A beleza nada mais é que uma graça que nasce de proporção e conveniência, e de harmonia entre as coisas - Pietro Bembo
Por Jorge Henrique Cartaxo*
Quando Lucio Costa, a bordo do navio Rio Jáchal, em dezembro de 1956, com destino ao Rio de Janeiro, fez o esboço inicial do Plano Piloto de Brasília, sua inteligência, criatividade e cintilante genialidade haviam sido capturadas pela distinção. Lucio — em companhia de suas filhas Maria Elisa e Helena — havia desembarcado em Nova York, em outubro de 1956, onde iria receber uma medalha de honra da notável Parsons School of Design (a Medalha Parsons era conhecida como "Distinguished Achievement Award"). Na mesma cerimônia, no hotel Waldorf-Astoria, em dia 1º de novembro, também estavam sendo homenageados o célebre estilista francês Christian Dior, o designer italiano Franco Albini e o designer de móveis britânico Sir Gordon Russell.
Leia também: 50 anos sem JK: Brasília, como poderei viver sem a tua companhia (parte 1)
O Rio Jáchal era um transatlântico de luxo, totalmente climatizado, com um grande salão social, um teatro, uma biblioteca, cabines-suítes, convés Lido em estilo modernista, piscina e bar ao ar livre. Foi ali, singrando o Atlântico durante 12 dias em direção ao Rio de Janeiro, que Lucio Costa rabiscou sua primeira versão do que viria a ser o vitorioso projeto do Plano Piloto de Brasília, a nova capital do Brasil. A originalidade de Lucio Costa não excluiu, pelo menos, três notáveis inspirações, reconhecidas por ele e pelos estudiosos de sua vida e de suas obras extraordinárias: Roma, Paris e Londres. As clássicas metrópole.s europeias e ocidentais, as grandes urbs e civitas que produziram o saber e a estética que moldaram nossa civilização, ofereceram-nos o que elas têm de mais nobre, apreciável e vivível.
Roma, desde a Pax Romana com Otávio Augusto (27 a.C.), trouxe o direito, a arquitetura e a filosofia estoica, incorporando-as ao pensamento do mundo romano. No Renascimento (séculos 15 e 16), com Michelangelo Buonarroti, Rafael Sanzio, Sandro Botticelli, Antonio Sangallo, Egídio da Viterbo, Pietro Bembo e Tommaso Inghirami, a Cidade Eterna passou a ser o grande centro da produção artística, arquitetônica e filosófica do Ocidente. Lucio começa o Memória Descritiva do Plano Piloto de Brasília com uma cruz: o sinal da cruz do sagrado, do monumental e do eterno!
Leia também: Brasília: diplomacia, história e estética
A Catedral de Notre-Dame, na Île de la Cité, em Paris, no primeiro século do segundo milênio (1100—1200), passou a abrigar um conjunto de escolas para a preparação de sacerdotes, monges e administradores eclesiásticos, bem como para o aprendizado da leitura, da escrita, do canto litúrgico e da doutrina cristã. A reunião dessas escolas formou uma corporação de ensino (universitás) em torno da catedral. No século 13, em 1257, o teólogo Robert de Sorbon — capelão e confessor do rei Luís 14 — fundou o Collège de Sorbonne, que teria como público preferencial os jovens pobres que buscassem estudar teologia. Em pouco tempo, aquele espaço do saber seria o centro da Escolástica na Europa. O Iluminismo, no século 18, trouxe a razão para o centro da ordem das coisas.
Leia também: 50 anos da morte de JK e uma capital sob ataque
Nesse mesmo movimento, estabeleceram-se as bases do que seria a democracia moderna, a cidadania e o Estado de Direito. Com a revolução urbana conduzida por Napoleão 3º, sob a coordenação do Barão Haussmann, na segunda metade do século 19, a Cidade Luz se apresentou ao mundo como a singular metrópole moderna do Ocidente: parques, avenidas, boulevards, praças e monumentos exuberantes. Ordem, racionalidade, simetria e rigorosos alinhamentos geométricos orientavam a ocupação e as edificações no espaço urbano. Lucio Costa, inspirado na Carta de Atenas, compartilhou, a seu modo, a mesma lógica de organizar e hierarquizar a cidade e suas funções: trabalhar, morar, estudar e ter lazer; os eixos, as quadras, os setores, a Esplanada e a Praça dos Três Poderes.
Londres, desde o século 17, com a fundação da Royal Society, passaria a abrigar as mais importantes pesquisas científicas e o pensamento empírico da época. O conhecimento humano por meio do experimento e da observação, para o ser humano e pelo ser humano. No século 19, com a Revolução Industrial e a expansão do Império Britânico, a Inglaterra se credenciou como a sede da inovação tecnológica, dos botânicos, dos biólogos, dos estudos da anatomia e da medicina, dos arqueólogos e dos viajantes. Pelo menos três novas universidades, além das tradicionais Oxford e Cambridge, foram fundadas nas margens do Tâmisa na primeira metade do século 19: a University College London, a King's College London e a Universidade de Londres.
No fim do século 19, o urbanista britânico Ebenezer Howard criou as Garden Cities of Tomorrow (As cidades-jardins do amanhã). Era uma resposta ao caos que as cidades industriais criavam com seu adensamento desordenado. Em uma palavra, ele propunha unir, num espaço urbano controlado, a aprazibilidade da natureza (ar puro, espaço e harmonia) e o melhor das cidades (trabalho, remuneração e cultura). Em 1944, o governo britânico contratou o urbanista Sir Patrick Abercrombie para planejar a reconstrução de Londres, parcialmente destruída durante os bombardeios nazistas. Abercrombie não implantou o projeto de Howard, mas resgatou seu conceito de cidade-jardim, definindo um cinturão verde em torno da capital inglesa.
Certamente, foi sob a sinfonia dos ventos e o aroma do mar que Lucio Costa trouxe essa densidade para incorporar ao seu Memória Descritiva do Plano Piloto, o coração da civitas que ele acalentava dentro de si: a Cidade Universitária, a UnB. "...sendo o último o da Educação, a fim de ficar vizinho do setor cultural, tratado à maneira de parque para melhor ambientação dos museus, da biblioteca, do planetário, das academias, dos institutos etc., setor esse também contíguo à ampla área destinada à Cidade Universitária", escreveu Lucio Costa, no item 9 de seu histórico documento. Estavam ali, também, os eflúvios da Roma eterna; a Sorbonne, o Iluminismo e a Paris de Haussmann; os britânicos, suas técnicas e seus jardins.
*Jorge Henrique Cartaxo é jornalista, mestre em história pela Universidade Paris-Sorbonne
