Por Murilo Borsio Bataglia*
Canais de WhatsApp com milhões de seguidores. Explosão de informações e mobilizações nesta campanha eleitoral, especialmente no segundo turno. Este artigo reflete sobre o futuro do campo progressista após as eleições, considerando a sociedade da informação e os movimentos das candidaturas.
A realidade é digital: as tecnologias de informação e comunicação mesclam o analógico ao digital, e as redes sociais integram o cotidiano. O segundo turno das eleições de 2026 retrata essa dinâmica: articulação de bases eleitorais e engajamento político em torno de visões de mundo, tendo as ferramentas digitais como peça-chave.
Redes sociais e grupos de mensagens são arenas de debate e articulação, estruturadas por identificações coletivas. Vivemos em uma sociedade em rede, conectada pela circulação de informações. O fluxo, antes predominantemente unidirecional, tornou-se multidirecional: todos podem produzir e consumir informações, ampliando a participação, mas também os riscos de desinformação e polarização.
Castells, em A sociedade em rede (2000), analisa como a identidade contribui para a construção de significados sociais. Kstas Kirtiklis (2017) destaca a lógica das redes e as transformações do tempo e do espaço provocadas pelas tecnologias de comunicação. A informação não é apenas conteúdo: tornou-se recurso de articulação, influência e poder. Essa questão também dialoga com o direito à informação: dados públicos precisam ser compreensíveis e verificáveis para fortalecer a participação e o controle social.
Diante do cenário eleitoral, a pergunta é: como o campo progressista pode se alinhar e se organizar nos próximos quatro anos?
O momento exige novas lideranças progressistas capazes de usar essas ferramentas e circular entre realidades sociais distintas. Em uma sociedade conectada, mas marcada por desigualdades de acesso e participação, dialogar com eleitores e grupos sociais fortalece a legitimidade e a representatividade, valores essenciais à democracia.
Jovens, igrejas, trabalhadores autônomos e por aplicativos, pequenos e grandes empreendedores, influenciadores e moradores das periferias não podem ser tratados apenas como segmentos eleitorais. Suas experiências e insatisfações precisam ser ouvidas. A partir dessa escuta, é possível construir identificação e formular pautas que mostrem como as decisões políticas afetam a vida cotidiana.
Também será necessário acompanhar temas que atravessam o futuro do país: relações internacionais e parcerias com China, União Europeia e Mercosul; autonomia brasileira diante de pressões externas; regime de trabalho; segurança pública e redução da maioridade penal; datacenters e inteligência artificial; direitos das minorias; e manutenção e aperfeiçoamento de políticas públicas e programas sociais. A agenda ambiental deve ser articulada ao desenvolvimento econômico, discutindo o papel do Estado como indutor do desenvolvimento e as parcerias com a iniciativa privada, com transparência e distribuição dos benefícios.
O desafio é transformar alcance e mobilização digital em organização política, identificação, participação, e defesa de direitos.Todos esses elementos passando pela comunicação. O campo precisará avaliar onde perdeu vínculos, quais pautas não conseguiu traduzir e como ampliar sua presença entre grupos diversos. Não basta manter canais ativos ou contar seguidores: é preciso criar espaços de diálogo, formar lideranças e acompanhar as políticas que defende nas diversas redes e grupos.
No Distrito Federal, a presença nas diferentes regiões administrativas faz diferença. É preciso acompanhar demandas locais, ouvir lideranças comunitárias e compreender como serviços e políticas públicas chegam — ou deixam de chegar — à população. A atuação nas regiões do DF exige continuidade, confiança e compromisso com resultados.
Nos próximos quatro anos, a capacidade de ouvir, articular e responder às demandas sociais será tão importante quanto comunicá-las. Afinal, as eleições terminam, mas a disputa por legitimidade, ideias e confiança continua todos os dias.
* Murilo Borsio Bataglia é especialista em direito eleitoral e pró-reitor da Estácio Brasília
