DIETA PROMISSORA

Comer bem pode contribuir para melhor visão, segundo estudo

Estudo com 2,4 mil jovens de 12 a 18 anos encontrou associação entre um padrão alimentar rico em vegetais e grãos integrais, com predomínio de gorduras insaturadas, e risco 41% menor de desenvolvimento da miopia

A análise mostrou que dieta rica em ultraprocessados e gorduras saturadas aumenta riscos de miopia -  (crédito: Pexels/Divulgação)
A análise mostrou que dieta rica em ultraprocessados e gorduras saturadas aumenta riscos de miopia - (crédito: Pexels/Divulgação)

Um padrão alimentar inspirado na dieta mediterrânea foi associado à redução de até 41% do risco de um adolescente sofrer de miopia em um estudo com 2.473 jovens de 12 anos a 18 anos. A pesquisa, publicada agora na revista British Journal of Nutrition, analisou dados de norte-americanos entre 2005 e 2008 e identificou que, quanto melhor a qualidade da alimentação, menor as probabilidades de desenvolver a condição visual, definida pelos pesquisadores da Universidade de Nigbo, da China, como erro refrativo igual ou inferior a -0,50 dioptrias. 

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Os autores usaram o índice "pontuação da dieta mediterrânea alternativa" (aMED), que mede o grau de adesão a um padrão alimentar caracterizado por alto consumo de frutas, vegetais, grãos integrais, leguminosas, castanhas e peixes; predomínio de gorduras insaturadas — especialmente provenientes de azeite — e baixo consumo de carnes vermelhas e produtos ultraprocessados. Cada participante recebeu uma nota de 0 a 9, sendo que valores mais altos indicam maior proximidade com a alimentação saudável. No conjunto da amostra, a pontuação mediana foi de 3, considerada baixa.

A comparação entre os grupos de jovens com e sem miopia mostrou que os primeiros tinham, em média, pontuações mais baixas no índice aMED. Após ajustes estatísticos de variantes diversas, os pesquisadores observaram que cada aumento na adesão ao padrão mediterrâneo esteve associado a uma redução significativa no risco do erro refrativo. Aqueles com maior pontuação chegaram a ter 41% menos chance de apresentar o problema, comparado aos com as piores notas. 

Mecanismos

Além da análise geral, os pesquisadores investigaram possíveis mecanismos biológicos envolvidos nessa associação. Os resultados indicam que parte do efeito protetor da dieta pode ser explicada por alterações no metabolismo lipídico (as moléculas de gordura). Duas variáveis se destacaram como mediadoras parciais dessa relação: o colesterol alimentar e o ácido eicosatetraenoico (ETA), um tipo de ácido graxo poli-insaturado da família ômega-6. 

Maiores níveis de adesão à dieta mediterrânea estiveram associados a menores níveis dessas substâncias, que, por sua vez, se relacionaram à redução do risco de miopia. Segundo a análise estatística, o colesterol explicou cerca de 23% do efeito observado, enquanto o ETA respondeu por aproximadamente 12%.

O oftalmologista Leôncio Queiroz Neto, diretor-executivo do Instituto Burnier e membro fundador da Academia Brasileira de Controle da Miopia (Abracmo), explica que a dieta mediterrânea melhora a circulação, o que afeta positivamente a saúde ocular. Segundo Neto, quando o transporte de sangue no globo ocular está comprometido, a esclera (a parte branca) se torna maleável, facilitando o crescimento do olho maior do que o normal. "Apesar disso, até agora, não há evidência de que a alimentação ou suplementação, sozinhas, revertam ou interrompam a miopia", ressalta.

Composição

A composição da dieta também foi analisada em detalhes. O estudo aponta que o fator alimentar que mais pesou na redução das chances de miopia foi a maior proporção entre gorduras monoinsaturadas e saturadas, seguido pelo consumo de frutas. Outros componentes, como peixes, leguminosas, castanhas e ingestão moderada de álcool, também contribuíram de forma relevante para o efeito observado.

Os autores destacam que os possíveis mecanismos de proteção envolvem processos anti-inflamatórios e antioxidantes. Nutrientes presentes em frutas e vegetais, como carotenoides, além de ácidos graxos poli-insaturados presentes em peixes e oleaginosas, podem atuar na proteção da retina, na integridade estrutural do globo ocular e na regulação de processos metabólicos associados ao crescimento excessivo do olho — um dos mecanismos fisiopatológicos da miopia.

A nutricionista Carla Bispo, da clínica Metasense, em Brasília, observa que, além dos efeitos antioxidantes e anti-inflamatórios de vegetais, frutas, oleaginosas, grãos integrais e peixe, o padrão alimentar reduz o consumo de carne vermelha, que tem mais gorduras saturadas. "O efeito protetor dessa dieta é a qualidade global, a combinação dos componentes, porque não envolve um nutriente isolado", diz. "Estratégias alimentares como a dieta mediterrânea, que reduz o teor de gorduras saturadas e evita ultraprocessados, açúcar e frituras pode contribuir não apenas para a saúde visual, mas para a saúde cardiometabólica global dos adolescentes conforme o estudo realmente comprova."

Para o oftalmologista Giuliano Dobri, do Hospital Oftalmológico de Brasília (HOB), embora o estudo demonstre uma associação, e não uma relação de causa e efeito, a alimentação pode ser uma orientação complementar aos pacientes. Ele ressalta, porém, que há outros fatores ambientais já bem estabelecidos com o desenvolvimento da miopia: "Os principais são o pouco tempo ao ar livre, especialmente ali na infância, o excesso de atividades de perto, como telas, leitura prolongada e uso intenso de dispositivos eletrônicos, e a privação de luz natural. Esses fatores combinados com a genética explicam grande parte do aumento de miopia nas últimas décadas".

 

Duas perguntas para Júnia Valle França, oftalmologista especialista em pediatria e estrabismo da Olhar Prime

Como a alimentação pode interferir no desenvolvimento da miopia? 

Hoje sabemos que a miopia não depende apenas de herança genética ou do uso de telas. O crescimento do olho na infância e na adolescência é multifatorial, e a cada dia descobrimos que também responde ao estado geral do organismo, especialmente ao metabolismo e à saúde da retina. Uma alimentação rica em açúcar, ultraprocessados e gorduras de baixa qualidade altera hormônios e substâncias circulantes no sangue que podem influenciar também no alongamento do globo ocular — o principal mecanismo da miopia. O estudo mostrou um risco relativo 41% menor entre aqueles que seguiam melhor a dieta mediterrânea — rica em frutas, verduras, peixes, azeite de oliva, feijões e castanhas.

Mas é importante ressaltar que o estudo é transversal, como uma “foto” do momento, não sendo possível provar causalidade. 

Essa associação já foi observada com outros problemas oculares?

Sim. A alimentação saudável já é reconhecida como fator protetor em várias doenças dos olhos, como degeneração macular relacionada à idade, alterações da retina em pessoas com diabetes, olho seco e envelhecimento precoce das estruturas oculares. Essas condições e a miopia compartilham mecanismos ligados à saúde dos vasos do olho, à proteção das células da retina e ao equilíbrio do ambiente ocular. Por isso, faz sentido que um padrão alimentar que protege essas estruturas também esteja associado a menor risco de miopia. (PO)


 

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postado em 24/01/2026 05:03
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