CORPO HUMANO

Treino cerebral de cinco semanas reduz risco de demência por 20 anos

Estudo internacional revela que exercícios específicos de velocidade visual podem proteger a mente duas décadas depois

Pesquisa acompanhou idosos por duas décadas e mostra que exercícios de velocidade cognitiva auxiliam na prevenção do Alzheimer
 -  (crédito: Reprodução/Freepik)
Pesquisa acompanhou idosos por duas décadas e mostra que exercícios de velocidade cognitiva auxiliam na prevenção do Alzheimer - (crédito: Reprodução/Freepik)

Um estudo internacional de longo prazo revelou que um treinamento cognitivo de poucas semanas, voltado à velocidade de processamento visual e à atenção, reduzr o risco de diagnóstico de demência mesmo duas décadas depois.

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A pesquisa, conhecida como estudo ACTIVE, foi coordenada por cientistas da Universidade Johns Hopkins, com liderança do psicólogo George Rebok e participação da pesquisadora Marilyn Albert, diretora do Centro de Pesquisa da Doença de Alzheimer da instituição. O trabalho começou no fim da década de 1990 e acompanhou milhares de idosos por mais de duas décadas, tornando-se um dos maiores estudos já feitos sobre prevenção cognitiva a longo prazo.

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O estudo envolveu 2.802 idosos, com média de 74 anos no início da pesquisa, divididos em quatro grupos. Um realizou treino de memória, outro de raciocínio, outro de velocidade de processamento e o último não recebeu nenhum tipo de treinamento. As atividades duraram entre cinco e seis semanas, com sessões de aproximadamente uma hora. Parte dos participantes também recebeu sessões extras meses depois, para reforçar os estímulos cognitivos.

Ao longo dos anos, os pesquisadores acompanharam 2.021 participantes por meio de registros do sistema de saúde dos Estados Unidos e identificaram quem recebeu diagnóstico de demência até 2019. Entre os resultados, apenas o grupo que realizou o treino de velocidade de processamento apresentou redução no risco da doença. Entre os idosos que fizeram o treinamento completo, incluindo os reforços, a incidência de demência foi cerca de 25% menor do que entre aqueles que não receberam nenhuma intervenção.

O treino não envolvia exercícios de memória tradicionais nem estratégias de raciocínio lógico. Ele era baseado em tarefas visuais feitas no computador, nas quais o participante precisava identificar estímulos rapidamente, dividir a atenção entre diferentes pontos da tela e responder cada vez mais rápido. O sistema se adaptava ao desempenho de cada pessoa, aumentando ou reduzindo a dificuldade de acordo com a resposta do usuário.

Segundo os pesquisadores, o diferencial está no tipo de aprendizagem envolvida. Enquanto treinos de memória trabalham estratégias conscientes, esse tipo de exercício cria respostas automáticas no cérebro, semelhantes à forma como aprendemos a dirigir ou andar de bicicleta. É o que a ciência chama de aprendizagem implícita, que tende a ser mais resistente ao envelhecimento cognitivo.

Marilyn Albert destaca que é surpreendente que uma intervenção tão simples e curta seja capaz de gerar efeitos por tanto tempo. Para ela, os dados mostram que estimular a velocidade de processamento pode ser uma ferramenta real de saúde pública, com potencial para reduzir custos e impactos sociais da demência no futuro. George Rebok reforça que o foco na atenção visual e na rapidez de resposta abre um novo caminho para programas de prevenção voltados à população idosa.

A pesquisa também chama atenção para o contexto da doença. Nos Estados Unidos, levantamentos na área da saúde apontam que uma parcela significativa da população acima de 55 anos pode desenvolver algum tipo de demência ao longo da vida, sendo o Alzheimer o tipo mais comum. Dados da Alzheimer’s Association e de centros de pesquisa em saúde pública mostram que os impactos sociais e econômicos da doença já alcançam centenas de bilhões de dólares por ano

Apesar dos resultados positivos, os cientistas deixam claro que o treino cognitivo não substitui outros cuidados. A prevenção mais eficaz continua sendo um conjunto de fatores, como controle da pressão arterial, glicemia, colesterol, prática regular de atividade física e hábitos de vida saudáveis.

O estudo mostra, no entanto, que o cérebro também pode ser treinado como qualquer outro músculo. Exercitar a rapidez com que a mente processa informações, especialmente por meio da visão e da atenção, pode ser um investimento simples hoje para um futuro com mais autonomia, memória e qualidade de vida.

* Estagiária sob supervisão de Roberto Fonseca

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postado em 12/02/2026 16:32
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