Das ruas das cidades do Distrito Federal aos palcos de uma das maiores competições de rima do país, na tarde deste sábado (31/10) 16 MCs de diferentes regiões administrativas da capital federal se reuniram para disputar o título do Estadual DF de MCs 2026. Mais do que conquistar o reconhecimento na cena local, os participantes entraram na competição com um objetivo em comum, que é garantir uma vaga no Duelo Nacional de MCs, marcado para 21 de novembro, em Belo Horizonte (MG).
A disputa deste sábado representa o encerramento de um processo iniciado nos últimos meses, onde ao todo, foram realizadas 32 pré-seletivas em diferentes regiões administrativas do DF, com a participação de mais de 100 MCs. Em cada uma dessas etapas quatro competidores avançaram para uma das oito seletivas regionais, que reuniram 16 participantes cada. Apenas os campeões e vice-campeões dessas disputas conquistaram uma vaga na etapa final.
Entre os 16 classificados, nomes como Luffy, presente nas edições de 2024 e 2025, Jeffe, participante em 2022 e 2023, e Diogo, que disputou o campeonato em 2022 e 2025, retornaram à competição. Ao lado deles, estreantes como Zuko, Bruce, Aline, Ruaz, Kairoz, Tito, Zahard e THN.
Para Jams, 23 anos, morador de Sobradinho e um dos coordenadores do Estadual, o campeonato representa uma oportunidade de ultrapassar as fronteiras das regiões administrativas e apresentar novos talentos ao cenário nacional. Segundo ele, a dimensão da competição está justamente na possibilidade de reunir artistas de diferentes realidades em uma mesma disputa.
"O Estadual tem uma importância significativa porque dá oportunidade para um moleque que está no fundão do Itapuã ou lá da Samambaia participar dessa competição e acessar lugares que talvez fossem difíceis.", destaca.
O Distrito Federal também carrega uma trajetória de conquistas no Duelo Nacional de MCs. Nas edições de 2016 e 2020/2021, os representantes brasilienses conquistaram o título brasileiro. Entre os nomes que ajudaram a construir essa história estão Mc Sid e Alves, campeões nacionais que, segundo Jams, se tornaram referências na cena do Hip-Hop.
Uma vida entre versos
Para alguns dos finalistas, a disputa pelo título representa mais um capítulo de uma trajetória construída ao longo de anos nas batalhas de rua. É o caso de MC Nonô, 25 anos, de Ceilândia Norte, teve seu primeiro contato com as batalhas ainda na infância, aos 10 anos, quando começou a acompanhar artistas como Emicida, Douglas Din e Tribo da Periferia, que hoje produz músicas com o grupo.
Foi em 2014, ao frequentar a Batalha da Sequela, que Nonô começou a construir seu caminho como MC. Em 2018, conquistou títulos em estados como São Paulo, Bahia, Goiás, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais. Já em 2022, representou o Distrito Federal no Duelo Nacional de MCs, quando conquistou o título de campeão regional. "É um sonho que carrego desde que me entendo por gente. Essa competição foi responsável por gerar perspectivas onde, muitas vezes, elas sequer existiam", afirma.
Segundo ele, a cultura representa uma alternativa para jovens periféricos que convivem com a falta de oportunidades e de incentivo artístico. O MC conta que conhece pessoas que passaram por processos de ressocialização e encontraram nas rimas uma possibilidade de reconstruir a própria vida. "A maioria dos participantes são jovens periféricos, muitas vezes sem estrutura ou oportunidades, que encontram na cultura uma forma de se esquivar dos problemas cotidianos e, em muitos casos, até de se afastar da criminalidade.", ressalta.
Da curiosidade ao palco
A trajetória de MC Leone, 25 anos, também começou de maneira despretensiosa. Em 2016, enquanto caminhava com um amigo, passou em frente à Batalha da Estação e ficou curioso com o que acontecia naquele espaço. O artista conta que escuta rap desde os seis anos e que, durante a adolescência, começou a escrever poesias, até encontrar nas batalhas uma oportunidade de transformar as palavras em improviso. "Estava passando em frente à Batalha da Estação com um amigo, fiquei curioso sobre o que se tratava, e a minha mente naquela hora me disse: 'Você sabe fazer isso, vai lá'. E o resto é história", relembra o MC, que participou do Estadual em 2023 e retornou à disputa neste sábado.
Para Leone a competição carrega um significado que vai além da conquista individual. "As expectativas sempre são as melhores, o Hip-Hop do DF está em festa. Confesso que dá um frio na barriga, mas é normal, pois o Estadual DF possui uma importância enorme não só para mim, mas também para inúmeros MCs do nosso estado", conta.
A voz feminina nas batalhas
Em meio aos 16 MCs que disputaram o título estadual, MC Aline, 28 anos, de Planaltina, foi a única mulher a conquistar uma vaga na competição. A trajetória de Aline nas batalhas começou em 2016, na Guerra do Flow, realizada em Planaltina. Na época, foi justamente a presença de outra mulher entre os competidores que despertou nela a coragem para subir ao palco e improvisar os primeiros versos. Dez anos depois, a MC se viu ocupando o mesmo espaço de representatividade que a inspirou no início da carreira "Eu vi que tinha apenas uma mina batalhando, e isso me encorajou. Uma mina ver outra mina batalhando já me encorajou a batalhar também. Então fui lá, botei a cara, comecei a batalhar e desde lá não parei mais", relembra.
Em 2024, foi eliminada na semifinal da etapa regional. Neste ano, conseguiu avançar até a disputa estadual e chegou entre os quatro melhores competidores. Para ela, a evolução representa uma superação das próprias inseguranças e reforça a vontade de continuar competindo. "Desde 2016 eu nunca tinha tentado porque não me achava capaz. Em 2024, tentei e perdi na semifinal do regional. Esse ano me classifiquei para o Estadual e perdi na semifinal do Estadual. Então as coisas estão dando certo, fiquei muito feliz. No ano que vem vou tentar de novo", afirma.
Mais do que a classificação, ela espera que sua presença incentive outras mulheres a ocuparem espaços nas batalhas de rima."Eu acho que é importante ter uma mina no Estadual porque as outras minas vão ver e se sentir à vontade de participar também", destaca a rimadora, que pretende retornar à competição no próximo ano.
Novos talentos
Entre os estreantes da edição está Tito Noleto, 15 anos, que começou a brincar de fazer rimas ainda na infância, por volta dos seis ou sete anos. Aos 11 ou 12, passou a improvisar versos com colegas durante os intervalos da escola. A estreia no Estadual representa, para Tito, a oportunidade de participar de uma competição que reconhece os artistas e abre portas para MCs de diferentes regiões "O campeonato é muito democrático, porque abre espaço para todas as regiões do DF competirem e para várias batalhas participarem do processo seletivo", explica.
Na avaliação do artista eventos dessa dimensão também contribuem para uma discussão sobre as condições de trabalho dos MCs e a necessidade de reconhecer as batalhas como uma manifestação artística que merece investimento e estrutura "Um campeonato desse, com essa estrutura, essa visibilidade, essa notoriedade e uma premiação que respeita o trabalho dos MCs, é fundamental. Estrutura uma parte do que a gente quer construir, que é o MC com respeito, com dignidade e com valorização artística", destaca Tito.
