Planeta em ebulição

Último triênio foi o mais quente já registrado

Pela primeira vez, planeta chegou a três anos seguidos com temperatura 1,5°C acima dos níveis pré-industriais. Aceleração dessa tendência de aquecimento extremo atormenta cientistas; 2025 foi o terceiro ano mais quente na história

Incêndios florestais de muita gravidade e imensa extensão, como este na França, têm se tornado cada vez mais comuns — e assustadores — na Europa devido às mudanças climáticas -  (crédito: AFP)
Incêndios florestais de muita gravidade e imensa extensão, como este na França, têm se tornado cada vez mais comuns — e assustadores — na Europa devido às mudanças climáticas - (crédito: AFP)

O termômetro global ultrapassou nos últimos três anos os níveis pré-industriais em mais de 1,5°C. O alerta foi divulgado no novo relatório publicado pelo observatório europeu Copernicus. Além disso, 2025 foi o terceiro ano mais quente já registrado. Segundo a pasta, 2026 deve seguir o mesmo caminho.

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"O aumento brutal registrado entre 2023 e 2025 foi extremo e aponta para uma aceleração do aquecimento global", alertaram cientistas do instituto Berkeley Earth. Desde o ano passado, a Organização das Nações Unidas (ONU), inúmeros climatologistas e formuladores de políticas públicas reconhecem que o planeta caminha aparentemente de forma inexorável para um aquecimento sustentado de 1,5°C, o limite simbólico estabelecido pelo Acordo de Paris sobre mudanças climáticas, muito antes do imaginado nos piores cenários.

Com três anos consecutivos nesse nível, o Copernicus considera provável que a superação permanente do limite seja confirmada "antes do fim da década, ou seja, mais de 10 anos antes do previsto". A aceleração é ainda mais alarmante porque coincide com um momento em que os Estados Unidos, o segundo maior emissor de gases de efeito estufa, romperam com a cooperação climática internacional e Donald Trump restabeleceu o papel central do petróleo na economia americana.

Para Marco Moraes, divulgador científico e autor do livro Planeta Hostil, o relatório é menos uma "notícia" e mais um "atestado contundente". "O fato crucial é que os últimos 11 anos foram, sem exceção, os 11 mais quentes já registrados, uma sequência inédita que apaga qualquer dúvida sobre a tendência de aquecimento. Mais preocupante ainda é a aceleração dessa tendência: pela primeira vez, a média de um triênio (2023-2025) ultrapassou 1,5°C acima dos níveis pré-industriais. Os números são o termômetro de uma doença profunda, cujos sintomas são sentidos na pele, no prato e no bolso de cada cidadão."

O que 2026 reserva

Em países ricos, o combate às emissões de gases de efeito estufa perde força. Na Alemanha e na França, a redução se estagnou novamente em 2025. Nos Estados Unidos, a reativação das usinas de carvão elevou mais uma vez a pegada de carbono do país, anulando anos de avanços.

"A urgência de agir em relação às mudanças climáticas nunca foi tão grande", afirmou Mauro Facchini, chefe da unidade Copernicus, durante uma coletiva de imprensa. Nada indica que 2026 irá quebrar essa tendência. Samantha Burgess, diretora-adjunta de mudanças climáticas do Copernicus, prevê que "2026 será um dos cinco anos mais quentes já registrados. Provavelmente será comparável a 2025", observou.

Cientistas climáticos do Berkeley Earth também preveem que 2026 provavelmente será semelhante a 2025, "sendo o cenário mais provável o de que se torne o quarto ano mais quente desde 1850". Se o fenômeno El Niño, que provoca o aquecimento do Oceano Pacífico, retornar, "isso poderá fazer de 2026 um ano recorde", disse à AFP Carlo Buontempo, diretor de mudanças climáticas do observatório. Mas "se isso acontecer em 2026, 2027 ou 2028, não muda muita coisa. Segundo ele, a trajetória é muito, muito clara. 

Ainda no ano passado, a temperatura do ar na superfície da terra e dos oceanos estava 1,47°C acima dos níveis pré-industriais, após o recorde de 1,60°C registrado em 2024. Por trás dessa média global, estão recordes regionais, particularmente na Ásia Central, Antártica e no Sahel, região entre o deserto do Saara e a savana do Sudão.

Francisco Eliseu Aquino, climatologista e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), destaca que em 2025 metade do planeta teve mais dias com temperaturas acima da média. "Temos observado o incremento dessas ondas de calor, dos dias consecutivamente muito quentes, às vezes associados a estiagens. Após intenso calor, a circulação do ar induz precipitação e eventos extremos, como tempestades, tornados e granizos, causando assim grandes impactos."

Aquino frisa que essa elevação na temperatura mundial não deve ser interrompida. "Vamos ultrapassar a linha e estabilizar em 1,5 graus Celsius (acima dos níveis pré-industriais), ou mais, até 2030, em mais quatro anos."

Apesar da manifestação do La Niña, 2025 "permaneceu um dos anos mais quentes já registrados em escala mundial, devido ao acúmulo de gases de efeito estufa que retêm o calor na atmosfera", afirmou a secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, em comunicado. O ano passado também teve muitos eventos climáticos extremos, como ondas de calor, ciclones e tempestades violentas na Europa, na Ásia e na América do Norte, assim como incêndios florestais que tiveram intensidade e frequência amplificadas pelo aquecimento global. 

O uso de petróleo, carvão e gás fóssil é apontada como a principal causa dessa elevação nas temperaturas mundiais. No entanto, Robert Rohde, cientista do Berkeley Earth, alerta para outros fatores que podem amplificar o aquecimento. É o caso das normas internacionais que reduziram o teor de enxofre no combustível de navios desde 2020. Isso pode, na verdade, ter contribuído para o aquecimento, ao diminuir as emissões de dióxido de enxofre, que formam aerossóis que refletem a luz solar para longe da Terra.

 

Duas perguntas para

Flávia Martinelli, especialista em mudanças climáticas do WWF-Brasil

Quais são as principais implicações científicas e políticas de o planeta ter ultrapassado, por três anos consecutivos, o limite de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais?

É preciso agir com urgência para evitar os pontos de não retorno. Estamos falando da Amazônia deixar de ser a floresta que é, o que pode desregular ainda mais o clima, e da extinção dos corais e a biodiversidade que depende deles, além de outras consequências. Isso representa mudanças de economias inteiras, mortes e perda de qualidade de vida, desenvolvimento de novas doenças, insegurança alimentar, entre outros danos. Os governos precisam encarar o clima com a seriedade necessária, e se preparar para esses cenários extremos, investindo pesado tanto em mitigação, para redução de emissões de gases de efeito estufa, quanto em adaptação, para prevenir perdas de vidas, de biodiversidade e econômicas.

Até que ponto a retração das políticas climáticas em países desenvolvidos pode comprometer a capacidade global de mitigar o aquecimento nas próximas décadas?

Sendo a crise climática uma crise global, necessita-se o envolvimento do maior número de países possível agindo para contê-la, especialmente os países desenvolvidos, que não só são os principais emissores, como também são os que têm capacidade econômica para agir.  Países com florestas tropicais podem combater desmatamento e nações produtoras de petróleo podem investir em uma transição energética justa. Adicionalmente, os governos subnacionais também exercem um papel importante, como alguns estados americanos que protagonizaram no primeiro governo Trump uma série de ações climáticas relevantes em oposição aos posicionamentos presidenciais.

 

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postado em 15/01/2026 05:03
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