Música

Don L transforma crise e desigualdade em rap indicado ao Grammy Latino

Don L apresenta Caro vapor II no Sesi Lab, amanhã. Disco concorre ao prêmio de Melhor álbum de música urbana em língua portuguesa no Grammy Latino

Caro Vapor II dá continuação à história que começou a ser contada em 2013 -  (crédito: Bel Gandolfo)
Caro Vapor II dá continuação à história que começou a ser contada em 2013 - (crédito: Bel Gandolfo)

Apesar de ter nascido no Distrito Federal, o rapper Don L se considera cearense — foi criado em Fortaleza, capital para onde se mudou aos apenas 2 anos de vida. De lá, herdou o viés político que retrata nas composições desde uma época que, segundo ele, não havia nenhuma perspectiva de se viver de rap no Nordeste. "A gente fazia música por amor e quase como um movimento social", define o artista. Treze anos após a estreia do primeiro álbum, o compositor celebra a primeira indicação ao Grammy Latino pelo trabalho em Caro vapor II, álbum que apresenta amanhã, no Night Lab.

Don L explica que o viés político nas rimas era tradição do movimento hip-hop cearense. "Inclusive, a gente tinha uma conexão muito forte com a escola de Brasília do Gog, um cara que sempre foi muito presente na nossa formação", cita o rapper. "Ele já era um dos grandes na época em que comecei e, entre os maiores, um dos únicos que olhava realmente para o Nordeste", destaca o artista, que ressalta a falta de mercado na região na época.

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"Não só o rap, mas a música como um todo é sempre política", declara o cearense. "Ela é feita a partir da lente em que as pessoas enxergam o mundo. A tropicália mesmo, por exemplo, foi uma forma de ver o mundo. As pessoas ouviam Caetano, Gil e Chico e pensavam: 'Isso é uma tradução do que eu sinto'. Assim como o rock, com os Beatles e Rolling Stones, e o movimento hippie", lista o compositor que canta versos como "O Estado é só um ganso/E vocês tão brigando por migalha" em Imigrante.

A faixa é uma das 15 que fazem parte de Caro vapor II, que concorre ao prêmio de Melhor álbum de música urbana em língua portuguesa no Grammy Latino. "É um disco que, ao mesmo tempo que é muito original, não passa como experimental. É rap e pop. E essa é a minha grande ambição artística: fazer algo propositivo, de vanguarda, mas que seja popular e se comunique com as pessoas", explica. "É um trabalho que tem a capacidade de dialogar muito com o momento atual e com o que a gente vive, por falar de questões subjetivas, mas em perspectiva com o que está acontecendo no mundo", afirma.

O álbum é um reflexo de como Don L se vê diante de um mundo dominado por um capitalismo avançado. "Não sei o que vai acontecer nos próximos 10, 20 anos, mas tenho certeza que no futuro esse momento histórico será lido como o fim de uma era", diz o rapper. "Estamos no meio de um terremoto, em que o novo ainda não veio e o velho já morreu. Tentamos fazer com que o novo não seja o pior possível", lamenta o artista.

"A gente vive um momento histórico de pré-guerra, mais ou menos, e o que tentamos fazer é manter a cabeça erguida, acreditar nos nossos sonhos e semear opções de vida para o agora. Os movimentos culturais sempre trazem uma forma de se colocar no mundo, e eu estou propondo uma forma de nos colocarmos em um mundo em guerra, na iminência de uma catástrofe", acrescenta o rapper.

O projeto dá continuação à história que começou a ser contada em 2013, com Caro vapor / Vida e veneno de Don L, álbum de estreia do rapper. "A chamada sociedade do cansaço é mais antiga do que o meu primeiro disco, mas era ali que ela estava começando a ser sentida. Agora, nesse novo álbum, vejo que talvez todos os nossos sonhos foram ainda mais compactados para o tamanho de uma tela de celular, uma consequência de um capitalismo subdesenvolvido", opina o músico.

Apesar do momento atual, o artista acredita, sim, em uma mudança política no futuro. "Esse estado de profundas dificuldades também propicia grandes revoluções. Isso aconteceu várias vezes ao longo da história. Eu não sei o que vai acontecer, só sei que é inevitável. É matematicamente insustentável um país em que 1% da população tem mais do que 50% dos recursos. Como é viável? Isso provoca um colapso econômico, a não ser que a gente esteja falando de uma escravidão. E todo modelo de escravidão um dia leva a uma revolução, porque a maioria das pessoas irão se levantar contra os opressores", defende.

Forma e discurso

Para além da realidade retratada nas composições, Don L carrega o Brasil em um mosaico de sonoridades nacionais que compõem o álbum, passeando pela bossa nova, jazz, samba, baião e funk. "Quando comecei, tinha a necessidade de me diferenciar do resto do Brasil. Sentia que precisava fazer algo totalmente único, ou não teria chance, porque o natural era que as pessoas ouvissem o rap de São Paulo e do Rio de Janeiro. Fazia isso de forma intuitiva, mas depois aprendi que forma e discurso não se separam, e essa sonoridade era o que fazia sentido com minhas composições", relata.

Hoje, ele utiliza do mesmo artifício para se diferenciar do hip-hop internacional. "O rap em si é um um ritmo que vem do estrangeiro, então, em algum momento, eu quis fazer algo totalmente brasileiro, até porque a gente tem uma invasão cultural muito grande da música dos Estados Unidos no Brasil", pontua Don L. "A nossa indústria aceita o imperialismo cultural norte-americano e constantemente traz artistas estrangeiros para cá, pagando cachês que eles não recebem nem em países que são muito mais ricos do que nós", queixa-se.

"Somos um país de Terceiro Mundo, empobrecido pela desigualdade, na qual a renda média da população é de R$ 3 mil. Ainda assim, festivais gastam milhões trazendo artistas internacionais para cá, além de pagar mal aos brasileiros. Anitta e Ludmilla, por exemplo, representam, muitas vezes, uma venda de ingressos maior do que os gringos e recebem cachês 10 vezes menores", denuncia. "Nós não devemos abrir o nosso mercado para qualquer um que queira vir aqui e levar nosso dinheiro. A gente já faz isso com o petróleo, com o minério de ferro e com todas as nossas riquezas naturais — a cultura também é uma", finaliza o rapper.

Don L apresenta Caro vapor II

  • Amanhã, às 22h, no Night Lab (SESI Lab — ao lado da Rodoviária do Plano Piloto).
  • Ingressos podem ser adquiridos na bilheteria do evento, no dia do show, a partir das 17h.
  • Valores variam entre R$ 20 (meia-entrada) e R$ 40 (inteira).
  • Não recomendado para menores de 18 anos.

 


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postado em 30/09/2026 05:00
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