PESQUISA

Colírio feito com sangue do paciente amplia tratamento de olho seco

Pesquisa brasileira desenvolve colírio biológico a pessoas que não respondem às lágrimas artificiais; síndrome atinge até 30% dos adultos e cresce entre jovens por causa do uso excessivo de telas

Usar colírio é uma medida para diminuir sintomas da síndrome do olho seco -  (crédito: Daniel Ferreira/CB/D.A Press)
Usar colírio é uma medida para diminuir sintomas da síndrome do olho seco - (crédito: Daniel Ferreira/CB/D.A Press)

Ardência, sensação de areia nos olhos, vermelhidão e visão turva. Sintomas muitas vezes tratados como algo passageiro podem esconder um problema mais sério: a síndrome do olho seco. A condição, causada pela produção insuficiente ou inadequada de lágrimas, tem se tornado cada vez mais comum, especialmente entre jovens expostos por horas a telas de celulares e computadores. Em casos graves, pode evoluir para complicações sérias e até levar à perda da visão. 

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

Pesquisadores da Fundação Pró-Sangue Hemocentro de São Paulo, em parceria com o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e com a JP Indústria Farmacêutica S.A desenvolvem um colírio biológico feito a partir do sangue do próprio paciente como alternativa para quem não responde aos tratamentos convencionais. A ideia é produzir, dentro da própria instituição, um colírio de soro autólogo, ou seja, feito com o soro do sangue do próprio paciente, para ampliar as opções terapêuticas, especialmente no Sistema Único de Saúde (SUS). 

Siga o canal do Correio no WhatsApp e receba as principais notícias do dia no seu celular

Segundo estimativas citadas por especialistas, a síndrome do olho seco afeta entre 10% e 30% da população adulta, sendo mais frequente em mulheres, sobretudo após os 40 anos. Entre jovens de 18 a 25 anos, cerca de 90% apresentam algum sintoma relacionado à alta exposição às telas e à poluição.

O diretor técnico-científico da Fundação Pró-Sangue, o médico hematologista Alfredo Mendrone Júnior, explica que o uso do soro autólogo já é estudado internacionalmente, com resultados positivos em determinados casos de olho seco. A inovação do grupo brasileiro está na criação de um método próprio de produção para atender pacientes do SUS. 

"O colírio de soro autólogo já tem sido bastante estudado pela comunidade internacional. O que fizemos foi elaborar um projeto para avaliar a eficácia e a segurança de um método desenvolvido internamente para produzir esse colírio para os pacientes do SUS", afirma. 

O processo começa com a coleta do sangue do próprio paciente. Em uma bolsa especial, o soro é separado e depois diluído com solução fisiológica em sistema fechado, o que reduz riscos de contaminação. O material é fracionado em doses individuais, suficientes para cerca de 60 dias de tratamento.

“O mecanismo de ação se baseia no fato de que o soro do sangue contém um concentrado de substâncias muito semelhante aos componentes da lágrima natural saudável”, explica Mendrone.

Diferentemente das lágrimas artificiais, que geralmente contêm substâncias lubrificantes, o soro autólogo reúne proteínas, fatores de crescimento, sais minerais e outros componentes que imitam mais de perto a composição da lágrima natural. O produto final é armazenado em flaconetes e entregue congelado aos voluntários, o que garante a preservação das propriedades biológicas. A tecnologia já foi submetida à patente.

Atualmente, o estudo tratou 20 pacientes, e a meta é chegar a 40 participantes. A incorporação do tratamento ao SUS é um dos principais objetivos da pesquisa.

O colírio biológico não é indicado para todos os casos. Segundo Mendrone, a proposta é atender pacientes com quadros graves que não apresentaram melhora com o tratamento habitual. “Não é para todos os casos. Somente para casos graves que não responderam ao tratamento habitual. É particularmente eficaz para os casos de olho seco decorrente da doença do enxerto contra o hospedeiro após transplante de medula óssea”, afirma.

O que é a Síndrome?

A oftalmologista Stefânia Diniz, membro do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), explica que a síndrome do olho seco ocorre quando os olhos não produzem lágrimas em quantidade suficiente ou quando a lágrima produzida não tem qualidade adequada para manter a superfície ocular protegida.

“As lágrimas são fundamentais para proteger os olhos, garantir conforto visual e manter a visão nítida. Quando esse equilíbrio se perde, a superfície ocular sofre inflamação, podendo causar ardor, sensação de areia, vermelhidão, lacrimejamento reflexo e até visão borrada”, afirma.

Ela destaca que é importante diferenciar o olho seco ocasional da síndrome crônica. O desconforto pontual pode surgir após longas horas diante do computador ou exposição ao vento e ao ar seco, melhorando espontaneamente. Já a síndrome do olho seco é persistente e exige acompanhamento médico e tratamento contínuo.

A condição não tem uma única causa. Entre os principais fatores estão a disfunção das glândulas de Meibômio, responsáveis pela camada oleosa da lágrima, que evita sua evaporação, alterações hormonais, especialmente na menopausa, e doenças autoimunes que afetam a produção lacrimal.

Alguns medicamentos, como antidepressivos, anti-histamínicos e isotretinoína, também podem interferir na quantidade e na qualidade da lágrima. Cirurgias oculares prévias, envelhecimento natural e alterações nas pálpebras completam a lista de fatores associados.

O uso excessivo de telas é um dos vilões mais atuais. “Quando ficamos concentrados em celulares, computadores ou tablets, a frequência do piscar diminui. Isso leva à maior evaporação da lágrima e à instabilidade do filme lacrimal, favorecendo os sintomas e a inflamação”, explica Stefânia.

Na maioria dos casos, não há cura definitiva, mas é possível controlar bem os sintomas com acompanhamento regular. O tratamento costuma incluir colírios lubrificantes, higiene palpebral diária e, em situações específicas, terapias como tratamento térmico das glândulas, luz pulsada intensa (IPL) e tampões de ponto lacrimal, que reduzem a drenagem da lágrima.

A suplementação com ômega 3 também pode ser indicada para melhorar a qualidade da lágrima e reduzir a inflamação.

 

 

  • Google Discover Icon
postado em 07/02/2026 00:13
x