. Quando o Brasil tirou a vacinação da escola, teve uma queda. 

A descoberta da lesão é reversível? Em quanto tempo uma lesão no colo do útero se transforma em um câncer?

O processo desde a infecção até um câncer de colo de útero pode demorar de 10 a 15 anos. Mas, uma vez que o processo pré-maligno começa, ele precisa ser tratado. Caso a paciente desenvolva a lesão pré-maligna, é mais facilmente tratável do que um câncer, com uma cauterização ou cirurgia pequena.

E a cura?

É uma doença altamente curável, e depende altamente do estágio. Inicialmente, não avançado, a taxa de cura é próxima de 90%. Isso vai caindo à medida que a doença aumenta.

É uma doença que tem média de 19 mortes por dia. Então, há uma dificuldade enorme de acesso, ainda que ele funcione muito no país.

Esse é o ponto, a doença é altamente curável no início. Mas, no Brasil, de 60% a 70% das pacientes chegam para tratamento com a doença localmente avançada, que é onde a taxa de mortalidade já é mais significativa. 

A ciência tem avançado nos tratamentos contra os cânceres em geral. No câncer do colo de útero, isso também é uma realidade? 

Os principais avanços são de tratamentos medicamentosos para doença mais avançada, a introdução de drogas-alvo direcionadas e medicina de precisão e a imunoterapia. Para doença inicial, o tratamento é a cirurgia, com altas taxas de cura. Acesso é sempre um problema, pois é uma doença que acomete principalmente pacientes de baixa renda, com maior vulnerabilidade. O câncer de colo de útero não é mais um desafio científico, e sim político — que as ferramentas existentes cheguem à população. O que temos cobrado do parlamento é a organização das implementações e acompanhamento dos desfechos. 

Entra nessa discussão um maior estímulo à vacinação? Também é um caminho de políticas públicas?

A vacinação tem de ser prioridade absoluta. Uma dose de vacina pode eliminar o câncer de colo de útero. Se queremos eliminar rápido, é Papanicolau, HPV DNA, preventivo e tratar rápido. Mas, para eliminar no longo prazo, é a vacinação. 

O que o SUS disponibiliza hoje para o tratamento no caso do câncer de colo de útero e de outros cânceres ginecológicos? 

O SUS disponibiliza cirurgia, radioterapia e quimioterapia. Os tratamentos de imunoterapia e inibidores de angiogênese não estão disponíveis. Mas o crítico no sistema de saúde é o tempo para chegar ao tratamento.

Assista à entrevista

*Estagiária sob a supervisão de Malcia Afonso

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GC
postado em 11/09/2026 05:00
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