
Como construir cidades onde se viva bem? A pergunta orienta a XIV Bienal Ibero-Americana de Arquitetura e Urbanismo (BIAU), aberta nesta terça-feira (3/11), no Sesi Lab, em Brasília. Até sexta-feira (6/11), o evento reúne arquitetos, urbanistas e pesquisadores de 22 países da América Latina e da Península Ibérica, com programação gratuita e aberta ao público.
Os debates desta edição se organizam em torno de água, vegetação, habitação, comunidades e novos territórios. Todas as atividades são gratuitas, com inscrição on-line, e estão sujeitas à lotação. A programação inclui mesas no Sesi Lab e na UnB, visitas guiadas pela arquitetura de Brasília, a Mostra Cinema Urbana no Cine Brasília e uma festa aberta ao público no Sesi Lab, na quinta-feira (5/11), às 19h30.
Fique por dentro das notícias que importam para você!
Na abertura, o arquiteto português Nuno Sampaio, curador desta edição, disse que realizar a bienal em Brasília significa discutir a construção de uma cidade a partir de um projeto de sociedade. Para ele, a capital reúne os projetos e as contradições dessa sociedade e, como cidade vivida, torna-se pertinente para o debate contemporâneo.
Sob o tema "Cuidar da Vida", segundo o curador, a bienal propõe que a arquitetura seja uma prática comprometida com o que já existe, com os sistemas ambientais e com as dinâmicas sociais. "Temos como obrigação intervir em uma realidade cada vez mais global, desde as alterações climáticas na América do Sul e na Europa até as problemáticas sociais da habitação", afirmou.
- Leia também: Habitação popular é também construção de cidade
Sampaio também provocou a plateia com a ideia de que a arquitetura serve para evitar um desastre, e disse que cabe aos profissionais refletir sobre a capacidade que têm, ou não, de transformar essa realidade.
Cecília Gomes de Sá, arquiteta e subsecretária de Espaços e Equipamentos Culturais do Ministério da Cultura, chamou o tema da bienal de urgente. "Quando decisões que moldam a vida urbana se concentram em poucas empresas, a própria capacidade coletiva de decidir o futuro das cidades fica ameaçada", pontuou. Segundo ela, esse cenário se soma às catástrofes climáticas, que atingem sobretudo as populações mais vulneráveis.
Para a secretária, cabe à arquitetura devolver a perspectiva de futuro. "Precisamos urgentemente retomar a esperança. E isso os arquitetos sabem fazer muito bem", afirmou. Ela defendeu cidades em que todo cidadão tenha vida digna, com água limpa, rios limpos, casa segura e espaços de encontro e de bem viver. "O que a sociedade clama hoje, no fundo, é por escuta e cuidado."
A subsecretária citou a Política Nacional de Arquitetura e Infraestrutura Cultural e disse que desenhar cidades e equipamentos públicos é hoje uma resposta ética e política, com soluções baseadas na natureza que devolvam vitalidade ao cotidiano urbano. "Cuidar do espaço é cuidar de quem habita”, afirmou.
"Nossas cidades são um espelho do racismo"
A abertura também teve a entrega do Prêmio Trajetória. Segundo Nuno Sampaio, a distinção convida a olhar a arquitetura para além das obras individuais, reconhecendo as experiências e ideias construídas ao longo de uma vida. Entre os premiados está a urbanista brasileira Ermínia Maricato, referência em planejamento urbano e pesquisa acadêmica na América Latina, com atuação em políticas de habitação na Prefeitura de São Paulo.
No discurso, Ermínia apontou a propriedade da terra como um nó das relações sociais no Brasil, e lembrou a desigualdade racial nas periferias. "As nossas cidades são um espelho do racismo", afirmou, citando diferenças entre a quantidade de imóveis vazios na cidade de São Paulo, em comparação ao déficit habitacional da cidade.
A urbanista criticou a privatização das políticas públicas e o novo papel do mercado imobiliário que, segundo ela, alimenta uma crise de moradia em todos os países da região. Tudo isso, disse, acompanhado da crise climática. "Não é o planeta que está em risco. É a humanidade. Além de saúde, arquitetura é segurança, bem estar. Nós somos necessários e importantíssimos para cuidar da vida”, enfatizou.
Ermínia defendeu o papel dos arquitetos na saúde e na segurança da população, reforçando que os profissionais são essenciais para a construção de espaços sustentáveis e com boa qualidade de vida. "Nós somos dispensáveis? Nós somos luxo?", questionou.
Sem terminar no pessimismo, ela recorreu a Paulo Freire para dizer que é preciso "esperançar" e defendeu a retomada da reforma urbana, do cooperativismo e do associativismo. Encerrou com o mote da Bienal: "Vamos cuidar da vida!"
Serviço
XIV Bienal Ibero-Americana de Arquitetura e Urbanismo (BIAU)
Data: 3 a 6 de novembro de 2026
Locais: SESI Lab, Universidade de Brasília (UnB), Cine Brasília, Galeria Index, Teatro Nacional Cláudio Santoro e Embaixada de Portugal
A programação pode ser verificada no site oficial da Bienal Iberoamericana
Inscrições: https://www.eventbrite.es/e/pre-inscricao-xiv-biau-brasilia-2026-tickets-2000409399363
*Estagiária sob supervisão de Márcia Machado
Brasil
Brasil
Brasil